Recomendações dos jovens farmacêuticos para o futuro da profissão 93

A profissão farmacêutica está a redefinir-se perante os olhos de uma nova geração.

É inegável que a profissão farmacêutica atravessa um momento particularmente relevante da sua evolução, impulsionada pelo seu dinamismo e perfil distintivo no sistema de saúde.

Atualmente, estima-se que cerca de um terço dos farmacêuticos ativos em Portugal tenha 35 anos ou menos, um dado que traduz não apenas uma expressiva renovação geracional, mas também a responsabilidade acrescida de mobilizar e envolver quem se encontra no início do seu percurso profissional. Neste contexto, os jovens farmacêuticos afirmam-se como um motor essencial de inovação, reflexão e adaptação de um setor em profunda transformação.

De forma natural, esta evolução manifesta-se na organização e nos movimentos da profissão. O espetro de intervenção da profissão farmacêutica é vasto, refletindo-se numa multiplicidade de áreas de atuação. Contudo, esta diversidade tem vindo a expor desafios distintos entre áreas, exigindo respostas estratégicas diferenciadas. De forma transversal, os principais desafios do futuro da profissão podem ser enquadrados em três grandes pilares: atratividade, transformação e desenvolvimento.

É neste enquadramento que o Conselho de Jovens Farmacêuticos (CJF) da Ordem dos Farmacêuticos (OF) tem vindo a afirmar o seu papel. A sua missão foca-se na mobilização dos farmacêuticos em início de carreira, na identificação de motivações e padrões de transição entre áreas profissionais e na antecipação de dinâmicas futuras, contribuindo para um planeamento sustentado da profissão. Este trabalho assenta numa visão clara: compreender as expectativas das novas gerações, reforçar a autonomia do exercício farmacêutico, valorizar carreiras especializadas e garantir condições internas e externas — como o desenvolvimento profissional contínuo e a ligação à Academia — alinhadas com as necessidades atuais e futuras do setor farmacêutico.

No âmbito da sua intervenção, o CJF desenvolveu um projeto inovador inspirado no conceito de Citizens’ Assembly. A iniciativa envolveu jovens farmacêuticos provenientes de diversas áreas profissionais, e registou uma elevada taxa de participação. A metodologia combinou questionários, momentos de discussão estruturada e processos de votação, permitindo recolher evidência robusta e gerar recomendações com elevado nível de consenso, reforçando a legitimidade das propostas apresentadas.

A representatividade das áreas profissionais foi ampla, com particular destaque para a Farmácia Comunitária, a Farmácia Hospitalar e a Indústria Farmacêutica. As recomendações finais convergiram em torno de três eixos centrais: a participação dos farmacêuticos na saúde da comunidade, a transformação digital e o desenvolvimento profissional contínuo.

No eixo da participação dos farmacêuticos na saúde da comunidade, destaca-se a recomendação para a integração efetiva da farmácia clínica na rede de cuidados de saúde primários. Defende-se, para tal, a criação de canais de comunicação farmacêutico-farmacêutico, nomeadamente através do Registo de Saúde Eletrónico, bem como a definição de uma carteira estruturada de serviços farmacêuticos clínicos, enquadrada no ato farmacêutico e orientada para a avaliação de resultados em saúde.

Relativamente à transformação digital, recomenda-se a criação do registo do ato farmacêutico no processo do cidadão, assegurando um acesso padronizado, seguro e compatível com as competências profissionais. Paralelamente, sublinha-se a importância de integrar conhecimentos sobre a implementação da inteligência artificial na formação pré-graduada do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas, preparando a profissão para os desafios tecnológicos emergentes.

No domínio do desenvolvimento profissional contínuo, propõe-se a adaptação do modelo atual às diferentes áreas de exercício profissional, superando uma lógica uniforme e promovendo um modelo mais flexível e orientado para a evolução da prática farmacêutica. Defende-se ainda um papel mais ativo da Ordem na orientação de percursos formativos alinhados com as tendências emergentes e com as necessidades futuras do sistema de saúde.

Com base no trabalho já desenvolvido, o CJF encontra-se atualmente focado na consolidação deste modelo de participação e na operacionalização das recomendações identificadas. As prioridades passam, entre outras, pelo reforço da interconexão entre áreas farmacêuticas, pela melhoria da recolha e análise de dados profissionais, pelo aprofundamento das transições de carreira entre diferentes áreas, assim como pelo desenvolvimento de modelos de especialização e certificação de competências.

Mais do que um exercício prospetivo, as recomendações dos jovens farmacêuticos traduzem uma visão concreta, informada e construída de forma colaborativa. Uma visão que afirma a profissão farmacêutica como essencial, qualificada e preparada para responder aos desafios de um sistema de saúde em constante mudança. Ouvir os jovens farmacêuticos é, hoje, um passo decisivo para construir, com ambição e responsabilidade, a profissão de amanhã.

David Santana
Presidente do Conselho de Jovens Farmacêuticos da Ordem dos Farmacêuticos