“O que mais me preocupa é a persistência de fragilidades estruturais no reconhecimento do papel do farmacêutico” 100

Um ano depois de assumir a presidência da Secção Regional do Centro da Ordem dos Farmacêuticos, Lúcia Santos faz um balanço de um mandato marcado pela proximidade à profissão, pelo reforço da presença pública dos farmacêuticos e pela criação de novos espaços de reflexão estratégica.

Num período que descreve como exigente, mas mobilizador, a responsável sublinha a resposta positiva da classe e aponta já os desafios que se colocam no horizonte de 2026, num contexto de profunda transformação dos sistemas de saúde. A integração efetiva dos farmacêuticos nos cuidados de saúde e o reconhecimento do seu potencial científico e profissional estarão, defende, no centro desse caminho.

– Que balanço faz deste ano de trabalho?
– Faço um balanço muito positivo. Foi um ano de enorme intensidade, em que procurámos imprimir uma nova dinâmica à Secção Regional do Centro, aproximando a Ordem dos Farmacêuticos no terreno, reforçando a nossa presença institucional e criando mais oportunidades de debate profissional. Mais do que iniciativas isoladas, procurámos afirmar uma ideia: a de que a Ordem deve ser uma estrutura viva, próxima dos profissionais e atenta aos desafios da sociedade.

Uma Ordem profissional não pode limitar-se a existir institucionalmente. Tem de estar viva, próxima e mobilizadora. Nesse sentido, reforçámos a presença pública da profissão, promovemos novas parcerias institucionais e abrimos espaços de reflexão sobre temas estratégicos.

Foi um primeiro ano exigente, mas também muito mobilizador. Sinto que a profissão respondeu com entusiasmo, e esse é, para mim, o sinal mais claro de que estamos no caminho certo.

– Qual foi a decisão mais difícil que teve de tomar durante o ano?
– Não tenho presente nenhuma decisão que tenha deixado uma marca particularmente difícil. Mas foi importante assumir, com realismo, que não é possível concretizar todas as prioridades definidas para o mandato logo no primeiro ano.

– Qual foi o momento em que sentiu: ‘Valeu a pena’?
– Houve vários momentos, quase sempre ligados ao contacto próximo com os colegas, sobretudo nas visitas descentralizadas.

São momentos em que sentimos que os farmacêuticos se reconhecem no trabalho da sua Ordem. Quando participamos em encontros com colegas e encontramos entusiasmo, participação ativa e vontade de contribuir para o futuro da profissão, percebemos que o esforço vale a pena.

A Ordem só faz sentido se for um espaço de encontro e mobilização da profissão. Quando isso acontece, sabemos que estamos a cumprir a nossa missão.

– Que problema a marcou mais?
– O que mais me preocupa é a persistência de fragilidades estruturais no reconhecimento do papel do farmacêutico no sistema de saúde. Temos profissionais altamente qualificados e diferenciados, técnica e cientificamente, com enorme capacidade de intervenção em várias áreas do medicamento e da saúde pública, mas muitas vezes ainda não plenamente integrados nos modelos de decisão e de organização do sistema.

Hoje, o maior problema não é o que os farmacêuticos sabem fazer, é o pouco que o sistema ainda lhes permite fazer. Esse desfasamento entre o potencial da profissão e o espaço que lhe é dado continua a ser um desafio que exige reflexão e, sobretudo, ação coletiva.

– Uma conquista que passou despercebida, mas que considera importante?
– Não sei se terá passado despercebida, mas uma das conquistas mais importantes foi reforçar a presença institucional da Ordem em diversos espaços de decisão e de cooperação regional. Para isso, em muito contribuiu o facto de termos assumido a Presidência do Fórum Regional do Centro das Ordens Profissionais, durante o mandato de 2025, e ter sido possível a plena concretização de um plano de ação que, desde o início, tivemos consciência de que era muito ambicioso.

E esta dinâmica, e a visibilidade pública que a Ordem dos Farmacêuticos alcançou, são fundamentais para construir redes de colaboração, e fundamental para posicionar melhor a profissão e abrir novas oportunidades para os farmacêuticos.

É um trabalho muitas vezes discreto, mas estrutural para o futuro.

«É necessário que se consolidem novas intervenções farmacêuticas integradas nas equipas multidisciplinares»

– Que crítica ouviu este ano que a fez repensar algo?
– Uma das críticas que ouvi – e que considero legítima – foi a necessidade de garantir que a Ordem chega de forma mais equilibrada a todas as áreas do exercício profissional farmacêutico.

A profissão é muito diversa e é importante que todos se sintam representados e envolvidos. Isso levou-nos a refletir sobre formas de criar mais espaços de participação e de debate setorial, que permitam ouvir melhor os diferentes contextos profissionais.

– Se pudesse refazer uma única decisão, qual seria?
– Há quem considere que raramente se engana. Não é o meu caso. Engano-me, erro, como todos, e tento corrigir e aprender com os erros. Feita esta introdução, sinto-me tranquila para dizer que, pelo menos neste 1.º ano, não me ocorre nenhuma decisão que gostasse de refazer.

O que mudou estruturalmente na profissão na sua região este ano?
– Não se fazem mudanças estruturais num tão curto período. Mais do que mudanças estruturais imediatas, diria que começámos a criar condições para uma mudança de posicionamento da profissão.

Ao reforçar a presença da Ordem no debate público e institucional, contribuímos para afirmar o farmacêutico como um profissional de saúde com um papel cada vez mais relevante na organização dos cuidados. É um processo gradual, mas absolutamente necessário.

Qual acha que será o maior desafio de 2026 para os farmacêuticos da sua região?
– O maior desafio continuará a ser garantir que o enorme potencial científico e profissional dos farmacêuticos se traduz em maior integração nos cuidados de saúde e na abertura de novas áreas de intervenção. Vivemos um momento de transformação profunda dos sistemas de saúde, marcado pelo envelhecimento da população, pela inovação terapêutica, pela inteligência artificial e por novas necessidades em saúde pública, e os farmacêuticos têm muito a oferecer nesse contexto.

O desafio já não é provar o valor dos farmacêuticos. O desafio será transformar essa capacidade em concretização efetiva, e em reconhecimento.

O que gostaria de fazer, que ainda não conseguiu? Porquê?
– Gostaria de avançar mais rapidamente com alguns projetos estruturantes de colaboração interprofissional, que começaram a ganhar forma em 2025.

Estes processos dependem, muitas vezes, de articulação entre várias instituições e profissionais, o que exige tempos de maturação mais longos.

Por outro lado, quero intensificar as iniciativas de descentralização, percorrendo todo o território da Secção Regional. Este contacto de proximidade, com colegas e também com autoridades locais, é fundamental para reforçar ligações institucionais e aproximar os farmacêuticos da sua Ordem.

– O que quer mesmo fazer até ao fim do mandato? Porquê?
– Gostaria, acima de tudo – ainda que reconheça a ambição – que, no final do mandato, fosse claro para os farmacêuticos da região que a sua Ordem está mais próxima, mais presente e mais mobilizadora.

As profissões não se afirmam apenas pelo que sabem. Afirmam-se pela forma como se organizam e se fazem ouvir.

Se conseguirmos reforçar o sentimento de pertença à profissão, e criar mais espaços de participação e reflexão coletiva, então teremos dado um contributo relevante para o futuro dos farmacêuticos.

Acredito profundamente na força das comunidades profissionais quando se reconhecem num projeto comum.