Os farmacêuticos hospitalares reuniram-se no Porto, nos dias 20 e 21 de fevereiro, para as XVIII Jornadas de Farmácia Hospitalar, organizadas pelo Conselho do Colégio de Especialidade de Farmácia Hospitalar da Ordem dos Farmacêuticos (OF), num formato híbrido. O encontro decorreu na sede da Secção Regional do Norte (SRN) e debateu avanços, desafios e inovação numa área que se cruza, cada vez mais, com a complexidade terapêutica, a transformação digital e a exigência de resultados em saúde.
Na sessão de abertura, realizada na manhã do segundo dia, Luísa Rocha, presidente do Conselho do Colégio de Especialidade de Farmácia Hospitalar, enquadrou o momento vivido pela profissão: “Reunimo-nos num momento particularmente exigente para um sistema de Saúde em transformação profunda do exercício profissional“. Num cenário marcado por inovação tecnológica acelerada e recursos limitados, a responsável defendeu que a Farmácia Hospitalar se afirma como “uma especialidade estruturante na governação do medicamento e na segurança do doente”.
Um dos pontos centrais da intervenção passou pela valorização do percurso de especialização e pela Residência Farmacêutica. Luísa Rocha recordou que os primeiros residentes estão a concluir o quarto e último ano do programa formativo, facto que classificou como uma “conquista coletiva”, mas também uma “responsabilidade acrescida”. E deixou um aviso claro: “Precisamos de garantir que existem condições estruturais para integrar estes profissionais no nosso sistema. Precisamos de criar vagas. Precisamos de assegurar que o investimento e a formação especializada se traduzem em capacidade instalada no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e noutras instituições hospitalares”, certa de que “formar sem integrar é desperdiçar talento” e “integrar sem planear é comprometer o futuro”.
Essa integração, sustentou, depende da definição de rácios em Farmácia Hospitalar, apresentada como um eixo crítico: “Sem rácios estruturados, não há planeamento. Sem planeamento, não há sustentabilidade. E sem sustentabilidade, não há integração de novos especialistas. Definir rácios não é uma reivindicação corporativa, é uma medida de garantia de qualidade assistencial e, mais uma vez, de segurança do nosso doente”. É, também, “um instrumento que permitirá absorver os novos especialistas provenientes da Residência e consolidar equipas verdadeiramente diferenciadas”.
Ao mesmo tempo, apontou a consolidação da Norma da Consulta Farmacêutica Hospitalar como “um ponto de viragem na afirmação clínica da nossa intervenção”, confirmando que uma consulta “estruturada, documentada e integrada no percurso assistencial reforça o reconhecimento do farmacêutico hospitalar como profissional clínico, com impacto direto na otimização terapêutica, na adesão e nos resultados em saúde”. Este é “um passo determinante para consolidar a nossa presença junto do doente e das equipas multidisciplinares”, realçou.
No mesmo enquadramento, Luísa Rocha sublinhou que os temas em debate nas jornadas refletem “este momento de transição e consolidação”, em que a transformação digital deixa de ser opcional e passa a ser condição para “aumentar a segurança e a eficiência”, mas “exige profissionais preparados”. Ainda assim, frisou, o futuro da Farmácia Hospitalar não se constrói apenas com tecnologia: constrói-se também com “proximidade clínica, comunicação eficaz e responsabilidade social”, e capacidade de reter talento, criando um percurso 2atrativo, sustentável e valorizado2 para as gerações mais jovens.
Farmácia Hospitalar em atualização
Também na sessão de abertura, Catarina Coelho, diretora nacional da OF, saudou o trabalho do Colégio e a organização do evento, assumindo as jornadas como uma “referência indiscutível” para os farmacêuticos hospitalares. A dirigente reconheceu os obstáculos sentidos no terreno, identificando “a escassez de recursos humanos, financeiros e materiais” como uma “realidade pesada”, que torna “vital e crucial” para a profissão a aposta na formação contínua e em lideranças fortes.
A especialização e a diferenciação profissional foram outros dos eixos destacados. Em representação de Helder Mota Felipe, bastonário da OF, Catarina Coelho lembrou que já existem competências em áreas como Oncologia, Investigação Clínica e Medicina Farmacêutica, incentivando os colegas a investir nessa via. Adiantou ainda que estão em elaboração mais duas competências: Cuidados Paliativos e Gestão de Serviços de Saúde.
A interveniente assinalou que foi retomada a atribuição do título de especialidade em Farmácia Hospitalar pela OF, após um interregno, e que, este ano, foram recebidas 186 candidaturas. Explicou que o processo exige um “rigor equiparável” ao da Residência Farmacêutica, mantendo-se, contudo, uma via que respeita a experiência de profissionais que já estão no terreno, incluindo diferentes contextos institucionais. “Mas há um princípio inegociável: o rigor tem de ser igual pelas duas vias”, salientou.
Entre os temas regulatórios em curso, Catarina Coelho revelou que está no Ministério da Saúde, “há cerca de um ano”, uma proposta de revisão da Lei da Farmácia Hospitalar, que data de 1962, e detalhou o trabalho recente da OF, incluindo a Norma da Consulta Farmacêutica Hospitalar, cujo período de consulta pública terminou na última quinta-feira, dia 19 de fevereiro, encontrando-se agora em fase de integração de contributos. Referiu ainda que a Norma dos Rácios em Farmácia Hospitalar está “na fase final de elaboração”, apontando-a como “ferramenta crucial” para apoiar direções de serviço na negociação de reforços e na integração dos residentes que concluem a especialização.
Prémio Pegadas distingue Fátima Falcão
O programa da manhã incluiu ainda a entrega do Prémio Pegadas, que homenageou a farmacêutica, professora e investigadora Fátima Falcão. Luísa Rocha traçou o retrato de uma “pioneira na afirmação da farmácia clínica em Portugal”, destacando um percurso marcado por exigência, inovação e formação de gerações de farmacêuticos hospitalares.
Já a homenageada, visivelmente emocionada, e em tom bem-humorado, brincou com o simbolismo da distinção: “Como é que foram atribuir o Prémio Pegadas a uma pessoa que pesa uns míseros 50 quilos? De certeza que a pegada não pode ser muito profunda”. Num breve olhar para o futuro, a antiga diretora dos Serviços Farmacêuticos da Unidade Local de Saúde de Lisboa Ocidental (ULSLO), que conquistou o Prémio Almofariz Farmácia Hospitalar do Ano 2021, deixou duas mensagens: a primeira, inspirada no Papa Francisco, sobre a importância de nos mantermos atualizados: “Leiam o jornal todos os dias”. E a segunda, como síntese de uma carreira dedicada à mudança: “Mais do que fazer mais e melhor, importa fazer diferente e melhor”.




