Cancro do Pâncreas: de ameaça crescente a prioridade urgente

No próximo dia 19 de novembro, assinala-se o Dia Mundial do Cancro do Pâncreas. Esta data é um alerta urgente para uma doença com incidência crescente, que constitui um grave problema de saúde pública em todo o mundo. Atualmente, o cancro do pâncreas é já a 4ª causa de morte por cancro na Europa, prevendo-se que ocupe o 2º lugar já em 2035, afirmando-se como um dos tumores mais letais.

Os sintomas são frequentemente inespecíficos nas fases iniciais, condicionando um diagnóstico tardio na maioria dos casos, o que está associado a um prognóstico muito desfavorável. Falamos de sintomas como dor abdominal ou nas costas, perda de peso inexplicável, falta de apetite, diarreia, náuseas, icterícia (pele e olhos amarelados) ou o aparecimento súbito de diabetes.

Deste modo, torna-se imperativo que a população conheça esta sintomatologia e, perante a sua persistência, procure ajuda médica. Nestes casos, a realização de um exame de imagem adequado, como a Tomografia Computadorizada, pode estabelecer o diagnóstico. Face à enorme dificuldade de um diagnóstico atempado, o nosso foco principal deve centrar-se na prevenção.

Sabemos que existem fatores de risco que não são modificáveis, como a idade avançada e a predisposição genética. Contudo, a grande maioria dos fatores de risco são modificáveis e dependem diretamente do estilo de vida: o consumo de tabaco e álcool, a obesidade, a diabetes e uma dieta desequilibrada estão associados a um maior risco de desenvolver a doença.

A aposta na prevenção torna-se ainda mais imperativa quando sabemos que, uma vez instalada, a doença progride de forma silenciosa, tornando-se dificilmente curável aquando do diagnóstico. A cirurgia é atualmente a única opção potencialmente curativa, mas apenas uma pequena minoria de doentes (cerca de 15%) são candidatos a tratamento cirúrgico no momento do diagnóstico.

Apesar do cenário historicamente sombrio, há hoje vários sinais encorajadores. O contínuo desenvolvimento de novos esquemas de quimioterapia, progressivamente mais dirigidos e personalizados às características biológicas de cada tumor, torna os tratamentos mais eficazes e tem condicionado uma maior sobrevivência a longo prazo. Paralelamente, a melhoria da precisão e segurança da cirurgia pancreática tem permitido aumentar o número de candidatos cirúrgicos.

No entanto, para consolidar esta esperança, não podemos baixar os braços. É inaceitável que a investigação científica na área do cancro do pâncreas receba menos de 2% de todo o financiamento oncológico europeu. São exigidos mais esforços e mais fundos dirigidos à investigação nesta doença, nomeadamente no desenvolvimento de novos métodos para diagnóstico precoce e na descoberta de terapêuticas cada vez mais eficazes e personalizadas.

Adicionalmente, é imperativo apostar em fortes campanhas de sensibilização para alertar a população relativamente aos fatores de risco que podem e devem ser evitados. Só com prevenção, educação e aposta contínua na ciência conseguiremos mudar o paradigma do cancro do pâncreas.

Alexandra Fernandes
Gastrenterologista na ULS da Região de Leiria, presidente do Clube Português do Pâncreas (CPP) da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG)