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Estudo avalia efeitos dos canabinóides sintéticos nos fetos

 


19 de março de 2018

Investigadores do Porto estão a estudar os efeitos do consumo de canabinoides sintéticos por parte de mulheres grávidas no desenvolvimento neuronal dos fetos, visando verificar se estas substâncias podem despoletar problemas cognitivos ou doenças como o autismo e esquizofrenia.

Os canabinoides sintéticos «são novas substâncias com efeitos semelhantes, mas mais potentes do que a tetrahidrocanabinol (THC), a principal molécula psicoativa da canábis», explicou à “Lusa” o investigador João Alexandre, do Grupo de Toxicologia da Unidade de Investigação UCIBIO-REQUIMTE, da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto.

«O aparecimento de novas moléculas, a um ritmo alarmante, derivado do facto destas muitas vezes serem, erradamente, designadas por drogas legais, tem levado ao aumento do seu consumo», referiu.

Segundo indicou, a elevada potência dos canabinoides sintéticos (comparativamente à THC), associada à escassa informação sobre os seus efeitos toxicológicos, contribui para o aparecimento de diversos casos graves de intoxicações.

Os canabinoides sintéticos podem causar sintomas como o aumento do ritmo cardíaco e da pressão arterial, dores musculares, falha renal, dores torácicas e hepatoxicidade, e, a nível cerebral, psicoses, convulsões e perda de consciência.

É ainda de salientar que o consumo de canabinoides sintéticos «já foi responsável por casos mortais, contrariamente aos canabinoides presentes na canábis», disse o investigador.

João Alexandre contou que, de acordo com o último relatório do Observatório Europeu da Droga e Toxicodependência, em 2016 estavam a ser monitorizadas 620 substâncias (cerca de 70% detetadas nos últimos cinco anos), das quais 160 correspondem a canabinoides sintéticos.

De acordo com João Alexandre, a maioria dos consumidores de canabinoides sintéticos são indivíduos jovens, entre os 15 e os 40 anos.

Para o investigador, a avaliação dos efeitos destas substâncias no neurodesenvolvimento assume uma especial relevância no caso do consumo por parte de mulheres grávidas ou em idade fértil, que constituem em grupo de «particular risco».

«Está reportado que a THC atravessa a placenta e atua diretamente no feto, encontrando-se o consumo de canábis durante a gravidez associado a posteriores problemas no desenvolvimento cognitivo das crianças, incluindo défices de memória e atenção, hiperatividade e dificuldades de aprendizagem, existindo ainda o perigo de se verificarem abortos espontâneos ou malformações congénitas», indicou.

Por outro lado, sabe-se que o sistema endocanabinoide (um conjunto de canabinoides endógenos, recetores celulares e enzimas), responsável pela regulação de processos em diferentes órgãos, está presente logo desde o início do desenvolvimento embrionário, desempenhando um papel importante na regulação do desenvolvimento neuronal.

Assim sendo, é possível que a desregulação desse sistema por canabinoides sintéticos, ainda durante o desenvolvimento neuronal, provoque alterações que mais tarde resultam no aparecimento de patologias mentais, como a esquizofrenia ou as doenças do espetro do autismo.

Além disso, os sistemas neuronais encontram-se na fase final de maturação durante a adolescência, o que torna esta fase particularmente vulnerável para o desenvolvimento de doenças psiquiátricas e psicológicas, muito frequentes em utilizadores destas substâncias.

Através deste projeto pretende-se contribuir para aumentar o nível de conhecimento sobre o tema, fornecendo dados para que as agências possam tomar decisões informadas relativamente às medidas regulamentares associadas à utilização destas substâncias.

Neste projeto participam ainda João Pedro Silva e os professores Helena Carmo e o Professor Félix Carvalho.

Quanto ao número de casos confirmados, a diretora-geral da saúde adianta que «subiu ligeiramente», sem avançar com o número concreto.

Os últimos números conhecidos apontam para 36 casos confirmados no Norte do País.

«Sabemos estes dados, porque são os médicos que fazem o diagnóstico que notificam [os casos] numa plataforma nacional e depois o laboratório Ricardo Jorge também notifica nessa plataforma» se as suspeitas se confirmam, explicou a responsável.

Os últimos casos suspeitos conhecidos surgiram em Coimbra e Braga e estão todos relacionados com o surto que começou no Hospital de Santo António, no Porto, segundo a RR.

Por precaução, todos os profissionais de saúde do hospital de Braga vão ser vacinados contra o sarampo.

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