Calor e poluição estão entre os principais riscos ambientais que provocaram milhares de mortes em Portugal, indica uma avaliação hoje divulgada sobre saúde e ambiente e centrada em 2025.
A avaliação ‘Saúde e Ambiente 2025’ faz parte de um relatório com o mesmo nome, que é apresentado formalmente na quinta-feira em Lisboa, na Fundação Gulbenkian, com dados sobre o ano passado mas também de outros períodos e agora divulgados.
Os autores do documento, da responsabilidade do Observatório Português da Saúde e Ambiente (OPSA), do Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA), dizem que ainda que Portugal tenha reduzido emissões de gases com efeito de estufa (GEE) o calor e a poluição “continuam a custar vidas”.
E pedem proteção dos mais vulneráveis, cuidados de saúde mais sustentáveis e preparação para catástrofes climáticas. Porque, frisam, é preciso “tratar a crise ambiental também como uma emergência de saúde”.
Segundo os dados hoje divulgados pelo CPSA, a que a Lusa teve acesso, estimam-se em 2.009 as mortes em excesso durante os episódios de calor em 2025.
Identificadas também cerca de 4.710 mortes atribuíveis à poluição do ar mas em relação a 2023. E estimam-se em 750 as mortes prematuras anuais associadas à poluição sonora.
“As ondas de calor já não são apenas uma ameaça de verão”, alertam os autores do estudo, recordando que no ano passado se registaram seis episódios (na primavera, verão e outono), aos quais se juntam a pressão dos incêndios, da escassez de água e da perda de biodiversidade.
Um comunicado do CPSA sobre o estudo alerta também sobre a deteção do mosquito Aedes albopictus, que pode transmitir doenças como dengue e chikungunya, que passou de 18 concelhos do continente em 2024 para 28 em 2025. (A presença do mosquito não significa, por si só, transmissão local das doenças, nota o CPSA).
Perante as ameaças, o relatório refere que a proteção é desigual no país, já que 15,7% da população declarou não conseguir aquecer adequadamente a sua casa em 2024. E os grupos mais vulneráveis são os idosos, doentes crónicos e famílias mais pobres.
E apesar de se terem reduzido as emissões de GEE e a proporção de dias com má qualidade do ar, tal não elimina riscos locais nem garante a proteção de todos, concluem os autores do documento, onde salientam que o setor da saúde enfrenta uma dupla responsabilidade: responder aos impactos ambientais e reduzir os danos associados à sua própria atividade.
O setor, adiantam, é responsável por 4,8% das emissões nacionais de GEE, sem que os responsáveis tenham assumido como prioridade a sustentabilidade ambiental.
O CPSA recomenda uma estrutura de governação que articule diferentes ministérios, uma estratégia nacional de sustentabilidade ambiental na saúde e um Plano Nacional de Adaptação da Saúde, abrangendo os setores público e privado.
Tal significa, explica, identificar e acompanhar pessoas vulneráveis, reforçar a vigilância e os alertas, proteger escolas e lares, criar espaços de arrefecimento acessíveis e garantir a continuidade dos cuidados durante ondas de calor, incêndios, cheias ou tempestades.
Além da necessidade de, entre outras medidas, haver investimento na prevenção da doença.
“A proteção da saúde não pode esperar que a degradação ambiental se traduza em mais episódios de doença, nem a proteção do ambiente pode permanecer exterior às decisões de saúde”, refere o comunicado.
Luís Campos, presidente do CPSA, salienta que a saúde da população portuguesa não pode ser separada da qualidade do ar que respira, da água e dos alimentos que consome, das condições em que habita, da estabilidade dos ecossistemas e da capacidade dos serviços de saúde para responder a situações de crise.
O CPSA é uma associação fundada em 2022 que integra mais de 100 organizações do setor da saúde e promove uma abordagem entre saúde e ambiente.
O relatório reúne indicadores, estudos, políticas e recomendações sobre as áreas de interligação entre o ambiente e a saúde.
A Organização Mundial da Saúde (PMS) aponta para 13 milhões de mortes anuais associadas a fatores ambientais.




