O retrato que emerge do relatório ‘Ambientes de Trabalho Saudáveis, Saúde e Bem-Estar dos Trabalhadores: Farmacêuticos Portugueses’ expõe fragilidades no bem‑estar dos profissionais. Os resultados apontam para um cenário de risco moderado em várias dimensões do trabalho, com especial destaque para os impactos ao nível da saúde mental e emocional. Cansaço, irritabilidade, tristeza e mesmo situações de abuso ou ameaça fazem parte da realidade recente de uma parte significativa dos trabalhadores, num contexto em que a liderança, a comunicação interna e as políticas de promoção do bem‑estar surgem como claramente deficitárias.
O relatório, desenvolvido pelo Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis, em colaboração com a Ordem dos Farmacêuticos (OF), decorreu entre janeiro e fevereiro de 2026 e recolheu respostas de 348 farmacêuticos portugueses, maioritariamente do sexo feminino (86,2%), com idades entre os 23 e os 74 anos e média de 42,27 anos. A maioria encontra-se profissionalmente ativa (95,3%), tem contrato sem termo (79,0%) e trabalha em farmácia comunitária (65,9%).
Saúde mental
Os resultados, revelados hoje no portal da OF, demonstram um quadro de risco moderado em várias dimensões avaliadas e destacam, de forma particular, os riscos psicossociais do trabalho relacionados com o bem-estar e a saúde mental. Nas quatro semanas anteriores à recolha de dados, 60,0% dos participantes referiram sentir-se emocionalmente exaustos e 56,1% fisicamente exaustos. Metade indicou sentir-se irritada (50,1%) e 49,0% triste no mesmo período. Acresce que 24,7% referiram sentir-se alvo de ameaças ou de algum tipo de abuso físico ou psicológico, incluindo insultos, assédio sexual ou exclusão.
Liderança
O relatório evidencia também fragilidades ao nível da liderança, do ambiente psicossocial e dos recursos para a saúde pessoal. Apenas 24,4% dos inquiridos consideram que a liderança vê o bem-estar dos trabalhadores como prioridade, enquanto 27,6% entendem que a organização se foca no bem-estar dos profissionais e dispõe de políticas e estratégias para o promover. A comunicação interna, a valorização da satisfação no trabalho, as oportunidades de desenvolvimento e a resolução justa de conflitos surgem igualmente entre os aspetos menos bem avaliados.
Remuneração
A avaliação global do ambiente de trabalho na organização situa-se em 5,90 numa escala de 0 a 10. Já no que respeita à remuneração, 24,8% dos profissionais consideram-na justa face às responsabilidades e à função exercida.
Alimentação e exercício físico
Ao nível do bem-estar, o índice médio apurado foi de 2,13, valor que o relatório associa a um nível de risco moderado. Entre os comportamentos de saúde, 72,7% dos participantes classificam os seus hábitos alimentares como bons ou muito bons, mas apenas 29,0% fazem a mesma avaliação em relação à prática de exercício físico. Os resultados são também menos favoráveis no que respeita aos hábitos de sono e aos níveis de stress.
Conclusões e recomendações
As respostas abertas recolhidas no âmbito do estudo mostram ainda que os farmacêuticos valorizam relações interpessoais positivas, cooperação entre colegas, respeito mútuo, boa comunicação, confiança e entreajuda. Entre as medidas apontadas como relevantes para melhorar os contextos profissionais surgem uma liderança mais humana, empática e participativa, maior reconhecimento, melhor organização do trabalho, flexibilidade horária, pausas, teletrabalho quando possível, promoção da atividade física, apoio psicológico e iniciativas de promoção do equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
O relatório defende que a construção de ambientes de trabalho saudáveis deve assentar numa abordagem integrada, contínua e participada. Entre as áreas prioritárias de intervenção destacam-se a promoção da saúde mental e do bem-estar, a prevenção da exaustão e do desgaste emocional e o reforço dos recursos para a saúde pessoal disponibilizados pelas organizações.
O relatório pode ser lido aqui.




