Antibióticos e Resistência Bacteriana: Impacto na Saúde Pública e nos Cuidados Hospitalares

A introdução dos antibióticos na prática clínica foi um dos maiores avanços da medicina do século XX, permitindo não só o tratamento eficaz de infeções, como também a realização segura de terapêuticas oncológicas intensivas, transplantes de órgãos e cirurgias complexas. Contudo, a utilização excessiva e frequentemente inadequada destes fármacos contribuiu decisivamente para o aumento da resistência antimicrobiana (RAM), levando à emergência de infeções difíceis ou impossíveis de tratar. O relatório O’Neill alerta que, na ausência de medidas eficazes, as infeções por microrganismos resistentes poderão causar até 10 milhões de mortes anuais até 20501,2.

As bactérias podem apresentar resistência intrínseca (natural da espécie) ou resistência adquirida (decorrente de mutações ou aquisição de genes), mediada por diferentes mecanismos. A modificação do alvo farmacológico reduz a afinidade do antibiótico pelo seu sítio de ação, como ocorre em Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), no qual o gene mecA codifica a PBP2a, uma proteína com baixa afinidade por β-lactâmicos, e em Enterococcus faecium, onde o gene vanA promove a substituição de D-Ala-D-Ala por D-Ala-D-Lac, conferindo resistência à vancomicina.

A inativação enzimática envolve a produção de enzimas que degradam ou modificam o fármaco, incluindo β-lactamases de espectro estendido (ESBL), β-lactamases AmpC e carbapenemases em bactérias Gram-negativas, além de enzimas que promovem modificações químicas em aminoglicosídeos.

A redução da permeabilidade da parede celular também contribui para a resistência, como observado em Mycobacterium tuberculosis, cuja parede lipídica rica em ácidos micólicos e a baixa densidade de porinas limitam a penetração de antibióticos na célula.

As bombas de efluxo, que podem ser específicas ou multifármaco, expulsam antibióticos estrutural e funcionalmente distintos, conferindo resistência a macrolídeos, β-lactâmicos, fluoroquinolonas, oxazolidinonas, cefalosporinas de quarta geração e carbapenemos. Adicionalmente, a formação de biofilmes protege comunidades bacterianas da ação antimicrobiana, dificultando a penetração dos fármacos, reduzindo a atividade metabólica bacteriana e promovendo persistência e resistência fenotípica3,4,5,6.

Diversos patogénios evoluíram para formas multirresistentes, como Mycobacterium tuberculosis, resistente a múltiplos fármacos, e bactérias responsáveis por infeções nosocomiais como Acinetobacter baumannii, Klebsiella pneumoniae, Pseudomonas aeruginosa, Staphylococcus aureus e Enterococcus faecium. Estas estirpes estão frequentemente associadas a maior virulência e capacidade de transmissão, aumentando morbilidade e mortalidade à medida que a eficácia dos antimicrobianos diminui4,7.

A RAM representa, portanto, um desafio terapêutico e uma ameaça à sustentabilidade dos sistemas de saúde. A implementação de estratégias de uso racional de antibióticos, programas de stewardship, vigilância microbiológica e controlo de infeções é fundamental para conter a disseminação de bactérias multirresistentes. Paralelamente, esforços contínuos no desenvolvimento de novos antibióticos e no estudo dos mecanismos de resistência são cruciais para enfrentar organismos com elevada capacidade de adaptação e sobrevivência6.

Nuno Vicente
Farmacêutico residente na ULS Viseu Dão Lafões
Secção Especializada Oncologia da SPFCS

Palavras-chave: resistência antimicrobiana, antibióticos, Staphylococcus aureus

Bibiografia

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  2. Munita JM, Arias CA. Mechanisms of Antibiotic Resistance. Microbiol Spectr. 2016 Apr;4(2):10.1128/microbiolspec.VMBF-0016-2015. doi: 10.1128/microbiolspec.VMBF-0016-2015. PMID: 27227291; PMCID: PMC4888801.
  3. Brinkac L, Voorhies A, Gomez A, Nelson KE. The Threat of Antimicrobial Resistance on the Human Microbiome. Microb Ecol. 2017 Nov;74(4):1001-1008. doi: 10.1007/s00248-017-0985-z. Epub 2017 May 11. PMID: 28492988; PMCID: PMC5654679.
  4. Munita JM, Arias CA. Mechanisms of Antibiotic Resistance. Microbiol Spectr. 2016 Apr;4(2):10.1128/microbiolspec.VMBF-0016-2015. doi: 10.1128/microbiolspec.VMBF-0016-2015. PMID: 27227291; PMCID: PMC4888801.
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  6. Aslam B, Khurshid M, Arshad MI, Muzammil S, Rasool M, Yasmeen N, Shah T, Chaudhry TH, Rasool MH, Shahid A, Xueshan X, Baloch Z. Antibiotic Resistance: One Health One World Outlook. Front Cell Infect Microbiol. 2021 Nov 25;11:771510. doi: 10.3389/fcimb.2021.771510. Erratum in: Front Cell Infect Microbiol. 2024 Sep 25;14:1488430. doi: 10.3389/fcimb.2024.1488430. PMID: 34900756; PMCID: PMC8656695.
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