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Ébola: Especialista em saúde pública diz que Portugal não está preparado para lidar com o vírus

15 de outubro de 2014

A direção do Colégio da Especialidade de Saúde Pública da Ordem dos Médicos (OM) está preocupada com a forma como as autoridades de Saúde portuguesas têm lidado com o problema da infeção pelo vírus de Ébola e considera que têm passado «mensagens de enganosa tranquilidade» à população, avançou o “Público”.

Nesta quarta-feira, o diretor-geral da Saúde vai ao Parlamento clarificar as medidas que têm sido tomadas para enfrentar o problema, a pedido do Partido Socialista.

Num parecer muito crítico relativamente ao que tem sido feito até à data em Portugal para enfrentar a eventual entrada de doentes com Ébola, Pedro Serrano, que preside a este grupo de especialistas e assina o documento divulgado no site da Ordem, defende que o país não está preparado para lidar com a possibilidade de importação de casos, um «risco teórico» que é «alto», no seu entender, dadas as relações de proximidade com os países africanos de língua oficial portuguesa.

Pôr a tónica numa intervenção centrada apenas nos serviços hospitalares (em Portugal há três hospitais, dois em Lisboa e um no Porto, preparados para isolar casos suspeitos) é uma estratégia «errada», acentua o médico, enquanto defende que se deve montar ou reforçar «uma apertada vigilância dos aeroportos e portos».

Pedro Serrano pergunta, a propósito, onde está e como pode ser consultado o plano de contingência nacional, como se articulam os vários níveis de cuidados de saúde do país, e se a rede nacional de serviços de saúde pública já está ativada para a vigilância epidemiológica de casos que venham a surgir.

Recordando a experiência da gripe pandémica, altura em que foi montada uma estrutura, criados circuitos e oleada uma máquina para «enfrentar uma epidemia à escala global», o especialista em saúde pública propõe que tudo isto seja aproveitado e reativado. Ao mesmo tempo, lamenta que até agora não tenha chegado ao conhecimento do público ou da generalidade dos profissionais de saúde «nenhuma orientação, integrada e global, que inclua desde uma estratégia nacional para lidar com o problema até à emissão de informação que responda às perguntas e ansiedades».

Um eventual caso de Ébola «não vai chegar com uma bandeirinha a assinalá-lo ao aeroporto da Portela, onde logo chegará uma ambulância do INEM, que o levará sem demora ao Curry Cabral [hospital de referência para casos suspeitos em Lisboa], onde espera por ele um quarto isolado e apetrechado», caricaturiza Pedro Serrano, lembrando que o que a realidade tem vindo a demonstrar nos últimos tempos é bem diferente. «Como nos foi dado ver, primeiro nos Estados Unidos e logo em seguida em Espanha, nem os países com meios técnicos mais sofisticados conseguiram lidar eficazmente com apenas um caso de Ébola», faz notar.

O médico propõe ainda que se crie uma base de dados com os portugueses que residem nos países considerados de risco para monitorizar as suas deslocações e para lhes fazer chegar informações sobre medidas a adotar.

Depois de na semana passada ter considerado que Portugal está razoavelmente preparado para lidar com este fenómeno, o bastonário da OM, José Manuel Silva, mostra-se agora mais cauteloso. O caso da doente que suspeitava estar infetada e que no domingo se dirigiu pelo seu pé para o Hospital de S. João, no Porto, depois de ter passado por uma unidade de saúde privada, veio provar, frisa, que são necessárias «medidas para além da publicação de brochuras e protocolos».

Portugal «prepara missão» para combater o Ébola em África

A Direção-Geral da Saúde (DGS) tem neste momento inscritos «dezenas» de profissionais que se voluntariam para partir para a África Ocidental, para a linha da frente do combate ao Ébola.

«Estamos a preparar uma missão, não para ir, mas para estar em prontidão no caso de ser necessário uma missão de médicos e especialistas portugueses, poder partir», disse o diretor-geral de Saúde numa entrevista à “Renascença”.

Francisco George disse que «está a ser feito um estágio intensivo» em colaboração com a embaixada da Guiné-Bissau.

Em entrevista ao “Terça à Noite” da “Renascença”, o diretor-geral de Saúde acredita que uma vacina para o Ébola pode ser descoberta dentro em breve.

«Os principais cientistas que se dedicam à investigação de vacinas e de medicamentos estão nesses países e espero que obtenham resultados rapidamente», afirmou Francisco George.

O diretor-geral de saúde espera que, desta vez, «não venham dizer que seis meses é pouco tempo para produzir uma vacina, como aconteceu com a gripe A».

Infeções podem alcançar pico de até 10.000 casos por semana em dezembro

O Ébola atingirá um pico de entre 5.000 e 10.000 novos casos por semana no início de dezembro, estimou a Organização Mundial de Saúde (OMS).

O diretor-geral adjunto da OMS Bruce Aylward adiantou, em conferência de imprensa, que a taxa de mortalidade da epidemia se situa nos 70 por cento nos três países da África ocidental mais afetados – Serra Leoa, Libéria e Guiné-Conacri.

A OMS estima que a partir do pico de entre 5.000 e 10.000 casos em dezembro, o número de infetados comece a diminuir paulatinamente graças às ações da luta contra a infeção que estão a ser aplicadas.

Segundo a “Lusa”, o representante da OMS sublinhou que esta é apenas uma previsão que pretende orientar a luta internacional contra o vírus, que provoca febre hemorrágica.

A contagem mais recente do atual surto de Ébola indica a existência de 8.194 infetados, dos quais 4.447 morreram. Aylward sublinhou que a grande maioria dos casos se mantêm naqueles três países africanos.

Em teoria, parece apontar-se para uma taxa de sobrevivência de 50 por cento, mas os números mascaram a realidade, destacou o diretor-geral adjunto da OMS.

«Há estes casos que conhecemos, estas mortes que nos são reportadas, mas isso não significa que se divida um número pelo outro e dizer quantas pessoas esta doença mata», esclareceu.

«Para ter esse número, é preciso pegar num grupo de pessoas, segui-las durante o curso da doença e perceber quantos sobrevivem. Neste conjunto de pessoas, que nós sabemos que estão doentes e conhecemos o desfecho, o que estamos a encontrar é uma mortalidade de 70 por cento, é quase o mesmo número nos três países», declarou Bruce Aylward.

Nações Unidas: Mundo está a perder corrida

O mundo está a ficar para trás na desesperada corrida para travar o surto de Ébola, advertiu, na terça-feira, um alto funcionário das Nações Unidas, numa altura em que se temem milhares de novas infeções até ao fim do ano.

«O Ébola está em vantagem em relação a nós», afirmou o chefe da missão da ONU para a resposta de emergência ao vírus Ébola.

«Está bem longe de nós e a correr mais rápido do que nós e a ganhar a corrida», advertiu Anthony Banbury, dirigindo-se ao Conselho de Segurança da ONU, em videoconferência a partir da sede da missão (UNMEER, em inglês), em Acra, no Gana.

«Se o Ébola vencer, nós, os povos das Nações Unidas vamos perder muito», afirmou.

As declarações do chefe da missão da ONU para a resposta de emergência ao vírus Ébola, citadas pela “Lusa”, chegam numa altura em que a Organização Mundial de Saúde (OMS) advertiu para a possibilidade de o surto do vírus atingir um pico de 10 mil infeções por semana e em que os líderes mundiais se preparam para abordar a crise na ONU.

«Ou travamos agora o Ébola ou enfrentamos toda uma situação sem precedentes para a qual não dispomos de um plano», alertou.

Banbury sublinhou ainda que com as taxas de infeção a crescerem exponencialmente todos os dias, a UNMEER vai precisar de 7.000 camas para tratamento.

«Há muitas más notícias sobre o Ébola mas a boa notícia é que nós sabemos como pará-lo», sublinhou o chefe da missão da ONU.

Contudo, para travar a propagação «temos de derrotar o Ébola e devemos fazê-lo rapidamente».

UNICEF alerta para importância de reforçar lavagem das mãos

A UNICEF alertou ontem para a importância de reforçar a prática de lavar as mãos como medida de combate ao Ébola e prevenção de doenças, a propósito do Dia Mundial da Lavagem das Mãos, que se assinala na quarta-feira, segundo a “Lusa”.

«Lavar as mãos com sabão é uma das “vacinas” mais baratas e eficazes contra doenças virais, desde a gripe sazonal, à constipação mais comum», afirmou Sanjay Wijesekera, responsável dos programas de água, saneamento e higiene (WASH) da agência das Nações Unidas de defesa dos direitos das crianças.

De acordo com Sanjay Wijesekera, as equipas da UNICEF que estão no terreno na Serra Leoa, Libéria e Guiné «estão a reforçar a importância de lavar as mãos como parte de uma série de medidas necessárias para travar a propagação do Ébola».

«Não é uma fórmula mágica, mas é um meio de defesa adicional que é barato e facilmente disponibilizado», sublinhou.

A UNICEF tem vindo a trabalhar na sensibilização sobre o Ébola nos países afetados e no combate a perceções erróneas sobre a doença, que vieram colocar ainda mais pessoas em risco, além de distribuir artigos de proteção, como fatos, luvas, lixívia, 1,5 milhões de barras de sabão na Serra Leoa e vários milhões na Libéria e na Guiné Conacri.

Reconhecendo que não será fácil conter a propagação da doença, sendo necessário um «enorme esforço internacional», Sanjay Wijesekera salientou a extrema importância de «passar a mensagem sobre as medidas que podem ser tomadas agora nas zonas mais gravemente afetadas, mesmo quando continua a chegar ajuda adicional vinda do exterior».

«A lavagem das mãos é uma dessas medidas», acrescentou.

À medida que a resposta ao Ébola tem vindo a afetar severamente os serviços de saúde nos países atingidos, a prática da lavagem das mãos assume ainda maior importância na contenção de doenças comuns, considera a UNICEF.

No âmbito das celebrações do Dia Mundial da Lavagem das Mãos muitos países estão a levar a cabo atividades para promover esta prática.

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