Projeto pioneiro usa farmácias para identificar agentes patogénicos que possam causar epidemias 84

Um projeto inovador de vigilância epidemiológica, desenvolvido em colaboração entre a ULS do Oeste e a Associação Nacional das Farmácias (ANF), está a produzir informação estratégica para apoiar respostas mais eficazes em Saúde Pública na região Oeste, através de uma rede de farmácias comunitárias com funções de unidades sentinela. O sistema de vigilância epidemiológica torna-se multinível, integrado e mais robusto, transformando o plano de contingência num verdadeiro sistema de antecipação e colaboração na saúde, baseado em evidência e governaça territorial.

No âmbito deste projeto, as farmácias comunitárias da região já recolheram dados de mais de 1.800 utentes com sintomatologia de infeção respiratória, tendo apoiado a realização e o registo do resultado de mais de 300 testes rápidos de vírus respiratórios. Esta recolha sistemática de informação permite acompanhar de forma próxima e representativa a circulação de vírus respiratórios na comunidade, no âmbito do projeto inovador de vigilância epidemiológica.

A iniciativa está integrada no Plano de Resposta Sazonal em Saúde – módulo Inverno da ULS do Oeste e reforça significativamente a informação disponível para a identificação dos vírus em circulação e a avaliação da carga de doença na comunidade para a gestão dos serviços de saúde numa época tradicionalmente marcada por elevada procura por parte da população e consequente saturação da capacidade assistencial. Ao mesmo tempo, permite a abordagem atempada e qualificada de casos ligeiros de infeção respiratória na comunidade, contribuindo para a adequada utilização dos serviços de urgência e para a concentração dos recursos assistenciais nos casos de maior gravidade.

Além de fortalecer a vigilância no período de maior circulação de vírus respiratórios, tem também a potencialidade de detetar rapidamente novos padrões de infeção e, assim, permitir a identificação de agentes patogénicos novos que possam causar epidemias e pandemias numa fase precoce da sua circulação na comunidade.

Com uma metodologia inovadora que resulta da aplicação de diretrizes para a vigilância respiratória ao contexto da farmácia comunitária, o projeto apresenta potencial de colocar sob vigilância da população em poucas semanas, de forma rápida e representativa, mantendo a qualidade dos dados recolhidos. Esta abordagem permite colmatar as crescentes dificuldades e limitações dos sistemas de vigilância tradicionais, dando também seguimento às recomendações do European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC) e da Comissão Europeia para o reforço dos sistemas de vigilância epidemiológica após a pandemia de COVID-19.

Os resultados

Os resultados preliminares, suportados por uma metodologia de recolha de dados estruturada, revela elevado potencial de replicação deste modelo a nível nacional, fornecendo informação estratégica para apoiar decisões clínicas e de gestão dos serviços de saúde, tanto a nível local como nacional, permitindo respostas mais céleres, eficazes e fundamentadas em evidência. Assim, é possível otimizar as respostas no terreno, como a ativação faseada de planos de contingência, a reorganização de recursos humanos e assistenciais, o reforço de mensagens de comunicação em saúde dirigidas à população e a articulação com os cuidados de saúde primários e hospitalares antes de se verificar uma sobrecarga significativa do sistema.

Atualmente, mais de 70% das farmácias da região participam ativamente no projeto, abrangendo os concelhos do Bombarral, Cadaval, Caldas da Rainha, Lourinhã, Óbidos, Peniche, Sobral de Monte Agraço e Torres Vedras. Em comunicado, a presidente do Conselho de Administração da ULS Oeste, Elsa Baião, sublinha a importância desta “colaboração interinstitucional”, destacando as farmácias como “parceiros estratégicos pela proximidade às pessoas, pela confiança dos utentes e pelo conhecimento profundo do território”.

A nível local, com cerca de 60 mil pessoas a entrarem semanalmente nas farmácias comunitárias envolvidas, a rede assegura uma elevada cobertura populacional, permitindo acompanhar em proximidade a evolução da circulação dos vírus respiratórios na região. A presidente da Associação Nacional das Farmácias, Ema Paulino, no mesmo comunicado, destaca que, “desde o início do projeto, já foram recolhidos dados de mais de 1.800 utentes com sintomas agudos de infeção respiratória e realizados mais de 300 testes rápidos”, sublinhando ainda “o impacto da iniciativa no reforço das ações de promoção da etiqueta respiratória, da vacinação e no apoio à gestão da sintomatologia aguda não grave, com potencial para reduzir a transmissão de vírus e a afluência desnecessária às urgências hospitalares”.

Unidades sentinela

As farmácias comunitárias aderentes funcionam como unidades sentinela em articulação com o departamento de Saúde Pública e das Populações da ULS do Oeste. Para Nuno Rodrigues, coordenador do departamento, “os dados recolhidos são essenciais para aumentar e otimizar a capacidade do sistema de vigilância epidemiológica, contribuindo para respostas mais eficazes e ajustadas em cada momento”, complementando instrumentos de monitorização, como o Índice HiCorr, desenvolvido numa parceria previa entre este departamento e a ANF, e que apoia deteção precoce de picos epidémicos.

A recolha de dados é feita através de um formulário eletrónico disponível no software das farmácias, onde os farmacêuticos registam sintomas e testes realizados. Esta metodologia permite monitorizar a intensidade, o padrão temporal das infeções e a positividade para os diferentes vírus respiratórios na comunidade.