Uma Nova Abordagem do Erro Médico  673

Estima-se que um em cada dez doentes admitidos nos hospitais dos estados membros da União Europeia sofre erros médicos durante o seu percurso de tratamento (UE, 2015). Entre 8 a 12% dos pacientes já padeceram de erros associados a infecções hospitalares, erros de medicação, erros cirúrgicos, dispositivos médicos e erros de diagnóstico e tratamento (Eurobarómetro, 411, 2014).

Na realidade, os erros médicos matam mais pessoas do que os acidentes de carro ou avião, o cancro da mama, a sida, ou as overdoses. Mas o erro em medicina faz parte da realidade da prestação de cuidados de saúde, enquanto atividade de risco (Fragata, 2011).

A literatura sobre os erros é vasta. Os erros podem ser definidos como atos ou incidentes que têm consequências no processo de tratamento do paciente, causando, por isso, danos ao mesmo.

Existe, uma multiplicidade de erros, sendo a medicação um dos mais reincidentes. Em Portugal, estima-se, a par da estatística internacional, que 10% dos problemas inesperados com doentes nos hospitais se devem a erros com medicamentos (Fragata, 2011). O erro de medicação é assim considerado um evento que pode conduzir ao uso de uma medicação inapropriada para o paciente, causando em última instância danos ao doente.

Este tipo de erro pode ocorrer em várias fases, prescrição, transcrição, distribuição e administração do medicamento.

Sendo a prescrição o primeiro estádio de todo o processo da toma, é aqui que muitas das vezes o erro tem o seu ponto de origem. Este tipo de erros acontece quando na prescrição existe ilegibilidade do nome ou da dose do medicamento e pela utilização de abreviaturas. Na transcrição (cópia exata da prescrição num registo próprio) surgem, muitas das vezes, erros devido a problemas de rasura ou prescrição incompleta.

Relativamente à dispensa ou distribuição de medicamentos (fornecimento de medicamentos de forma individual aos doentes), os erros estão associados a desvios em relação à prescrição. Face à administração da medicação, emergem erros relacionados com a rota incorreta de administração, isto é, atraso e falta de medicamentos e discrepância entre o medicamento administrado ao doente e aquele que foi prescrito.

Apesar do Conselho Geral da Europa (2003) referir como principais erros de medicação a confusão, a forma, a embalagem e a etiquetagem, erros na dose, na preparação, falta de competências e falhas na comunicação parece-nos que devemos analisar os problemas dos erros noutra perspectiva.

Muitas das vezes, as causas que estão subjacentes aos erros de prescrição e transcrição envolvem problemas de falta comunicação entre os profissionais (falta de interpretação do discurso, desvalorização de notas médicas) e com problemas de passagem de informação (falta de verificação ou ignorar a mesma; falhas na passagem de informação durante o fim de semana, falhas na integração de dados em papel e informação tecnológica).

As barreiras físicas e processuais podem também estar, frequentemente, associadas a erros de dispensa e administração de medicamentos. Isto acontece pelo motivo de os profissionais estarem constantemente a repriorizar tarefas, a procurar vias alternativas para resolver os seus problemas e a desvalorizar informação. Para além disso o facto de ignorar alguns passos nos procedimentos, pelas persistentes e inúmeras solicitações que sofrem no seu dia a dia, devido à sua exposição ao stress diário ou à fadiga são também relevantes.

Gestores e equipas de profissionais de saúde deverão trabalhar no sentido de desenvolver e desenhar processos, através dos quais seja possível identificar e isolar o erro, para depois mecanizar e automatizar processos de ação e reação que, possam ser diferentes, dependendo de cada erro e das suas causas.

O facto de as tarefas estarem programadas e bem orientadas ajuda a reduzir erros. No entanto é necessário que exista, por parte das equipas, motivação para que logo que encontrem uma falha se empenhem a eliminá-la, contribuindo, assim, para a sua não propagação. Os profissionais devem também evitar procrastinar os erros e as soluções que são já muitas das vezes do seu conhecimento.

Uma recomendação para poder evitar os erros de medicação está relacionada com o facto de haver uma análise por parte de todos os hospitais, sobre quais os medicamentos que mais frequentemente estão associados a erros de medicação. Nesse sentido, e em conjunto, hospitais e Indústria Farmacêutica deveriam tentar resolver problemas associados a formatos de embalagens e semelhanças de formas de medicamentos.

Mais do que uma solução específica, que resolve um problema concreto é o facto de definir metodologias, para os problemas de medicação que possam surgir. Nesse sentido, seria interessante que as equipas se reunissem periodicamente e em conjunto elaborassem documentos que mostrem o erro, a sua causa e em simultâneo encontrassem soluções.

Referências: 

Conselho da Europa – Survey on Medication Errors, Estrasburgo, 2003.

Eurobarometer 411, (2014), Patient Safety and Quality of Care, June, http://ec.europa.eu/public_opinion/archives/ebs/ebs_411_en.pdf

Fragata, J. (2011), Segurança do Doentes: Uma abordagem prática, Lousã: Lidel

Filipa Breia da Fonseca

(A coluna Notas da Nova é uma contribuição para a reflexão na área da saúde, pelos membros do centro de investigação Nova Healthcare Initiative – Research. São artigos de opinião da inteira responsabilidade dos autores)

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