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Estudo revela que paramiloidose se manifesta mais cedo a cada nova geração
23-Abr-2014

Um estudo sobre a paramiloidose desenvolvido por investigadores da Universidade do Porto provou que esta doença se manifesta mais cedo a cada nova geração e aparece mais tarde nas mulheres do que nos homens.

A investigação, a que a “Lusa” teve acesso, foi realizada por uma equipa do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) da Universidade do Porto e recentemente publicada no “Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry”.

Carolina Lemos, Alda Sousa e a sua equipa descobriram que a polineuropatia amiloidótica familiar (PAF), conhecida como paramiloidose ou “doença dos pezinhos”, se torna mais grave de geração em geração e que o aparecimento dos primeiros sintomas surge mais cedo nos homens do que nas mulheres, o que sugere que as hormonas sexuais desempenham um papel na doença.

Com esta descoberta pode prever-se a idade em que os primeiros sintomas poderão surgir, permitindo também conhecer o padrão de transmissão, o que pode ajudar os doentes a lidar com a doença.

A PAF é uma doença neurodegenerativa progressiva e fatal. Embora o mecanismo que a desencadeia ainda não esteja totalmente esclarecido, sabe-se que, tal como outras doenças neurodegenerativas relacionadas com a idade (Alzheimer e Parkinson), está relacionada com depósitos de proteína alterada nos neurónios, que mais tarde morrem, comprometendo as funções que normalmente controlavam.

No caso da PAF, a proteína alterada é a do fígado (Transthyretin). Os sintomas começam por um formigueiro, seguido de perda de sensibilidade nos membros inferiores, que depois se espalha para o resto do corpo. A evolução da doença origina problemas ao nível da respiração e do coração e, a menos que a doença seja travada, podem levar a morte em apenas dez anos.

As zonas com a maior taxa de incidência da doença em Portugal são Póvoa de Varzim e Vila do Conde, onde um em cada mil indivíduos tem a doença e um em cada 538 é portadores do gene mutado.

A equipa do IBMC analisou a maior base de dados de doentes com PAF no mundo, propriedade do Hospital de Santo António, com 2.440 doentes, oriundos de 572 famílias, que foram estudados ao longo de 70 anos.

A partir desta base de dados a equipa usou 926 pares de pais e filhos, de 284 famílias de várias áreas de Portugal. O que descobriram foi «um incrível padrão na transmissão da doença».

A PAF normalmente surge na idade adulta, mas os investigadores descobriram que o seu aparecimento depende muito de quando os pais dos doentes tiveram a doença.

Os investigadores perceberam, por exemplo, que a maioria dos pais em que a doença se manifestou tardiamente, depois dos 50 anos, tinha filhos em que se manifestou mais cedo, por volta dos 40. Pelo contrário, nenhum progenitor que manifestou a doença cedo teve descendentes que a tiveram tarde.

Adicionalmente o risco de ter a doença desde muito cedo, antes de 30 anos, era alto para os filhos de pais que tiveram a doença cedo, por volta dos 40. E era nulo para aqueles cujos pais desenvolveram a doença por volta dos 70 anos.

A equipa descobriu também que as mulheres tendem a ter a doença mais tarde do que os homens, quer seja ao nível dos pais ou dos filhos, revelando um efeito de género no aparecimento dos primeiros sintomas. Isto foi confirmado pela observação de que os filhos de mães afetadas apresentavam as maiores antecipações (diferença de idade entre o aparecimento dos sintomas de pai para filhos) enquanto de pai para filha demonstravam nenhuma antecipação.

«Os nossos resultados podem ter importantes implicações noutras doenças também causadas por mutações isoladas. Para os que tem a mutação do TTR (Transthyretin) provar a existência de antecipação e de um efeito de género revela um padrão na transmissão da doença que permitirá um melhor acompanhamento e, sobretudo, uma deteção e um tratamento mais precoces», consideram os investigadores.

A equipa refere ainda que «agora que existe mais conhecimento dos efeitos dos progenitores, a estratégia para identificar os alteradores genéticos deverão focar-se nas famílias e não nos indivíduos, de forma a tentar descortinar os mecanismos da antecipação».

Embora o que cause antecipação na paramiloidose seja ainda um mistério, «há suspeitas de que pode resultar de vários fatores inter-relacionados nas diferentes famílias, incluindo efeitos de outros genes, mecanismos epigenéticos (mecanismo herdado que não envolve alterações no DNA, por exemplo de influência do ambiente) ou efeitos hormonais», acrescentam os autores do estudo.

A paramiloidose foi descrita em 1952 pelo neurologista do Hospital de Santo António do Porto Mário Corino de Andrade, que observara um padrão de formigueiro e adormecimento das pernas em doentes da Póvoa do Varzim.

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