O farmacêutico e presidente da Secção Regional do Norte da Ordem dos Farmacêuticos (OF), Félix Carvalho, é um dos 167 investigadores da Universidade do Porto que integram os World’s Best Scientists 2026, os rankings do portal Research.com que destacam anualmente os melhores e mais influentes cientistas do mundo nas respetivas áreas.
Entre os critérios de análise utilizados para classificar os investigadores destacam-se o número de citações e o H-Index (Discipline H-index), um indicador que mede a influência de um investigador com base nas suas publicações científicas e no número de vezes que estas são citadas por outros investigadores. Quanto mais alto o H-Index, maior o impacto e o reconhecimento do seu trabalho na comunidade científica.
O encontra-se no ‘top 5’ dos investigadores da U.Porto mais influentes
O NETFARMA falou com Félix Carvalho, que destaca que “o verdadeiro impacto de um investigador não reside apenas no lugar que ocupa num ranking, mas na capacidade de formar novas gerações, criar conhecimento robusto, contribuir para decisões mais informadas e melhorar a vida das pessoas”. Posto isto, “enquanto farmacêutico, professor e investigador, vejo este reconhecimento como uma homenagem à ciência portuguesa, mas também como um apelo à responsabilidade. Temos o dever de continuar a produzir conhecimento de elevada qualidade, com independência, ética e sentido de serviço público. A investigação só cumpre plenamente a sua missão quando se transforma em valor para a sociedade”.
– O que significa esta distinção para si?
– Esta distinção tem um significado que ultrapassa o plano individual. É um reconhecimento da qualidade, da consistência e da projeção internacional da investigação desenvolvida na UCIBIO-Laboratório de Toxicologia da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto e, de forma mais ampla, da ciência produzida em Portugal. Quando investigadores portugueses figuram entre os mais influentes do mundo, isso demonstra que o conhecimento gerado no nosso país é reconhecido pela comunidade científica internacional, circula além-fronteiras e contribui de forma efetiva para o progresso da ciência e da sociedade.
Naturalmente, nenhum ranking consegue traduzir, por si só, o verdadeiro valor de uma carreira científica. A ciência não se mede apenas por publicações, citações ou índices bibliométricos. Mede-se, sobretudo, pela capacidade de formar pessoas, criar conhecimento, inspirar novas gerações, influenciar a prática clínica, apoiar a regulamentação, as políticas públicas e contribuir para a resolução de problemas concretos da sociedade. Ainda assim, estes indicadores são relevantes porque evidenciam que esse conhecimento foi reconhecido, utilizado e valorizado pela comunidade científica internacional.
Recebo esta distinção com gratidão, mas sobretudo como um incentivo para continuar a fazer mais e melhor. Ao longo de mais de três décadas de atividade académica e científica, procurei desenvolver investigação nas áreas da toxicologia mecanística, da segurança dos medicamentos, das drogas de abuso e outros xenobióticos, bem como no desenvolvimento de antídotos, sempre com a preocupação de ligar o conhecimento molecular e experimental à proteção da saúde humana e ambiental. Este reconhecimento reforça o compromisso de continuar a produzir uma ciência de excelência, rigorosa, independente e com verdadeiro impacto na sociedade.
Importa também sublinhar que nenhum investigador constrói sozinho um percurso desta natureza. Por detrás de qualquer reconhecimento individual há equipas, estudantes, colaboradores, técnicos, instituições, orientadores, colegas e redes nacionais e internacionais. A ciência é sempre uma obra coletiva.
– Qual a relevância da investigação desenvolvida?
– Como referi, grande parte da investigação que desenvolvi centrou-se na área da toxicologia mecanística. Sempre acreditei que conhecer apenas os efeitos tóxicos de uma substância é insuficiente. É fundamental compreender por que razão esses efeitos ocorrem, quais as vias moleculares envolvidas, que fatores modulam a suscetibilidade individual e de que forma esse conhecimento pode ser utilizado para desenvolver intervenções terapêuticas ou apoiar decisões regulamentares. Esta abordagem permitiu contribuir para uma melhor compreensão da toxicidade de drogas de abuso, como a MDMA, a cocaína, os canabinóides, os opioides e as novas substâncias psicoativas, mas também de anticancerígenos e de agentes altamente tóxicos, como o paraquato e a Amanita phalloides.
Uma dimensão particularmente gratificante do meu percurso foi a possibilidade de transformar conhecimento em soluções concretas para problemas de saúde. A investigação desenvolvida pelo nosso grupo conduziu à identificação de potenciais estratégias antidotais para intoxicações de elevada letalidade, recorrendo frequentemente ao reposicionamento de medicamentos já aprovados. Esta estratégia teve enorme relevância clínica, pois permitiu acelerar a disponibilização de tratamentos potencialmente eficazes em situações em que o tempo é um fator crítico e as opções terapêuticas são limitadas.
Paralelamente, procurei que a investigação não se limitasse à publicação científica. O conhecimento produzido foi também colocado ao serviço da avaliação regulamentar de medicamentos e substâncias químicas, através da minha colaboração continuada com a Agência Europeia de Medicamentos (EMA), o INFARMED e a Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA). Esta experiência permitiu-me estabelecer uma ligação permanente entre a investigação fundamental, a ciência regulamentar e a proteção da saúde pública, demonstrando que a investigação académica pode influenciar diretamente decisões com impacto em milhões de cidadãos.
Outro aspeto que considero particularmente relevante é o facto de esta investigação ter sido desenvolvida de forma contínua ao longo de mais de três décadas, envolvendo a formação de dezenas de mestres, doutores e investigadores pós-doutorados, muitos dos quais hoje prosseguem carreiras científicas bem-sucedidas. A investigação não se mede apenas pelos resultados alcançados, mas também pela capacidade de formar pessoas, criar massa crítica e construir uma escola científica que continue a produzir conhecimento muito para além do percurso individual do seu fundador.
Se tivesse de sintetizar a relevância da investigação que desenvolvi, diria que assenta em três pilares fundamentais: compreender os mecanismos da toxicidade, transformar esse conhecimento em soluções para problemas concretos de saúde e contribuir para que a melhor evidência científica apoie decisões clínicas, regulamentares e de saúde pública. É precisamente nesta capacidade de fazer a ponte entre a investigação fundamental e a sua aplicação prática que vejo o verdadeiro valor da ciência.
– Qual é o papel dos farmacêuticos na produção de conhecimento científico com impacto na saúde pública?
– Os farmacêuticos têm um papel absolutamente central na produção de conhecimento científico com impacto na saúde pública, pois possuem uma formação particularmente integradora. O farmacêutico compreende a molécula, o medicamento, o mecanismo de ação, a toxicidade, a qualidade, a utilização clínica, o risco populacional e o enquadramento regulamentar.
Esta visão global é cada vez mais necessária. A saúde pública enfrenta hoje desafios complexos: envelhecimento populacional, polimedicação, novas terapias, que incluem medicamentos biológicos e medicamentos de terapia avançada, resistência antimicrobiana, exposição a contaminantes ambientais, novas substâncias psicoativas, desinformação em saúde e necessidade crescente de decisões baseadas em evidência científica. Em todos estes domínios, o farmacêutico pode e deve ser produtor de conhecimento, e não apenas utilizador de conhecimento produzido por outros.
A investigação realizada por farmacêuticos contribui para proteger os cidadãos em vários níveis: no desenvolvimento de medicamentos mais seguros, na identificação precoce de riscos, na avaliação de efeitos adversos, na monitorização terapêutica, na análise toxicológica, na farmacovigilância, na ciência regulamentar, na prevenção de intoxicações e na educação da população.
A minha própria experiência em instituições como a EMA, o INFARMED e a ECHA reforçou-me esta convicção: as decisões que protegem a saúde pública precisam de ciência sólida, mas também de profissionais capazes de interpretar criticamente a evidência científica. O farmacêutico, pela sua formação científica e pela sua proximidade com o medicamento e com o cidadão, está numa posição privilegiada para fazer essa ponte.
É importante que a sociedade perceba isto com clareza: a profissão farmacêutica não é apenas assistencial. É também uma profissão científica, regulatória, académica, tecnológica e de saúde pública. Quando um farmacêutico investiga, publica, orienta, avalia, regula ou comunica ciência, está a exercer uma das dimensões mais nobres da profissão.
– Qual é a importância deste reconhecimento para a projeção internacional da investigação nacional?
– O reconhecimento internacional da investigação portuguesa é essencial para afirmar Portugal como país produtor de conhecimento de excelência. Durante muito tempo, a ciência nacional foi vista, por vezes injustamente, como periférica. Hoje, estes resultados mostram que Portugal tem investigadores, universidades e centros de investigação capazes de competir ao mais alto nível internacional.
Esta projeção tem consequências muito concretas. Aumenta a credibilidade das instituições portuguesas, facilita a integração em redes científicas internacionais, reforça candidaturas a financiamento competitivo, atrai estudantes e investigadores estrangeiros, cria oportunidades de colaboração e permite que Portugal participe mais ativamente na definição das agendas científicas globais.
No entanto, a projeção internacional não deve ser vista apenas como um prestígio, mas sim como uma responsabilidade estratégica. Um país pequeno só consegue afirmar-se cientificamente se apostar na qualidade, na cooperação, na diferenciação e na capacidade de formar pessoas altamente qualificadas. A presença de investigadores portugueses nos rankings internacionais demonstra que esse caminho é possível.
No domínio das Ciências Farmacêuticas, esta visibilidade assume particular relevância, pois demonstra que Portugal tem capacidade para contribuir de forma significativa para desafios fundamentais da saúde global, nomeadamente nas áreas da segurança dos medicamentos, toxicologia, farmacologia, saúde pública, ciência regulamentar, inovação terapêutica e avaliação de riscos. Trata-se de domínios em que a investigação desenvolvida em Portugal pode gerar conhecimento com impacto científico, regulamentar e social muito para além das nossas fronteiras.
Este reconhecimento deve, por isso, ser celebrado, mas também encarado como um sinal da responsabilidade que temos em consolidar o sistema científico nacional. A excelência científica exige continuidade: requer financiamento adequado, estabilidade, valorização das carreiras científicas, apoio aos jovens investigadores, uma internacionalização efetiva e instituições capazes de atrair, desenvolver e reter talento. Só assim os sucessos individuais poderão transformar-se numa força coletiva, contribuindo para um sistema científico mais robusto, competitivo e internacionalmente reconhecido.
– Que mensagem gostaria de deixar aos jovens investigadores e aos farmacêuticos?
– A mensagem que deixaria aos jovens investigadores é simples: a ciência exige persistência, curiosidade, humildade intelectual e sentido de serviço. Uma carreira científica constrói-se ao longo de muitos anos, com entusiasmo, mas também com dificuldades, recusas, dúvidas e recomeços. O reconhecimento é importante, mas não deve ser o motor principal da investigação.
O verdadeiro propósito da ciência é aprofundar o conhecimento sobre o mundo e colocá-lo ao serviço da sociedade. No domínio das Ciências Farmacêuticas, esta missão assume uma relevância particular, uma vez que o conhecimento científico produzido pode traduzir-se em benefícios concretos para a saúde das populações, promovendo medicamentos mais seguros e eficazes, contribuindo para a prevenção da doença e apoiando decisões que reforçam a proteção da saúde pública.
Aos jovens farmacêuticos, diria que não limitem a visão que têm da profissão. As Ciências Farmacêuticas abrem portas à prática clínica, à indústria, à investigação, à toxicologia, à regulamentação, à saúde pública, à inovação e à liderança científica. O farmacêutico do século XXI deve aliar competência técnica, rigor científico, integridade ética e um profundo compromisso com a sociedade.
Se este reconhecimento tiver algum valor adicional, espero que seja também o de mostrar às novas gerações que é possível fazer ciência de elevada qualidade em Portugal, a partir das nossas universidades, laboratórios e instituições, com ambição internacional e compromisso nacional.




