Sessão Comemorativa dos 50 anos do SNF: Reflexão e debate sobre o futuro da profissão 73

O Sindicato Nacional dos Farmacêuticos (SNF) celebrou recentemente os seus 50 anos com uma sessão no Salão Nobre da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto. Uma tarde marcada por memórias, reflexão e debate sobre os desafios presentes e futuros da profissão farmacêutica.

O Professor Doutor Paulo Costa, em representação do Professor Doutor Domingos Ferreira, diretor da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, deu início à celebração. SeguIu-se a intervenção da presidente do SNF, Dra. Helena Tertuliano, que evocou momentos e figuras decisivas na história do sindicato e sublinhou a importância da sindicalização como instrumento de proteção e valorização profissional.

A mesa-redonda, moderada pela Dra. Marina Caldas, contou com um painel de convidados de reconhecido mérito: Professor Doutor Félix Carvalho, presidente da Secção Regional Norte da Ordem dos Farmacêuticos; Dr. Henrique Reguengo, presidente do Colégio de Especialidade de Análises Clínicas e Genética Humana; Dra. Ema Paulino, presidente da Associação Nacional de Farmácias; e Dr. Armando Alcobia, presidente da Comissão Nacional da Residência Farmacêutica; além da Dra. Helena Tertuliano, presidente do SNF.

O debate abordou a evolução científica e tecnológica, o impacto da inteligência artificial, a importância da especialização e a crescente necessidade de aproximação ao doente. Foi ainda sublinhada a importância da integração dos farmacêuticos em equipas multidisciplinares e de reforço da dimensão clínica da atuação farmacêutica, como acontece noutros países.

Neste contexto, destacou-se o papel central e estratégico do farmacêutico hospitalar na garantia de eficiência terapêutica e na sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde. Através de uma gestão rigorosa dos medicamentos e da manipulação de terapias cada vez mais avançadas, o farmacêutico é fundamental para a promoção de cuidados de saúde de elevada qualidade.

No domínio das análises clínicas e genética humana, os farmacêuticos especialistas continuam a enfrentar obstáculos ao pleno exercício das suas competências, particularmente no setor público. Apesar de a legislação reconhecer claramente as suas atribuições, persistem desigualdades salariais, bloqueios institucionais e interpretações restritivas que limitam a progressão profissional. Em alguns contextos, subsiste uma atitude corporativista por parte de outros profissionais que, ignorando ou fingindo desconhecer a diferenciação científica dos farmacêuticos especialistas, colocam entraves ao seu exercício. Trata-se de uma postura difícil de justificar quando o foco deveria estar na qualidade dos cuidados prestados ao doente. Como consequência, tem-se verificado uma redução do número de farmacêuticos especialistas em análises clínicas e genética humana nas instituições do Serviço Nacional de Saúde.

O papel do farmacêutico comunitário também foi destacado. Para além da dispensa de medicamentos, o farmacêutico comunitário intervém diariamente em tarefas que são realizadas frequentemente pro bono, como aconselhamento clínico em situações ligeiras, o acompanhamento de doentes crónicos, a vacinação ou a dispensa em proximidade. Esta atuação tem respondido à crescente exigência de proximidade, garantindo segurança, eficácia e continuidade nos cuidados de saúde, embora a legislação e a regulamentação não acompanhem plenamente esta realidade e o potencial desta intervenção continue a ser indevidamente valorizado.

A residência farmacêutica foi igualmente referida como um importante investimento na qualificação profissional. Atualmente, cerca de 500 farmacêuticos encontram-se em formação especializada. Para que esse investimento da sociedade produza verdadeiro retorno, será essencial garantir a sua integração no sistema de saúde. Caso contrário, torna-se real o risco de perder profissionais qualificados para o setor privado ou para o estrangeiro.

Durante o debate sublinhou-se também a importância de uma participação mais ativa dos farmacêuticos nos processos de decisão em saúde, incluindo na discussão e elaboração das políticas públicas.

Refletiu-se ainda sobre o reconhecimento das especialidades e sobre a importância de uma profissão valorizada e protagonista no sistema de saúde. Em vários países, a diferenciação científica dos farmacêuticos traduz-se numa intervenção clínica mais alargada. Em alguns sistemas de saúde os farmacêuticos prescrevem medicamentos e integram equipas multidisciplinares, participando mais diretamente na gestão terapêutica dos doentes. Esta realidade internacional demonstra o potencial de evolução da profissão quando as competências científicas dos farmacêuticos são plenamente reconhecidas e integradas nos modelos organizativos dos sistemas de saúde.

A afirmação dos farmacêuticos não depende apenas da competência individual dos seus profissionais. A valorização da profissão exige também capacidade coletiva de afirmar o seu papel no sistema de saúde e, por isso, de organização, participação ativa e estruturas representativas capazes de dar voz às preocupações da classe.

Cinquenta anos depois da sua fundação, o SNF reafirma o seu propósito original: defender os direitos e a valorização dos farmacêuticos, reforçando o contributo da profissão para um sistema de saúde mais seguro, eficiente e sustentável. O futuro da profissão depende do empenho de cada farmacêutico, mas concretiza-se sobretudo através de união, participação e de uma visão coletiva.

Marta Rego
Membro da Direção do SNF e especialista em Análises Clínicas