Tempos difíceis enfrentados com otimismo na Farmácia Comunitária 1581

Realizou-se ontem, dia 4 de junho, a 6ª Conferência Farma Sessions Edição Especial, uma iniciativa da revista Farmácia Distribuição, a primeira no formato webinar, sob o tema “Farmácia Comunitária: Gerir em tempo de pandemia”.

 

O impacto da pandemia na Farmácia Comunitária

João Norte, CEO da HMR-Health Market Research, apresentou os últimos dados do mercado farmacêutico antes e durante a pandemia, com resultados até ao final de maio. O responsável revelou que, em termos acumulados, 2020 continua a superar os números de 2019. No entanto, regista-se já uma quebra nos meses de abril e, sobretudo, maio.

João Norte enfatizou a boa performance de algumas categorias, nomeadamente as relacionadas com doenças crónicas, o que atribui a uma maior adesão dos doentes às terapêuticas. Este facto pode ser um sinal para o futuro.

A esse nível, o CEO da HMR acredita que vamos entrar numa nova realidade e enfrentar uma crise económica e uma recessão longas. Contudo, o papel das farmácias, enquanto unidade de Saúde, sai reforçado desta época de pandemia.

“Os doentes/consumidores vão continuar a ter a farmácia como um local de eleição para a procura de cuidados primários de Saúde e para o aconselhamento. Apesar de ser expectável um aumento do volume na farmácia, associado a maior prevenção e promoção da Saúde, comportamentos mais saudáveis e melhores taxas de adesão à terapêutica, o impacto da crise económica na vida dos portugueses vai ter consequências diretas na farmácia”.

 

“Nunca estamos fechados, somos um serviço de utilidade pública”

Para Luís Lourenço, proprietário e Diretor Técnico da Farmácia Central do Cacém, a prioridade foi “manter o serviço operacional, sempre em segurança”.

Foram muitos os desafios encontrados numa farmácia localizada numa zona residencial, com alta densidade populacional, em que os utentes estavam em casa. Para além de uma procura tremenda em março, teve de cancelar a entrega dos medicamentos ao domicílio devido à grande procura na farmácia, o que levou ao desgaste emocional das equipas.

“Nunca estamos fechados, somos um serviço de utilidade pública e desta vez as pessoas sentiram isso. Pretendemos manter essa confiança”, indicou o farmacêutico, que reconhece estar “altamente otimista em relação ao futuro”, pois mostraram ser “um setor que respondeu rapidamente” e pretende “continuar a dar resposta aos utentes”.

 

“Podem sempre contar connosco”

Para Nuno Machado, proprietário da Farmácia Holon Campo Grande, a grande dificuldade foi “gerir o pânico geral: quer dos clientes que tinham medo que os medicamentos acabassem, açabarcando o máximo”, quer “dos colaboradores, com receio de serem infetados pois tínhamos dificuldade em adquirir proteção individual”.

Localizada junto um interface de transportes públicos em Lisboa, a farmácia teve uma quebra muito significativa das vendas, pois os seus utentes deixaram de frequentar aquela zona. O gestor defende que nestas circunstâncias o mais importante é manter a calma, aceitar o facto e enfrentar com ponderação o problema, sabendo que o impacto é inevitável.

“Como profissionais de Saúde temos de assumir a responsabilidade. Mais do que falar, temos de mostrá-lo. Foi uma altura em que todos mostrámos o que valemos. E que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) pode contar com os farmacêuticos.”

Quanto ao futuro, Nuno Machado aposta na excelência do serviço farmacêutico no acompanhamento dos doentes e na afirmação definitiva dos farmacêuticos como os verdadeiros especialistas do medicamento.

 

“Esta é a sua farmácia, eu sou a sua farmacêutica”

Teresa Miguens, proprietária e Diretora Técnica da Farmácia Miguens, em Benavente, enfrentou o cenário oposto o fluxo de utentes da sua farmácia, inserida numa pequena cidade com características de alguma ruralidade, aumentou.

“Tive receio de mandar as pessoas para casa. E depois como ia fazer para elas voltarem à farmácia? Tive medo de perder essa proximidade com os clientes. Precisei de uma equipa focada, com a porta aberta 12 horas por dia, todos os dias da semana. Tive de preparar a farmácia para que todos se sentissem confortáveis”, explicou.

Num cenário de bom comportamento das vendas neste período, a farmacêutica destacou o facto de algumas categorias com vendas tradicionalmente baixas na sua farmácia, como por exemplo os champôs, terem tido um forte incremento, facto que atribui à conveniência de acrescentar estes produtos ao cabaz da farmácia.

O futuro, encara-o com otimismo: “nós não queremos e não podemos caminhar sozinhos. Parto para o futuro com uma equipa muito bem preparada, com uma relação de absoluta confiança com os nossos fornecedores e sempre ao lado dos meus utentes”.

 

O privilégio de ser farmacêutico todos os dias

João Godinho da Silveira, proprietário da Farmácia Silveira Alegro Sintra viu-se a braços com o fecho do centro comercial onde a farmácia se insere.

Para fazer face ao autêntico tsunami provocado pela covid-19, o farmacêutico teve de lançar mãos de todas as armas de gestão possíveis: “Realocamos pessoas a outras farmácias, antecipámos férias. Tivemos de renegociar a renda com os shoppings, protelando o pagamento das mensalidades de abril e maio. Negociámos com a banca uma linha de crédito e candidatámo-nos ao Adaptar”. Dessa forma, tem sido possível manter a farmácia em funcionamento e toda a equipa a trabalhar.

João Silveira declarou que se sente “um privilegiado por me levantar todos os dias para ir trabalhar naquilo que gosto de fazer: ser farmacêutico”. Acrescenta que os “profissionais de Saúde saem mais valorizados do que os jogadores de futebol e o governo vai ter de investir na Saúde”. É este o suporte para o otimismo com que encara o futuro da Farmácia, realçando projetos como a passagem dos medicamentos hospitalares para as farmácias comunitárias como vitais para a sobrevivência do setor.

O farmacêutico conclui: “sinto-me muito orgulhoso, não vi ninguém virar as costas a esta pandemia”.

 

O futuro é a especialização

António Hipólito de Aguiar, Sócio-Gerente e Diretor Técnico da Farmácia Aguiar já olha para o futuro, para as mudanças que o setor vai sofrer, em que o preço e a não presença do utente na farmácia vão ser dois pontos fundamentais.

“O nosso consumidor, o presencial, vai mudar. O teletrabalho veio para ficar, o que vai originar menos movimento nas farmácias. Os nossos utentes serão virtuais e estarão menos tempo nas farmácias.”

Por outro lado, afirma que “O preço vai ser predominante, assim como um aumento de competição entre farmácias. Os próximos tempos serão ainda marcados por alguma desconfiança dos consumidores, receosos de frequentar os espaços comerciais”.

O futuro passa pelo online: “temos de adotar uma estratégia de grupo para encontrar soluções conjuntas num panorama cada vez mais virtual”. Mas também passa pela especialização, que Hipólito de Aguiar acredita que será a “grande diferenciação que a farmácia tem de fazer no futuro. Cada um de nós tem de ter a capacidade de se especializar em duas vertentes: os produtos e o serviço. Temos que perceber que categorias fazem mais sentido na nossa farmácia e em que tipo de serviço queremos especializar as nossas equipas. Temos de ter uma postura mais interventiva no campo estratégico”.

 

Setor forte e unido

Ana Cristina Gaspar, Vice-Presidente da Associação Nacional das Farmácias, destacou o papel incontornável que as farmácias e os farmacêuticos tiveram, e mantêm, no combate à covid-19.

A farmacêutica defende que tem de se olhar para o futuro e pensar em três vertentes: garantir a ida do utente à farmácia, garantir o medicamento e garantir a viabilidade económica da farmácia.

Por outro lado, defende que ficou demonstrada a importância que a farmácia tem no Serviço Nacional de Saúde (SNS), numa altura em que ele está fragilizado. “As farmácias têm de assumir a sua importância face ao SNS em três pontos: a entrega dos medicamentos hospitalares na farmácia e que este serviço passe a ser remunerado; assumir a renovação terapêutica numa altura em que o Centro de Saúde não está a dar respostas tão céleres, sempre em sintonia com os médicos; e assumir a época vacinal com a farmácia a ser mais interventiva do que foi até agora”, concluiu.

 

O webinar contou com a presença de mais de 800 pessoas, com o número máximo de 606 em simultâneo.

Esta FARMA SESSIONS, powered by RHP, foi creditada pela Ordem dos Farmacêuticos com 0,2 CDP’s e teve o Patrocínio do ALTER GENÉRICOS, VITERRA e BELEZA & SAÚDE, contando ainda com o apoio da OCP Portugal, Simposium Digital HealthCare, Farmácias Holon, Rede Claro e Mais Farmácia. A Revista MARKETING FARMACÊUTICO, Portal NETFARMA e E-newsletter FARMANEWS foram media partners desta conferência.

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