Resistências aos antimicrobianos 0 464

O aumento da resistência aos antimicrobianos (RAM) é uma preocupação atual e será um problema crescente se não se encetar um firme combate às infeções e resistências a esses fármacos. Os antibióticos são usados para tratar ou prevenir infeções bacterianas e atuam matando as bactérias ou evitando a sua reprodução e disseminação. A resistência a antimicrobianos emerge quando bactérias responsáveis por uma determinada infeção passam a sobreviver à ação de antibióticos que anteriormente as matavam ou limitavam o seu crescimento.

Num estudo recente, Stemming the Superbug Tide: Just a Few Dollars More, a OCDE apresenta estimativas sobre o impacto que as resistências aos antimicrobianos terão até 2050, caso os países da OCDE não introduzam medidas de controlo de infeções e resistências aos antimicrobianos para além daquelas que estavam em vigor até 2015. As estimativas da OCDE apontam para que Portugal seja dos países mais afetados em termos relativos. Em particular, a taxa anual média de mortalidade por RAM situar-se-ia nas 11,8 mortes por 100.000 habitantes.

O crescimento das RAM tende a dever-se ao uso inadequado de antibióticos, como seja a sobreprescrição, a utilização de antibióticos para infeções causadas por vírus e a não-observância da posologia definida. Um denominador comum a todas situações é a falta de informação dos doentes. Em Portugal, num estudo realizado no concelho de Vizela( ), 22,3% dos inquiridos afirmaram não saber o que é um antibiótico, 13,1% afirmaram que os antibióticos eram usados para infeções causadas por vírus e apenas 7,9% demonstram saber que os antibióticos são direcionados para infeções bacterianas. Adicionalmente, 39,5% desconhecia o que era a resistência de bactérias aos antimicrobianos e 15,3% negaram a existência deste fenómeno.

O défice de informação que os doentes possuem acerca de noções básicas de antibióticos pode ter outro efeito que não deve ser descurado, que é o de exercer pressão nos médicos para que prescrevam antibióticos, mesmo quando não são necessários. Um estudo realizado no Reino Unido( ) concluiu que, para os doentes da amostra que receberam uma prescrição antibiótica, os médicos estavam convictos de que a utilização de antibióticos era efetivamente necessária em apenas 20% dos casos e que em 25% das situações o tratamento antibiótico não era de todo adequado. O fator não clínico que mais influenciou a prescrição de antibióticos nesse estudo foi a expetativa que os doentes tinham de receber antibioterapia. Ou seja, os médicos podem sentir-se pressionados a ir ao encontro das expetativas dos doentes, a fim de manterem uma boa relação médico-doente. No entanto, existe evidência de que é possível manter uma boa relação médico-doente mesmo prescrevendo menos antibióticos, desde que os médicos invistam mais tempo nas consultas a explicar aos doentes o motivo pelo qual não precisam de tomar antibióticos, quando for o caso.

Assim, medidas que fomentem a disseminação de informação sobre antibióticos podem ser eficazes na redução de utilização inadequada destes fármacos. A título de exemplo, em Portugal, a campanha PORCAUSA (Campanha portuguesa para a utilização segura de antibióticos) promove a utilização adequada de antimicrobianos na comunidade. De salientar também o e-Bug, um projeto europeu que visa aumentar os níveis de literacia acerca do uso de antimicrobianos junto de alunos e professores do ensino básico, através de conteúdos didáticos e de um website dedicado ao tema. O recurso aos materiais do e-Bug em duas escolas públicas de Vila Nova de Famalicão melhorou significativamente o conhecimento dos alunos acerca de infeções bacterianas e do correto uso de antibióticos( ). Nas farmácias comunitárias, aquando da venda de antibióticos, uma mensagem de alerta para a necessidade de seguir a posologia indicada poderá também contribuir para mitigar o problema de saúde pública que é a resistência aos antimicrobianos.

Carolina Santos

(A coluna Notas da Nova é uma contribuição para a reflexão na área da saúde, pelos membros do centro de conhecimento Nova SBE Health Economics & Management. São artigos de opinião da inteira responsabilidade dos autores.)

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1. Ribeiro, M., Pinto, I. e Pedrosa, C. (2009). Comportamento da população do concelho de Vizela no consumo de antibióticos. Revista portuguesa de saúde pública. 27(2). 57-70.
2. Macfarlane, J., Holmes, W., Macfarlane, R. e Britten, N. (1997). Influence of patients’ expectations on antibiotic management of acute lower respiratory tract illness in general practice: questionnaire study. British Medical Journal. 315(7117). 1211-1214.
3. Lundkvist, J., Åkerlind, I., Borgquist, L. e Mölstad, S. (2002). The more time spent on listening, the less time spent on prescribing antibiotics in general practice. Family Practice. 19(6), 638-640.
4. Azevedo, M., M., Pinheiro, C., Yaphe, J. e Baltazar, F. (2013). Assessing the impact of a school intervention to promote students’ knowledge and practices on correct antibiotic use. International journal of environmental research and public health. 10(7). 2920-2931.

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