Menopausa: Quantas mulheres estão a ser medicadas sem acompanhamento adequado? 81

A atual abordagem à menopausa em Portugal representa uma “falha na saúde e na igualdade” e um “problema de saúde pública”, exigindo uma resposta urgente do Estado. A conclusão foi partilhada no evento internacional ‘Menopausa e Direitos Humanos – Da Lei ao Compromisso’, organizado pela Associação Portuguesa de Menopausa (VIDAs), que reuniu especialistas e responsáveis políticos como Marta Temido, ex-Ministra da Saúde e atual vice-presidente da Sub-Comissão dos Direitos Humanos do PE, Graça Freitas, ex-Diretora-Geral da Saúde, e Manuel Pizarro, ex-Ministro da Saúde.

Perante o consenso de que o país está em “atraso”, e para garantir que a futura Estratégia Nacional para a Menopausa tenha efeitos práticos, a VIDAs anuncio, em comunicado, que vai apresentar ao Governo um conjunto de ações concretas.

A denúncia de imaturidade no tratamento do tema foi uma das mais vincadas no evento. Catarina Martins, membro da Comissão da Saúde Pública do Parlamento Europeu, denunciou que a menopausa continua a ser recebida com “risinhos e imaturidade política até nos parlamentos”, sublinhando que o que está em causa não é “falta de evidência, mas falta de responsabilidade pública”. No mesmo sentido, o bastonário da Ordem dos Advogados, João Massano, descreveu o “silêncio” e os “risinhos parvos” com que o tema ainda é tratado como “a primeira forma de discriminação”, defendendo que a menopausa tem de ser encarada como uma matéria de “direitos, dignidade e responsabilidade pública”.

A perspetiva de que se trata de um problema de saúde pública foi corroborada por várias figuras do setor. Graça Freitas foi perentória: “estamos em 2026 e estamos atrasadíssimos”. A antiga responsável pela DGS defendeu que a menopausa “tem magnitude, transcendência social e económica” para ser tratada como tal, com orçamento e compromisso político. No mesmo painel, o representante oficial da Ministra da Saúde, André Peralta Santos, reconheceu que “ignorar a menopausa é falhar na saúde e na igualdade”, admitindo que é tempo de “sair da fase proclamativa e passar à ação”. Esta lacuna sistémica, segundo Manuel Pizarro, começa na própria formação, ao denunciar que “o sistema continua a formar mal os profissionais de saúde […] para a saúde da mulher”, o que gera “ignorância clínica” e “falha de resposta”.

Mulheres medicadas

Para a VIDAs, o facto de Portugal liderar o consumo de psicofármacos na OCDE levanta uma questão de saúde pública que a associação considera inaceitável e que continua sem resposta: a da correta avaliação e diagnóstico das mulheres na perimenopausa. “Num país que está no topo do consumo de antidepressivos e ansiolíticos, o mínimo exigível é saber quantas mulheres estão a atravessar a perimenopausa sem reconhecimento clínico adequado”, afirma Cristina Mesquita, presidente da VIDAs. “O que encontramos no terreno desde 2019 são mulheres silenciadas, desinformadas, muitas vezes medicadas, e sem enquadramento para perceber o que lhes está a acontecer.”

É em resposta a este cenário de urgência e de falhas reconhecidas que a VIDAs avança com a sua proposta. “Hoje não termina uma conversa, começa uma obrigação”, afirma. “A consagração legal da menopausa foi um passo histórico, mas não equivale a uma mudança real na vida das pessoas. Com um prazo político em curso, não podemos permitir que se produza um documento sem consequências práticas. É neste cenário que avançamos com uma proposta ativa para garantir que a futura estratégia tenha densidade, seja executável e sirva todas as mulheres, combatendo as desigualdades no acesso. Vamos exigir compromissos concretos.