
A inexistência de corpos identificados e de confirmação oficial da morte está a impedir centenas de famílias afetadas pela crise de refugiados entre Marrocos e Ceuta de iniciarem o processo de luto. Especialistas alertam que esta perda ambígua aumenta significativamente o risco de sofrimento psicológico prolongado e constitui um problema de saúde mental pública.
Segundo a Sociedade Portuguesa de Terapia Focada nas Emoções (SPTFE), entre os principais impactos psicológicos desta crise destacam-se:
• Perdas ambíguas, quando não existe confirmação da morte nem possibilidade de identificar ou recuperar o corpo da pessoa desaparecida;
• Luto traumático e coletivo, associado à violência da experiência e ao elevado risco de desenvolvimento de luto prolongado e de perturbação de stress pós-traumático;
• Falta de despedidas e rituais fúnebres, como o repatriamento, a identificação ou a realização de um funeral, dificultando a aceitação e a simbolização da perda;
• Culpa do sobrevivente, uma reação frequente entre quem sobrevive a acontecimentos desta natureza, marcada por sentimentos de culpa por ter permanecido vivo;
• Primeiros socorros psicológicos são a prioridade, centrados na segurança, estabilização emocional, ligação às redes de apoio e acesso a informação, em vez de intervenções psicoterapêuticas imediatas;
• Cobertura mediática responsável, evitando linguagem sensacionalista e imagens de sofrimento extremo, que podem contribuir para a re-traumatização de sobreviventes e familiares.
De acordo com Daniela Nogueira, psicóloga clínica, membro da Sociedade Portuguesa de Terapia Focada nas Emoções (SPTFE) e diretora da Comissão Organizadora Local do European Grief Conference 2026, “esta não é apenas uma crise humanitária. É também uma crise de saúde mental pública. Quando uma família permanece meses ou anos sem saber se o seu familiar morreu, fica impossibilitada de iniciar um processo de luto. A perda permanece em suspenso, alimentando sofrimento psicológico prolongado. É urgente desenvolver respostas estruturadas para o apoio ao luto migratório, uma área que continua praticamente inexistente em Portugal e em Espanha.”
Este e outros temas de grande impacto social serão debatidos na 3.ª edição da European Grief Conference 2026, um dos mais relevantes encontros europeus dedicados às áreas do luto, perda e apoio psicossocial. O evento realiza-se entre 9 e 11 de setembro, no Porto, na Super Bock Arena – Congress Center, e contará com a participação de investigadores, profissionais de saúde, psicólogos, académicos e organizações internacionais, promovendo a partilha de conhecimento científico e de boas práticas no acompanhamento e apoio em situações de perda.
A European Grief Conference 2026 conta com o apoio institucional do Ministério da Saúde e da Câmara do Porto.
Mais informações em:
https://europeangriefconference.org/




