Uma ligeira dor de cabeça, seguida de uma pesquisa rápida e, minutos depois, um leque de possibilidades que vai do “stress acumulado” a cenários mais dramáticos. Se até recentemente se recorria ao “Dr. Google” hoje, a consulta faz-se com recurso a ferramentas de inteligência artificial, capazes de devolver respostas estruturadas, detalhadas e, talvez por isso mesmo, mais convincentes. Bem-vindos à nova era da Cybercondria.
O conceito não sendo novo, ganhou atualmente uma nova dimensão. A facilidade com que acedemos à informação, aliada à capacidade da IA em simular raciocínio clínico, cria a ilusão que temos um pré-diagnóstico personalizado. O problema? Mais informação não significa necessariamente tranquilidade. Muito pelo contrário, quanto maior o leque de hipóteses, maior a probabilidade de ansiedade.
A hipocondria frequentemente designada como ansiedade de doença, caracteriza-se pelo medo persistente e desproporcionado de sofrer uma doença grave, mesmo que na ausência de evidência médica que o sustente. Não se trata de “imaginar sintomas”, mas de uma ansiedade real, que leva a uma vigilância constante do corpo e a uma interpretação alarmista de sinais comuns, como uma dor passageira ou um simples cansaço.
Num contexto tradicional tal preocupação levava a visitas frequentes ao médico ou à realização de exames. No entanto, com a crescente digitalização da informação em saúde, este fenómeno adquiriu uma nova dimensão. O acesso imediato a conteúdos médicos online e, mais recentemente, a ferramentas de inteligência artificial, veio alterar drasticamente a forma como as pessoas interpretam os seus sintomas.
Hoje, uma simples pesquisa pode gerar uma extensa lista de possíveis diagnósticos, desde causas benignas até doenças raras e graves. Perante tal abundância de informação é natural que a atenção se foque nos cenários mais preocupantes. As ferramentas de IA, por sua vez, acrescentam uma camada adicional de complexidade: ao apresentarem respostas estruturadas, detalhadas e aparentemente personalizadas, podem reforçar a perceção de que se está perante um diagnóstico credível.
É inegável o valor destas ferramentas. Promovem uma maior literacia em saúde, ajudam a esclarecer dúvidas e incentivam uma atitude mais proativa e responsável por parte dos cidadãos. Mas existe uma linha ténue entre informar e alarmar. A inteligência artificial não observa, não examina, não conhece o histórico clínico e, sobretudo, não pode substituir o diagnóstico e a decisão médica.
Detetado o sintoma, segue-se a pesquisa, aumenta a ansiedade que conduz a novas pesquisas e ao aumento da preocupação. Ao mesmo tempo, a informação disponível online carece frequentemente de contexto clínico e não considera o histórico do doente, a observação direta ou a probabilidade real de determinadas doenças.
Este fenómeno começa a reflectir-se na relação médico – doente. Cada vez mais, os profissionais de saúde recebem pessoas que chegam à consulta com um prévio “diagnóstico” em mente, construído a partir das suas pesquisas online. Isto pode gerar ansiedade, expectativas desalinhadas e até desconfiança. Por outro lado, pode ser uma oportunidade para reforçar o diálogo e aumentar os níveis de literacia.
É neste contexto de elevada profusão informativa que os especialistas em comunicação em saúde desenvolvem a sua atividade. Atuar num ecossistema informativo transformado pela utilização crescente de plataformas de inteligência artificial por parte dos doentes. A responsabilidade de todos nós, enquanto profissionais de comunicação passa por não só por produzir conteúdos rigorosos e acessíveis, mas também antecipar dúvidas, corrigir desinformação e garantir que a informação disponível é cientificamente validada, compreensível e contextualizada.
Do mesmo modo, torna-se essencial reforçar a literacia em saúde sem substituir o papel do médico com a criação de conteúdos que ajudem os doentes a interpretar melhor a informação que encontram (inclusive nas plataformas de inteligência artificial), promovendo o pensamento crítico e uma tomada de decisão informada. O objetivo não é substituir a relação clínica, mas antes fortalecê-la, ajudando o doente a chegar à consulta bem preparado com questões informadas e com melhor compreensão das suas condições de saúde.
No fundo, este conceito de cybercondria coloca-nos perante um novo paradoxo. Nunca foi tão fácil aceder à informação e, ainda assim, não se eliminou uma certa dúvida. Porventura, o verdadeiro desafio esteja em se aprender a usar estas ferramentas com um espírito crítico e ter sempre presente que em saúde nem todas as respostas cabem num algoritmo.
Jorge Azevedo
Co-Founder & Managing Partner, Guess What




