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Portugal não reduziu excesso de peso e obesidade entre adolescentes

24 de Março de 2015

Estudo internacional passa em revista dados de 2002, 2006 e 2010 e traça tendências. Investigadora do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo diz que a meta de travar epidemia da obesidade foi alcançada. Agora falta reduzir a prevalência.

Os adolescentes estão em geral «mais saudáveis» do que há uma década, conclui o estudo Tendências na saúde dos jovens e determinantes sociaispublicado nesta terça-feira no “The European Journal of Public Health”, com base em dados recolhidos em vários países da Europa e América do Norte. Mas há um aspeto que causa preocupação: o número dos que sofrem de excesso de peso e obesidade não está a diminuir. Portugal faz parte do grupo dos que há anos se destacam pela negativa.

O trabalho publicado no “The European Journal of Public Health” passa em revista os dados obtidos no âmbito do Health Behaviour in School-aged Children (HBSC) — um grande levantamento dos comportamentos e estilos de vida dos adolescentes que é publicado de quatro em quatro anos em colaboração com a Organização Mundial de Saúde (OMS). O último inquérito HBSC foi feito em 2014 em 43 países e abrangeu em Portugal 6.026 jovens com uma média de idades de 14 anos. Os dados nacionais já antecipados, em dezembro, mostraram que o peso dos adolescentes portugueses com excesso de peso ou obesidade se mantinha idêntico ao que havia sido registado no inquérito de quatro anos antes (15,2% com excesso de peso, 3% obesos). Mas estes dados de 2014 não estão ainda refletidos na análise publicada nesta terça feira.

O trabalho hoje publicado é constituído por um conjunto de 21 artigos de investigadores de vários países que analisaram os inquéritos do HBSC de 2002, 2006 e 2010. O projeto foi coordenado pela Universidade de St. Andrews, na Escócia, em colaboração com a OMS. O objetivo é aproveitar o manancial de informação que foi sendo apurada nos diferentes inquéritos quadrianuais e traçar tendências.

Um dos artigos aborda a prevalência do excesso de peso e da obesidade em 25 países europeus, mais Canadá e Estados Unidos. Sem surpresas, os Estados Unidos ocupam sistematicamente o topo da tabela. A Ucrânia é o país onde o problema tem tido menor dimensão ao longo do período em análise. Em 13 países, o excesso de peso e a obesidade ganharam terreno entre os rapazes, de forma que os peritos consideram significativa. O mesmo aconteceu entre as raparigas, em 12 países. É no leste europeu — caso da Croácia, da República Checa, da Estónia, ou da Rússia, por exemplo — que a situação mais se tem agravado.

Em Portugal, os dados apontam para uma estabilização, segundo os peritos. Mas por que razão o problema se mantém praticamente inalterado? Contactada pelo “Público” Ana Rito, investigadora do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge e coordenadora do programa MUN-SI (Programa de Promoção de Saúde Infantil em Municípios), diz que não se trata de uma derrota: «Portugal travou o carácter epidemiológico da obesidade, tal como foi estabelecido na conferência europeia de Istambul, na Carta Europeia de Luta contra a Obesidade [em 2006]. Não houve aumento. Agora, as taxas mantêm-se elevadas».

Apesar de não conhecer a análise agora publicada, Ana Rito diz que a tendência traçada vai no mesmo sentido da observada para crianças mais pequenas — através do COSI (sistema de Vigilância Nutricional Infantil), que avalia crianças entre os seis e os nove anos. «É preciso perceber os fatores de risco e prevenir, para que não haja mais crianças e adolescentes com esta doença, e tratar as que têm esta doença». E isso passa «por um estilo de vida saudável».

As crianças e jovens portugueses até apresentam alguns aspetos a seu favor, como um consumo maior do que noutros países de hortofrutículas, explica a investigadora. «Mas quando se comparam os níveis de atividade física com os que se observam, por exemplo, no Norte da Europa não há comparação possível» e Portugal sai a perder. Os hábitos das raparigas e dos rapazes portugueses são bem mais sedentários.

Não se trata apenas de atividades formais de exercício: «Por exemplo, os pais portugueses não sentem que o caminho de casa para a escola seja seguro, por isso os meninos não vão a pé», diz, citando dados recolhidos no âmbito do COSI.

As famílias também se queixam de falta de tempo, o que prejudicará as refeições que preparam para as crianças. «Há uma enorme necessidade de acompanhar as famílias», diz, o que é, de resto, um dos objetivos do MUN-SI.

«O excesso de peso e a obesidade continuam a ser um sério problema de saúde pública», remata.

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