Reunião Anual de Farmácia Comunitária 2026: Farmácia Comunitária quer contar mais 103

Num sistema de Saúde pressionado pela escassez de recursos, pela crescente complexidade dos cuidados e pela necessidade de respostas mais próximas, a Reunião Anual de Farmácia Comunitária 2026 serviu para afirmar uma ideia com peso profissional e institucional. O farmacêutico comunitário quer ser reconhecido não apenas pela proximidade, mas também pela sua capacidade de intervenção clínica, pela diferenciação da prática e pela resposta concreta aos desafios em saúde.

Esta mensagem perpassou as sessões de abertura e de encerramento, nas quais Cidália Almeida da Silva, presidente do Conselho do Colégio de Especialidade de Farmácia Comunitária da Ordem dos Farmacêuticos (CCEFC-OF), apresentou a sexta edição da reunião como um espaço de reflexão estratégica sobre o presente e o futuro da profissão.

A iniciativa, promovida pelo CCEFC-OF sob o lema ‘Inovação, Ética e Resposta aos Desafios em Saúde’, decorreu no dia 28 de março, na Secção Regional do Norte da OF, no Porto, reunindo 130 participantes presenciais e 60 online. Ao longo do dia, o programa passou por temas como a obesidade, a especialização em Farmácia Comunitária, a cibersegurança, a resposta em situações de catástrofe e emergência e a inteligência artificial (IA).

Uma profissão em afirmação

Logo na abertura, Cidália Almeida da Silva procurou fixar o tom da reunião. Não se tratava apenas de “um evento científico”, mas de “um espaço de reflexão estratégica sobre o presente e o futuro da nossa profissão”. Numa altura particularmente exigente para os sistemas de Saúde, frisou que os farmacêuticos comunitários atravessam um tempo de afirmação, enquanto “profissionais de saúde de proximidade, de confiança, de continuidade de cuidados, de prevenção e de segurança do medicamento”.

Ao fazer o balanço do trabalho desenvolvido pelo CCEFC-OF ao longo do último ano, apontou um objetivo claro: valorizar a especialização, reforçar a intervenção clínica do farmacêutico e consolidar o seu papel no sistema de Saúde. Esse caminho, acrescentou, tem sido construído “com os colegas, para os colegas, mas, acima de tudo, para as pessoas que diariamente confiam em nós”.

Especializar para valorizar

Luciano Reis/Ordem dos Farmacêuticos

Entre os vários temas destacados por Cidália Silva, a consulta farmacêutica e a especialização surgiram como dois pilares centrais. O webinar pré-reunião ‘Consulta Farmacêutica – Implementação Prática e Impacto em Saúde’, realizado a 24 de março, contou com mais de 450 participantes, um número que a dirigente leu como um “sinal claro” de “mobilização da classe” e de “compromisso com a evolução da profissão”.

Foi também nesse contexto que revelou que o CCEFC-OF concluiu seis normas durante o último ano, entre elas a Norma da Consulta Farmacêutica em Farmácia Comunitária, que deverá em breve entrar em consulta pública.

A especialização apareceu, de resto, como um dos eixos mais fortes da sua intervenção. Cidália Silva recordou a revisão da Norma de Atribuição do Título de Especialista e deixou um apelo direto aos farmacêuticos para que avancem com a candidatura. Mais do que um enquadramento normativo, defendeu, a especialização permite “dar estrutura ao que já fazemos, reconhecer a diferenciação da prática, valorizar o farmacêutico enquanto profissional clínico”.

Foi ainda nesse quadro que anunciou, em primeira mão, o lançamento do PRO-FC, um programa de apoio à Especialidade em Farmácia Comunitária, desenvolvido em colaboração com a Secção Regional do Sul e Regiões Autónomas da OF, que visa apoiar os farmacêuticos nas diferentes etapas de acesso ao título, “especialmente na preparação do exame escrito e do exame oral”.

Quando uma crise põe tudo à prova

Se houve tema capaz de unir, com especial nitidez, os três intervenientes da sessão de abertura, foi o da resposta em situações de catástrofe e emergência. Longe de ser um simples tópico do programa, surgiu como prova concreta da relevância da Farmácia Comunitária quando os sistemas são postos à prova.

Cidália Almeida da Silva deu especial ênfase a esse aspeto. Lembrando acontecimentos recentes no país, agradeceu às equipas farmacêuticas que, mesmo em contextos de falhas de energia, comunicações comprometidas, danos estruturais e limitações operacionais, mantiveram o apoio às populações e “estiveram presentes, assegurando que nenhum cidadão ficava sem acesso ao medicamento”. Para a presidente do CCEFC-OF, as farmácias são “estruturas críticas de resposta local e devem ser formalmente integradas nos planos locais e nacionais de contingência, pela sua capilaridade, pela sua resiliência, pela confiança da população e pela sua capacidade real de resposta”.

Em representação do Infarmed, Maria Fernanda Ralha retomou a mesma linha, sublinhando que a pandemia de covid-19, o apagão na Península Ibérica e as tempestades que afetaram a zona centro mostraram como “crises inesperadas podem surgir a qualquer momento”. E, em todos estes acontecimentos, reconheceu, “as farmácias e os farmacêuticos estiveram lá. Mesmo com condições adversas, algumas sem luz, sem comunicações, com acessos limitados, continuaram a servir as pessoas e as comunidades com dedicação, humanismo e profundo sentido de missão”.

Também Félix Carvalho insistiu neste ponto, observando que, em muitas situações, as farmácias foram “o único ponto de contacto disponível para os cidadãos”. Para o presidente da Secção Regional do Norte da OF, este papel não deve apenas ser reconhecido, deve ser preparado. Por isso, avançou que a OF está a promover o desenvolvimento de um plano de contingência para a intervenção farmacêutica que garanta a continuidade da atividade em cenários de crise. “É fundamental garantir que as farmácias estejam integradas nas redes de resposta de emergência com condições e preparação adequadas para atuar sempre que necessário”, sustentou.

O que ficou do debate

No encerramento, Cidália Almeida da Silva regressou aos grandes temas do dia para os reler à luz daquilo que o encontro permitiu consolidar. Da sessão dedicada à obesidade, distinguiu a ideia de que o farmacêutico comunitário “assume um papel ativo, clínico e contínuo no acompanhamento do doente”, num dos “maiores desafios de saúde pública” da atualidade. Da especialização, recuperou a noção de que este é o “caminho de valorização profissional e de diferenciação da nossa prática, hoje e no futuro”, reforçando o convite aos colegas para aprofundarem o tema, esclarecerem dúvidas no webinar pós-reunião, a realizar no próximo dia 16 de abril, e avançarem com a candidatura.

Da cibersegurança, reteve que “proteger dados de saúde é proteger, acima de tudo, a confiança das pessoas”. E da sessão sobre catástrofes e emergência retirou a confirmação de algo que, no seu entender, já hoje é uma realidade: “As farmácias são estruturas essenciais de proximidade, capazes de garantir continuidade de cuidados mesmo em contextos adversos”. Quanto à IA, preferiu uma leitura equilibrada, “não como uma ameaça, mas como uma oportunidade”, desde que integrada com responsabilidade e enquadramento ético, e sempre centrada na pessoa.

Não apenas proximidade, mas solução

Foi também no encerramento que Cidália Almeida da Silva sintetizou a visão que a CCEFC-OF quis imprimir ao encontro. O farmacêutico comunitário, afiançou, “não é apenas um interveniente no sistema de saúde”, mas “parte ativa da solução para os desafios que enfrentamos”. Num contexto de crescente pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS), de escassez de recursos humanos e de aumento da complexidade clínica, assegurou que este se afirma, “de forma inequívoca”, como “um profissional de cuidados de saúde, pela proximidade, pela confiança e pela sua capacidade de intervenção clínica qualificada”.

A responsável realçou ainda que o verdadeiro impacto de um evento como este não se mede apenas pela qualidade do programa, mas pelo que cada participante “leva para a sua prática diária”. “Cada tema hoje discutido deve traduzir-se em ação”, declarou, referindo-se à forma como os farmacêuticos acompanham os doentes, organizam os seus serviços e assumem o seu papel no sistema de saúde. “A evolução da nossa profissão não acontece nestas reuniões, acontece todos os dias, no atendimento, na consulta farmacêutica, na relação com cada pessoa que entra numa farmácia”, salientou.

De seguida, destacou a atribuição do Prémio Inovação em Farmácia Comunitária 2026 como “um momento particularmente simbólico deste dia”. A seu ver, as iniciativas vencedoras – ‘Projeto IntegraMed – Acompanhamento Farmacoterapêutico na Farmácia Santiago’ e ‘Farma Autismo 360’ – “demonstram, de forma clara, que a inovação já está a acontecer nas nossas farmácias, nas nossas equipas e na nossa prática diária”.

Um futuro que começa no presente

Na reta final do seu discurso, Cidália Almeida da Silva condensou o espírito da reunião: “O futuro da profissão constrói-se hoje”.

Na ‘cidade invicta’, ficou a imagem de uma profissão que quer reforçar a sua diferenciação sem perder aquilo que a define. E, nesse equilíbrio entre evolução e proximidade, a conclusão foi clara: a Farmácia Comunitária quer contar mais no sistema de saúde porque entende que, no terreno, já justifica esse lugar.

 

Leia a reportagem completa da Reunião Anual de Farmácia Comunitária 2026 na edição de maio (n.º 399) da revista Farmácia Distribuição.