Cuidados de saúde primários precisam de “transformação estrutural” 138

Um estudo que ouviu utentes e profissionais de saúde pede uma “transformação estrutural” nos cuidados de saúde primários para melhorar a coordenação com os hospitais, sobretudo nos doentes crónicos, e sublinha a importância dos planos individuais de cuidados.

O PaRIS (Patient-Reported Indicator Surveys), coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e, em Portugal, pela Direção-Geral da Saúde, aponta a necessidade de alargar o plano individual de cuidados, que define os objetivos de saúde de cada utente e é uma realidade para apenas três em cada 10 doentes crónicos.

“É discutido com o médico de família, serve para negociar os objetivos de saúde que têm e pode ser partilhado com os outros médicos de família daquela unidade, mas, mais importante, com os médicos do hospital”, explicou à Lusa o subdiretor-geral da Saúde, André Peralta Santos.

O responsável refere que este plano “quase não é utilizado na partilha de informação com os hospitais” e diz que pode ajudar a melhorar a coordenação dos cuidados de saúde, vertente a que os utentes deram nota negativa no estudo que é hoje apresentado em Lisboa.

André Peralta Santos insiste na necessidade de melhorar a coordenação de cuidados, até pela recente reforma das Unidades Locais de Saúde (ULS), e diz que, mais do que olhar para cada doença isoladamente, é preciso olhar para todo o percurso do doente.

Portugal abaixo da média da OCDE em quase todos os indicadores de saúde

“Metade das pessoas com mais de 45 anos têm duas ou mais doenças. Portanto, pensar numa doença de forma espartilhada já não faz muito sentido”, diz o responsável.

Para sublinhar a necessidade de melhor integrar e coordenar cuidados, recorda uma frase que tem sido repetida em reuniões internas: “o SNS é bom na consulta, mas esquece-se um pouco quando o doente sai pela porta”.

“E quem tem doença crónica precisa de um sistema que acompanha o cidadão”, insiste, acrescentando: “precisamos que esta integração de cuidados [trazida pela reforma das ULS] não seja apenas administrativa, mas que seja funcional e ajude na passagem dos cuidados de saúde primários para o hospital, e vice-versa”.

O estudo ouviu em Portugal mais de 11.700 utentes e 80 unidades de cuidados de saúde primários, recolhendo indicadores de resultados e experiências em saúde partilhados pelos utentes.

Diz que os dados mostram uma equidade no acesso – “as pessoas com doenças crónicas têm experiências semelhantes às que não as têm” -, considerando que esta informação vai ao encontro da expectativa que se tem dos cuidados de saúde primários: “podem ter limitações, mas tratam todos por igual”.

Em termos de indicadores de resultados de saúde, não há grandes novidades e Portugal continua a comparar mal com os restantes países da OCDE, reflexo de um país “com uma população mais pobre e com mais desigualdades”.

Já quanto à experiência dos utentes, metade estão insatisfeitos com a coordenação dos cuidados que recebem.

O relatório aponta para a necessidade de “transformação estrutural” dos cuidados de saúde primários em três “dimensões críticas”: coordenação e gestão de cuidados, comunicação e acessibilidade e experiência e confiança.

Na coordenação de cuidados, defende-se a existência de um gestor de cuidados por utente e a generalização dos Planos Individuais de Cuidados (PIC) e, na acessibilidade, pede-se que os canais de comunicação sejam modernizados, para melhorar o acesso e reduzir os tempos de espera.

Peralta Santos diz que Portugal está “na Liga dos Campeões da Europa” no que se refere à digitalização do registo de saúde, mas reconhece que “é preciso melhorar nos serviços digitais”.

“Os serviços que temos enquanto cidadão para interagir com o SNS continuam limitados e pouco utilizados”, diz o subdiretor-geral da Saúde, lembrando que o uso de videoconsultas nos cuidados primários “é residual”.

Contudo, alerta para o risco da transformação digital trazer desigualdades e insiste na necessidade de capacitar os cidadãos para o uso das tecnologias e manter sempre aberto um canal não digital para quem quer marcar desta forma a sua consulta.

“Há uma grande percentagem da nossa população que já se sente muito à vontade com estas tecnologias. Mas, certamente, teremos uma franja da população mais idosa que não se sente confortável”, lembrou.

Outra das dimensões críticas apontadas neste relatório é a necessidade de reforçar a transparência, avaliar de forma continua as experiências dos utentes e recuperar a confiança no sistema.

“Apenas metade das pessoas que normalmente utilizam o sistema de saúde confia muito no sistema” disse Peralta Santos, alertando: “se não tivermos este capital de confiança, é muito mais difícil termos um sistema com que as pessoas se identifiquem e que estejam disponíveis (…) para o financiar”.