Centro de investigação europeu premeia estudo da FCTUC para tratamento de cancro 0 289

O estudo que, pela primeira vez, avaliou o impacto de fármacos anticancerígenos na água do interior das células foi distinguido com o “Society Impact Award” 2019, prémio concedido pelo “ISIS Neutron and Muon Source”, laboratório que detém um dos mais potentes feixes de neutrões e muões do mundo, localizado no Reino Unido.

O o estudo premiado é liderado por Maria Paula Marques e Luís Batista de Carvalho, da Unidade de I & D “Química-Física Molecular” (QFM) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), tem o intuito de desenvolver novos fármacos antitumorais com múltiplos locais de ação, a denominada quimioterapia multialvo. Esta irá permite ampliar a eficácia do tratamento de doentes com cancro, especialmente em casos de prognóstico muito baixo, avança em comunicado a própria faculdade.

Os investigadores explicam que, habitualmente, «os medicamentos de combate ao cancro têm um único alvo (uma molécula recetora). Mas se conseguirmos um fármaco que atue simultaneamente em vários locais da célula, a eficácia do tratamento será maior, e terá menos efeitos tóxicos para o paciente».

Sabendo-se que a água é essencial para o seu bom funcionamento, estes pesquisadores decidiram estudar o comportamento dos diferentes tipos de água intracelular na presença de fármacos anticancerígenos.

«Só conhecendo todas as mudanças que os medicamentos desencadeiam na estrutura da água no interior da célula é possível avaliar de que forma esta água pode ser usada como um alvo terapêutico. É a primeira vez que se tenta perceber o efeito de fármacos na água intracelular», notam os responsáveis, que trabalham no desenvolvimento de novos fármacos contra o cancro há cerca de duas décadas.

Foram testados dois fármacos, em dois tipos de cancro muito agressivos: carcinoma de mama metastático (triplo-negativo) e osteossarcoma. Primeiro foi avaliado o efeito de um medicamento conhecido – a cisplatina – e, numa segunda fase, foi testado um fármaco desenvolvido por estes investigadores da QFM-UC. Ambos os compostos têm como alvo principal o ADN da célula.

Os resultados foram bastante promissores, avançam os coordenadores do estudo. «No seu conjunto, verificou-se que os dois fármacos afetam a água intracelular nos tipos de cancro agora estudados. Mais, observaram-se diferenças significativas no modo de ação dos dois medicamentos, dependentes ainda do tipo de cancro».

Por outro lado, observou-se um duplo efeito dos fármacos na dinâmica da água intracelular. A água do citoplasma tornou-se mais rígida enquanto a água de hidratação das biomoléculas que se encontram no interior da célula (que funciona como uma capa protetora) ficou mais flexível. Segundo os investigadores, este efeito duplo é «muito positivo porque significa que provavelmente as biomoléculas não irão funcionar normalmente, levando à morte celular, que é o que se pretende numa célula doente».

A equipa inovou ainda na realização das experiências, já que foi a primeira vez que se colocaram células cancerígenas humanas sob a ação de um feixe de neutrões. Para essa concretização, foi necessário cultivar e incubar com o fármaco um número extremamente elevado de células cancerígenas humanas imediatamente antes da aquisição dos dados. «São experiências muito complexas, que exigem a utilização de milhões de células vivas», contam Maria Paula Marques e Luís Batista de Carvalho.

Lançado em 2018, o “ISIS Impact Award” reconhece o impacto científico, social e económico do trabalho desenvolvido pela comunidade de utilizadores das instalações do centro – cerca de um milhar de cientistas de todo o mundo por ano.

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