1H-TOXRUN 2026: “Nós praticamente não sabemos como tirar [extrair] um paracetamol da água” 72

O investigador perito em toxicologia forense Ricardo Dinis-Oliveira alertou hoje para o aparecimento de novos contaminantes e tóxicos no ecossistema, no decorrer do último dia do congresso 1H-TOXRUN 2026 sobre pesticidas, alimentação e novos poluentes ambientas emergentes.

A iniciativa, coorganizada pela unidade de investigação do Instituto Universitário de Ciências da Saúde (CESPU) e pela Ordem dos Farmacêuticos, apresentou um programa científico que destaca os riscos associados à agricultura intensiva, o desenvolvimento de biopesticidas mais sustentáveis, o impacto dos microplásticos nos sistemas agrícolas e o papel dos medicamentos enquanto novos poluentes ambientais, refletindo a crescente complexidade das exposições químicas.

O especialista, e organizador do evento a decorrer no Porto, alertou para os riscos dos novos tóxicos emergentes e também para os químicos já existentes presentes no dia-a-dia da população.

“Há um conjunto de tóxicos verdadeiramente novos a aparecer no ecossistema que nós não temos qualquer conhecimento sobre eles na atualidade. Os resíduos dos equipamentos eletrónicos, […] estão cheios de metais pesados, desde arsénio, chumbo e mercúrio, que contaminam o ambiente, além de haver risco para a saúde humana e animal”, explicou o investigador.

No congresso, peritos nacionais e internacionais das áreas da toxicologia, ciências farmacêuticas, biomedicina, medicina, ciências do ambiente, nutrição e saúde pública debateram os principais riscos emergentes para a saúde pública.

“Vivemos num cenário de exposição contínua a múltiplos agentes químicos e ambientais, muitos deles ainda pouco compreendidos no seu impacto combinado na saúde humana. É fundamental reforçar uma abordagem integrada e baseada na evidência científica para antecipar riscos e proteger as populações”, afirmou Ricardo Dinis-Oliveira.

Em declarações à Lusa, o presidente do comité do congresso que juntou cerca de 70 doutorados para abordarem estes temas indicou que também em Portugal os riscos do aparecimento de fármacos nas águas residuais podem vir a ser nocivos para a saúde pública, indicando a falta de conhecimento tecnológico sobre a questão.

Nós praticamente não sabemos como tirar [extrair] um paracetamol da água. Veja os milhões e milhões de embalagens de paracetamol que são consumidos. Estes fármacos vão para as águas, vão para os rios e nós já temos fluoxetina, que é um antidepressivo, na água do Rio Douro, […] vivemos neste momento uma introdução explosiva de novos contaminantes para os quais pouco sabemos sobre eles e muito pouco menos sabemos de como os remover do ecossistema”, disse.

O investigador, que tem como expectativa suscitar o interesse deste assunto à sociedade com o congresso 1H-TOXRUN 2026, anunciou a necessidade de agir rapidamente dizendo: “Não vamos ter tempo a esperar que a ciência prove a verdade ou mentira, não vai haver tempo, não vamos poder esperar por aquela evidência científica, imaculada, que retire qualquer dúvida aos velhos do Restelo”.

Uma das soluções para esta problemática foi exposta no congresso pela investigadora da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Ana Rita Lado, como prevenção “seria devolver nas farmácias os fármacos que não se usam, quando passam da validade, e para nunca colocar os fármacos nas sanitas nem no lixo doméstico”.