Num momento em que o sistema de saúde enfrenta desafios crescentes, Félix Carvalho, presidente da Secção Regional do Norte da Ordem dos Farmacêuticos (SRNOF), defende uma valorização estrutural do papel do farmacêutico como agente de saúde pública.
Para o responsável, a experiência recente demonstrou que as farmácias comunitárias são, muitas vezes, o ponto de contacto mais acessível para os cidadãos — sobretudo em contextos de crise —, um papel que considera ainda subaproveitado. A par disso, aponta a interoperabilidade e o acesso aos dados clínicos como uma questão decisiva para o futuro da profissão, sublinhando que não é possível exigir mais responsabilidades sem garantir as ferramentas necessárias para um exercício seguro e de qualidade.
Pouco mais de um ano após ter tomado posse como presidente, saiba o que Félix Carvalho tem a dizer mais sobre este tempo à frente dos destinos da SRNOF.
– Que balanço faz deste ano de trabalho?
– Embora responda pessoalmente a este questionário, importa sublinhar que o trabalho desenvolvido só foi possível graças à atuação coesa dos órgãos sociais da Secção Regional do Norte da Ordem dos Farmacêuticos (SRNOF) e, de forma particularmente próxima e diária, ao contributo dedicado da sua Direção.
Faço um balanço francamente positivo, embora naturalmente exigente. Não gosto de leituras triunfalistas nem de avaliações complacentes. Quando se assume a presidência de uma Secção Regional, o dever não é apenas fazer acontecer, é também medir com rigor o impacto do que foi feito e perceber o que ainda falta cumprir. Nesse sentido, diria que 2025 foi, para a SRNOF, um ano de consolidação, afirmação e projeção.
Foi um ano de consolidação porque reforçámos a solidez institucional e financeira da Secção Regional, mantendo uma gestão rigorosa e responsável, assegurando o cumprimento dos compromissos assumidos e garantindo que o investimento realizado na sede continuasse a traduzir-se em melhores condições para servir os farmacêuticos. Foi também um ano em que afirmámos uma presença institucional mais consistente, participando nos principais fóruns de reflexão e decisão sobre a saúde e o futuro da profissão, junto das instituições de ensino, das entidades reguladoras, das estruturas do Serviço Nacional de Saúde (SNS), das organizações profissionais e de outros parceiros do setor. E foi ainda um ano de projeção, porque reforçámos a visibilidade da SRNOF e da própria profissão, incluindo em contextos internacionais, demonstrando que os farmacêuticos do Norte e do país têm competência, conhecimento e capacidade de intervenção reconhecidos além-fronteiras.
Mas houve também uma dimensão muito importante, que valorizo particularmente: a proximidade aos colegas. Em 2025, consolidámos os canais de comunicação, reforçámos a disponibilidade institucional, mantivemos o apoio jurídico e o seguro de responsabilidade civil a todos aos farmacêuticos em exercício, assegurámos maior celeridade na resposta aos membros e prosseguimos uma política de presença mais regular e mais útil para quem está no terreno. Esta dimensão pode parecer, por vezes, menos visível do que um grande evento ou uma tomada de posição pública, mas é absolutamente central. Uma Ordem forte constrói-se também com base na confiança quotidiana dos seus membros.
Ao mesmo tempo, implementamos as atividades de formação contínua gratuitas na componente não obrigatória como eixo estratégico prioritário, para além das formações obrigatórias. Tivemos cursos muito participados em áreas particularmente relevantes, como os medicamentos biológicos e de terapia avançada, administração de vacinas e injetáveis, suporte básico de vida, revisão da terapêutica no idoso e dispensa de medicamentos hospitalares em proximidade. Isto demonstra duas coisas: primeiro, que a profissão está viva e empenhada em preparar-se; segundo, que os farmacêuticos compreenderam que o futuro exige diferenciação, competência técnica e atualização permanente.
Por isso, o meu balanço é positivo, mas não acomodado: há sempre margem para fazer melhor. Foi um ano de trabalho sério, de afirmação institucional e de reforço da ligação com os colegas. E, justamente por isso, também foi um ano em que aumentou a nossa responsabilidade para o futuro. Mas gostamos desses desafios e a minha equipa está preparada para responder.
– Qual foi a decisão mais difícil que teve de tomar durante o ano?
– Talvez a decisão mais difícil não tenha sido uma decisão isolada, pontual, mas antes a necessidade permanente de estabelecer prioridades num contexto em que quase tudo é importante e quase tudo é urgente. Quem lidera uma estrutura desta natureza percebe rapidamente que há mais necessidades do que tempo, mais expectativas do que recursos e mais frentes de intervenção do que capacidade de resposta imediata.
Tivemos de decidir onde colocar mais energia institucional: no reforço da presença pública, na resposta às dificuldades concretas dos colegas, no investimento formativo, no aprofundamento das relações institucionais ou na consolidação interna da Secção Regional. A dificuldade esteve precisamente aí: escolher sem excluir, priorizar sem desvalorizar, avançar sem perder de vista a pluralidade da profissão farmacêutica. A Ordem dos Farmacêuticos representa todos os farmacêuticos, independentemente do seu contexto de prática, e isso exige equilíbrio, justiça e uma visão abrangente. Priorizar não é excluir: é organizar a ação, mantendo sempre presente o compromisso de não deixar ninguém para trás.
Uma área em que esse dilema foi particularmente sensível foi a das Análises Clínicas e Genética Humana. Perante os constrangimentos na formação especializada dos residentes hospitalares desta área, não bastava apenas denunciar. Era necessário intervir de forma institucionalmente firme, mas responsável, preservando o interesse público, defendendo a dignidade profissional dos farmacêuticos e, ao mesmo tempo, evitando que o debate deslizasse para uma lógica corporativa redutora. Essa gestão tem sido especialmente difícil, porque falamos de formação reconhecida, de recursos humanos altamente diferenciados e da capacidade futura do SNS para responder com qualidade em áreas laboratoriais críticas. Mas é precisamente nesses momentos que se afirma o nosso papel: defender com firmeza os farmacêuticos, com sentido institucional e responsabilidade, honrando o mandato para o qual fomos eleitos.
– Qual foi o momento em que sentiu: ‘Valeu a pena’?
– Houve vários momentos em que senti isso, mas talvez os mais significativos tenham sido aqueles em que foi evidente que a SRNOF gerou um verdadeiro sentido de pertença e utilidade para os colegas. Quando vemos uma forte adesão às formações, participação ativa nos eventos, procura efetiva dos serviços da Secção Regional, e feedback de colegas que sentem que a Ordem está mais próxima, mais disponível e mais atenta, percebemos que o trabalho tem impacto real.
Há também momentos simbólicos que têm um peso muito particular. A Cerimónia de Compromisso Farmacêutico, por exemplo, é um desses momentos. Não apenas pela dimensão cerimonial, mas também por nos confrontar com a essência da profissão: a renovação de um compromisso ético, científico e humano com a saúde e com as pessoas. Quando vemos novos farmacêuticos assumir esse juramento, percebemos que a profissão tem futuro, que vale a pena investir nas novas gerações e que a nossa responsabilidade institucional também é preparar terreno para que entrem numa profissão mais forte e mais respeitada.
Um momento que também me marcou em 2025 foi o Dia Institucional da SRNOF. A cerimónia deste ano celebrou os contributos humanitários e artísticos dos farmacêuticos do Norte, tendo sido marcada pela emoção, pelo reconhecimento e pela celebração da diversidade de talentos na profissão. O evento, que decorreu na sede da SRNOF, reuniu dezenas de profissionais, num ambiente de partilha, reencontro e inspiração.
Noutra perspetiva, outro momento marcante foi observar o reconhecimento crescente do papel do farmacêutico comunitário, sobretudo num contexto em que as farmácias continuam a ser um dos pontos de contacto mais acessíveis do sistema de saúde. A ideia de que o farmacêutico deve ser cada vez mais “o primeiro a ser consultado”, contribuindo para a redução da pressão sobre o SNS e para a proximidade dos cuidados às populações, representa uma visão pela qual vale a pena trabalhar. Quando sentimos que essa visão está a ganhar corpo, que passa a ser entendida como solução e não apenas como ambição corporativa, então sentimos que o esforço compensa.
No fundo, o “valeu a pena” não nasce apenas de uma conquista concreta. Nasce quando percebemos que a Ordem dos Farmacêuticos está a cumprir a sua missão: defender a profissão, valorizar os farmacêuticos e contribuir para um SNS mais competente, mais próximo e mais humano.
Mas creio que mais importante que o presente é o futuro. ‘Valer a pena’ não é, nem pode ser, um ponto de chegada. A profissão farmacêutica exige-nos exigência, coesão e ambição, e não pode acomodar-se ao que já conquistou. O futuro constrói-se com coragem para continuar a afirmar o nosso valor, mesmo quando isso implica enfrentar resistências e romper com a inércia. Temos de estar à altura da responsabilidade que herdámos e da confiança que nos é depositada todos os dias. Porque, no fim, o que está em causa não é apenas a nossa profissão, mas também a qualidade dos cuidados de saúde que prestamos à sociedade.
– Que problema o marcou mais?
– O problema que mais me marcou foi, sem dúvida, a situação dos farmacêuticos residentes hospitalares da área de Análises Clínicas e Genética Humana e as dificuldades que estes profissionais têm enfrentado no desenvolvimento da sua formação especializada. Marcou-me porque não se trata apenas de um conflito circunstancial ou de uma divergência setorial. Trata-se de um problema que toca a justiça institucional, a valorização da profissão e a qualidade futura do próprio sistema de saúde.
Quando programas de formação reconhecidos enfrentam obstáculos significativos, nomeadamente pela falta de colaboração necessária ao seu funcionamento, o que está em causa não é apenas o percurso de alguns residentes. Está em causa a capacidade do país de formar profissionais altamente diferenciados, assegurar respostas laboratoriais qualificadas e proteger a qualidade dos cuidados prestados aos cidadãos. Essa é a razão pela qual considerei este tema particularmente grave. Não estamos a falar de uma reivindicação lateral; estamos a falar do futuro de uma área estratégica da profissão farmacêutica.
Além disso, esta situação simboliza algo maior: a necessidade de respeito efetivo pelas competências legalmente reconhecidas aos farmacêuticos e pela sua capacidade de integrar, com legitimidade plena, as equipas altamente diferenciadas no SNS. Sempre defendi que a cooperação interdisciplinar é indispensável, mas essa cooperação tem de assentar em lealdade institucional, respeito mútuo e foco no interesse público. Quando isso falha, o sistema fragiliza-se.
É por isso que importa dizer com clareza: modelos fechados, corporativos e assentes na não interdisciplinaridade estão hoje desajustados da realidade e não servem o futuro do SNS. A complexidade crescente dos cuidados, a pressão sobre os recursos e a exigência de respostas mais eficientes e sustentáveis impõem uma mudança de paradigma. O futuro do SNS, incluindo a sua própria sustentabilidade económica, dependerá, em larga medida, da capacidade de integrar plenamente equipas multidisciplinares, onde cada profissão contribui com o seu conhecimento específico, de forma complementar e articulada. Mas essa integração não pode ser confundida com diluição de competências nem com sobreposição desregulada de funções. Pelo contrário, exige regras claras, respeito pelas qualificações legalmente reconhecidas e uma cultura de colaboração baseada na confiança institucional. Defender a interdisciplinaridade é, hoje, defender um SNS mais racional, mais eficiente e mais justo, e recusar esse caminho é, no limite, perpetuar ineficiências que o sistema já não pode suportar.
Foi um problema que me marcou e continua a marcar. Porque envolve jovens profissionais, formação especializada, equidade, reconhecimento e futuro. E porque, em matérias destas, a Ordem dos Farmacêuticos não pode constituir-se apenas como observadora. Tem de estar presente, vigilante e interventiva.
– Uma conquista que passou despercebida, mas que considera importante?
– Uma conquista importante, mas que talvez não tenha tido a visibilidade merecida, foi a consolidação de uma cultura de proximidade institucional entre a SRNOF e os seus membros. Pode parecer menos mediático do que um grande congresso, uma tomada de posição pública ou um anúncio político, mas é estruturante. Em 2025, reforçámos a newsletter, o site, a presença ativa nas redes sociais, a disponibilidade de atendimento, o apoio jurídico e a rapidez na resposta às solicitações dos colegas. Tudo isso contribuiu para uma Secção Regional mais próxima, mais acessível e mais funcional.
Outra conquista menos exuberante, mas muito relevante, foi termos mantido uma política de gestão financeira prudente e responsável, sem comprometer a atividade da SRNOF e sem abdicar da nossa capacidade de apoiar os membros, promover formação e acolher iniciativas científicas e institucionais. Em contextos de liderança, há decisões que são valorizadas porque se veem; há outras que são valiosas precisamente porque evitam ruturas, asseguram continuidade e criam estabilidade. Esta foi uma dessas conquistas.
Também considero importante o reforço da aposta na formação como instrumento de valorização profissional real e não apenas formal. O facto de áreas como a dispensa de medicamentos hospitalares em proximidade, a revisão terapêutica no idoso ou os medicamentos biológicos e de terapia avançada terem sido abordadas de forma concreta mostra que a SRNOF não se limitou a comentar o futuro: ajudou a preparar os farmacêuticos para o receber. Isso é uma conquista silenciosa, mas estratégica.
A adesão às novas atividades e formações aumentou exponencialmente, o que mostra, de forma cabal, a cada vez maior proximidade entre a SNROF e os seus membros. E isto mostra, hoje, que mais do que instituição, a SNROF é cada vez mais a nossa ‘Casa’. A ‘Casa”’ onde todos constroem, contribuem, solidificam, evoluem e constroem uma profissão mais forte todos os dias. Esta é a ‘Casa’ que queremos. Próxima de tudo e de todos os farmacêuticos.
Muitas vezes, o que passa despercebido é exatamente o que sustenta tudo o resto. E, na minha perspetiva, 2025 foi importante também por isso: porque fortalecemos as bases.
– Que crítica ouviu este ano que o fez repensar algo?
– Uma crítica que ouvi, e que considerei legítima, foi a de que nem sempre a intervenção institucional é suficientemente percebida por todos os colegas, mesmo quando ela existe e é efetiva. Ou seja, por vezes, faz-se trabalho relevante, incluindo reuniões, contactos, representação, acompanhamento de dossiers complexos, mas isso não chega com igual clareza a todos os profissionais. Essa crítica leva-nos a refletir sobre uma dimensão muito importante da liderança: não basta agir, é preciso também comunicar bem o que se faz, o motivo porque se faz, e qual a sua consequência, avaliando os resultados.
Essa reflexão levou-nos a reforçar os canais de comunicação e a insistir numa presença mais regular, mais pedagógica e mais transparente. A comunicação institucional não é um acessório. É parte integrante da representação. Uma Ordem Profissional só é verdadeiramente forte se os seus membros sentirem que conhecem a sua ação, compreenderem as suas prioridades e perceberem que estão a ser representados com proximidade e seriedade.
Também nos fez pensar sobre a necessidade de traduzir melhor os temas estruturais para a experiência concreta dos colegas. Às vezes falamos de regulamentação, de competências, de integração no sistema, de sustentabilidade do SNS, e tudo isso é absolutamente central. Mas o colega que está no terreno quer também perceber como é que essas batalhas estruturais se refletem no seu quotidiano, na sua valorização profissional, nas suas condições de exercício e no reconhecimento do seu papel. Essa ponte tem de ser cada vez melhor.
Em suma, foi uma crítica útil. Não a encarei como contestação, mas como oportunidade de melhoria.
– Se pudesse refazer uma única decisão, qual seria?
– Se pudesse voltar atrás, talvez tivesse procurado acelerar ainda mais algumas iniciativas de carácter estrutural, sobretudo na preparação da profissão para mudanças que já estão em curso e que não esperam pelo nosso ritmo institucional. Refiro-me, em particular, à necessidade de antecipar o alargamento de competências, reforçar a qualificação em áreas emergentes e preparar melhor os farmacêuticos para um contexto marcado pela digitalização, inteligência artificial, novas terapêuticas, envelhecimento populacional e uma maior exigência de integração no SNS.
Não digo isto por considerar que tenhamos falhado. Pelo contrário: houve trabalho sério, formação relevante e orientação estratégica clara. Mas quem lidera tem sempre a sensação de que certas decisões estruturais deveriam acontecer de forma mais acelerada, sobretudo quando sabemos que o futuro já começou. A velocidade da transformação tecnológica e organizacional na saúde é hoje muito elevada, e isso exige das instituições profissionais uma capacidade de antecipação cada vez maior.
Talvez, por isso, aquilo que reformularia não fosse tanto o conteúdo das decisões, mas o seu tempo: decidir mais cedo, agir com maior celeridade e não adiar o que é estrutural. Em determinadas matérias, ganhar alguns meses pode fazer toda a diferença. Permite preparar melhor uma geração de profissionais, ocupar o espaço institucional antes que outros o definam por nós e afirmar, sem hesitações, o lugar do farmacêutico nas respostas do SNS.
– O que mudou estruturalmente na profissão na sua região este ano?
– Diria que o que mais mudou, do ponto de vista estrutural, foi o reforço da perceção de que o farmacêutico não pode continuar a ser visto apenas como um profissional associado ao medicamento no sentido restrito, mas como um agente de saúde com responsabilidades clínicas, comunitárias, científicas e de saúde pública cada vez mais amplas.
Esta mudança tornou-se particularmente visível na farmácia comunitária. Hoje, é mais evidente que as farmácias são uma porta de entrada efetiva no SNS e que os farmacêuticos comunitários desempenham funções essenciais no aconselhamento clínico, na vacinação, no acompanhamento terapêutico, na promoção da literacia em saúde e no apoio a populações vulneráveis. A discussão sobre dispensa em proximidade, renovação da terapêutica crónica e intervenção em situações clínicas ligeiras mostra precisamente essa transformação de paradigma: de um modelo centrado no ato de dispensar para um modelo centrado na pessoa, na continuidade de cuidados e na acessibilidade.
Outra mudança estrutural importante foi a crescente centralidade da qualificação e da diferenciação profissional. A valorização das especialidades, das competências farmacêuticas e da formação avançada deixou de ser um tema periférico. Tornou-se uma condição de credibilidade, de afirmação e de preparação para novos papéis. Esta ideia está hoje muito mais presente na profissão, e considero isso uma evolução muito significativa.
Acresce ainda uma transformação menos visível, mas decisiva: a profissão passou a confrontar-se de forma direta com temas como inteligência artificial, interoperabilidade de sistemas, acesso a dados clínicos, produção de evidência em contexto real e cibersegurança. Isso significa que o farmacêutico do presente já não é apenas chamado a dominar o medicamento; é chamado a integrar ciência, tecnologia, ética e proximidade humana. E isso altera estruturalmente o perfil da profissão.
Perante esta transformação, há uma conclusão que se impõe: a profissão farmacêutica entrou definitivamente numa nova fase, mais exigente, mais exposta, mas também muito mais relevante. Este é um tempo de afirmação, não de hesitação. Temos de consolidar este caminho com ambição estratégica, garantindo que o farmacêutico é reconhecido como um agente essencial na resposta aos desafios do sistema de saúde. Isso exige unidade interna, investimento contínuo na qualificação e uma presença institucional capaz de influenciar decisões estruturais. O futuro não será determinado apenas pela evolução tecnológica ou pelas reformas do sistema, será determinado pela nossa capacidade de ocupar, com competência e visão, o espaço que nos pertence. E há hoje razões sólidas para acreditar que estamos preparados para o fazer.
– Qual acha que será o maior desafio de 2026 para os farmacêuticos da sua região?
– Penso que o maior desafio de 2026 será transformar o reconhecimento potencial em integração efetiva. Ou seja, já existe um discurso relativamente consolidado sobre a importância dos farmacêuticos, sobre a sua proximidade às populações e sobre o seu contributo para a sustentabilidade do SNS. O desafio agora é fazer com que isso se traduza, de forma concreta, em novas responsabilidades, melhor enquadramento, maior reconhecimento e condições adequadas de exercício.
Nesse plano, destacaria quatro frentes. A primeira é a implementação plena da dispensa de medicamentos hospitalares em proximidade, que constitui uma medida com impacto direto na vida dos utentes e cuja concretização não tem avançado ao ritmo desejável. A segunda é a operacionalização da intervenção farmacêutica em situações clínicas ligeiras, com protocolos bem definidos, enquadramento seguro e acesso à informação clínica necessária. A terceira é a valorização da formação especializada, das competências e das especialidades, para garantir que o alargamento do papel do farmacêutico ocorre com rigor e credibilidade. E a quarta é a defesa da equidade entre áreas profissionais, incluindo a plena valorização dos residentes da Residência Farmacêutica e a superação das lacunas regulamentares ainda existentes.
Há ainda um plano de fundo que não pode ser ignorado: o envelhecimento da população, a polimedicação, a necessidade de acompanhamento continuado e a consequente pressão crescente sobre o SNS. Tudo isso cria um contexto em que o farmacêutico pode e deve ter um papel mais central, nomeadamente numa lógica de “farmacêutico de família”, de acompanhamento da adesão terapêutica e de prevenção de problemas relacionados com a medicação. O desafio é garantir que essa necessidade social se traduz em reconhecimento estrutural efetivo.
2026 será, por isso, um ano decisivo. Não apenas para discutir o futuro da profissão, mas para o concretizar.
– O que gostaria de fazer, que ainda não conseguiu?
– Gostaria de ver mais rapidamente concretizadas algumas medidas estruturantes que há muito defendemos e cujo valor, do ponto de vista técnico e social, me parece hoje inequívoco. Refiro-me, desde logo, à generalização efetiva da dispensa de medicamentos hospitalares em proximidade e à implementação segura, regulada e consequente da intervenção do farmacêutico em situações clínicas ligeiras. São medidas que aproximam os cuidados de saúde dos cidadãos, melhoram o acesso, aumentam a comodidade dos doentes e contribuem para aliviar a pressão sobre outras estruturas do SNS.
Gostaria também de ver mais consolidada a integração do farmacêutico como agente de saúde pública e como elemento plenamente reconhecido nas estratégias locais e nacionais de resposta em saúde. A experiência recente mostrou que, em muitos contextos, as farmácias comunitárias foram o ponto de contacto mais acessível para os cidadãos, incluindo em momentos de crise, perturbação logística ou eventos extremos. Esse papel deve ser melhor aproveitado, estruturado e preparado.
Outra área em que gostaria de ver avanços mais rápidos é a da interoperabilidade e do acesso aos dados clínicos. Não é possível pedir mais responsabilidades aos farmacêuticos e continuar, ao mesmo tempo, a limitar o acesso à informação necessária para que estes exerçam essas responsabilidades com qualidade e segurança. Trata-se de um ponto absolutamente crucial para o futuro da profissão.
Porque é que ainda não foi possível chegar mais longe? Porque estes processos dependem de articulação institucional, decisão política, enquadramento regulatório e, em alguns casos, de mudança cultural. E essas mudanças são, por natureza, mais lentas do que aquilo que os cidadãos e os profissionais legitimamente desejariam. Mas o facto de ainda não estarem plenamente concretizadas não diminui a importância de continuar a batalhar por elas.
Mas a verdade é que estas mudanças já não pertencem ao domínio da intenção, pertencem ao domínio da inevitabilidade. O sistema de saúde exige-as, os cidadãos beneficiam delas e os farmacêuticos estão preparados para as concretizar. O que falta não é evidência, e sim decisão. E é precisamente aí que devemos concentrar a nossa ação: acelerar consensos, influenciar políticas e não abdicar de um caminho que sabemos ser o certo.
O futuro constrói-se com persistência e com coragem institucional, mesmo quando o ritmo não acompanha a urgência. Estou convicto de que, mantendo esta trajetória, conseguiremos transformar ambição em realização e afirmar, de forma clara e irreversível, o farmacêutico como pilar essencial de um sistema de saúde mais acessível, mais eficiente e verdadeiramente próximo das pessoas.
– O que quer mesmo fazer até ao fim do mandato?
– Até ao final do mandato, quero contribuir para deixar uma SRNOF mais forte, mais próxima, mais respeitada e mais útil aos farmacêuticos do Norte e à sociedade em geral. Quero que a Secção Regional seja reconhecida não apenas pela sua atividade institucional, mas também pela sua capacidade real de representar, mobilizar, qualificar e inspirar a profissão.
Quero consolidar uma cultura em que os farmacêuticos sintam a Ordem como uma estrutura próxima e exigente, mas também como um espaço de valorização, de escuta, de proteção e de impulso. Isso implica continuar a reforçar a comunicação, a disponibilidade, a formação e o diálogo com os colegas, bem como aprofundar a relação com os diferentes atores do SNS. Implica, igualmente, afirmar, sem ambiguidades, uma visão abrangente da profissão, que integra a farmácia comunitária e hospitalar, análises clínicas e genética humana, indústria, distribuição, assuntos regulamentares, investigação, ensino e todas as áreas em que os farmacêuticos acrescentam valor.
Mas, acima de tudo, quero ajudar a posicionar melhor a profissão para o futuro. Isso significa contribuir para a valorização das especialidades e competências, para uma integração mais plena dos farmacêuticos no SNS, para a concretização de novos serviços com qualidade e segurança, para a defesa da equidade no acesso aos tratamentos e para o reconhecimento do farmacêutico como profissional essencial num sistema mais humano, mais acessível e mais sustentável.
No fundo, quero que, em conjunto com esta extraordinária equipa que integra os órgãos sociais da Secção Regional, possamos afirmar, ao final do mandato, que a SRNOF não se limitou a gerir o presente, mas também ajudou a preparar o futuro. E essa é, para mim, talvez a mais importante das missões a que nos propusemos.




