A circulação nas redes sociais de conteúdos que incentivam à ingestão excessiva de paracetamol constitui um sério risco para a saúde. A Ordem dos Farmacêuticos (OF) alerta para o aumento desta prática, principalmente entre adolescentes, e apela à necessidade de prevenir comportamentos de risco e de garantir a utilização segura e informada dos medicamentos.
Notícias recentes têm dado conta de um aumento de comportamentos de risco associados à circulação nas redes sociais, nomeadamente entre adolescentes, do ‘desafio do paracetamol’, no qual é incentivada a toma deliberada de doses elevadas deste fármaco. Este é um fenómeno que tem vindo a ser observado em diversos países europeus, nomeadamente Alemanha, Bélgica, Espanha, França e Suíça, e que representa um risco significativo para a saúde.
Neste contexto, em comunicado, a OF alerta que “a toxicidade do paracetamol pode manifestar-se antes do aparecimento de sintomas clínicos, pelo que se torna imperativa uma abordagem preventiva e informada junto desta população”.
O maior risco associado ao seu uso consiste “na ingestão de doses superiores às recomendadas. Em adultos, a dose diária de paracetamol não deve geralmente ultrapassar os 3 g (500 mg a 1 g a cada 4–6 horas), devendo ser reduzida em caso de doença hepática ou presença de fatores de risco. Nas crianças, a dose é calculada com base no peso corporal”, indica a OF, acrescentando que “a sobredosagem pode provocar lesão hepática grave e irreversível, podendo evoluir para insuficiência hepática aguda, necessidade de transplante hepático e, em casos extremos, morte. Em casos menos frequentes podem também ocorrer lesões renais, sobretudo associadas a utilização prolongada e/ou ingestão excessiva”.
A sobredosagem pode ocorrer por ingestão única de uma dose elevada ou por uso crónico acima das doses recomendadas. Os sintomas iniciais surgem geralmente nas primeiras 24 horas e incluem náuseas, vómitos, sudação, mal-estar e letargia.
A OF alerta ainda que “à medida que o dano hepático progride, pode surgir dor abdominal, evoluindo para complicações graves. Perante suspeita de sobredosagem, deve ser procurada assistência médica imediata, mesmo na ausência de sintomas, pois o tratamento é mais eficaz se iniciado precocemente”.
O papel do farmacêutico
A OF relembra que os farmacêuticos assumem um papel particularmente relevante na prevenção de intoxicações e na promoção do uso seguro do medicamento, sendo “profissionais de saúde de proximidade, acessíveis à população e dotados de competências técnico-científicas essenciais nesta matéria”.
No caso em particular do paracetamol, a intervenção farmacêutica é focada, ainda de acordo com a OF, no aconselhamento e na sensibilização da população, nomeadamente:
- Na sensibilização dos adolescentes e jovens para os riscos associados à ingestão deliberada de doses elevadas de paracetamol, incluindo desafios promovidos nas redes sociais, e para a potencial toxicidade hepática e renal;
- No confirmar da composição dos medicamentos utilizados, evitando a toma simultânea de mais do que um medicamento contendo paracetamol (situação frequente em medicamentos para a gripe, constipações e dor);
- No reforço do cumprimento da dose máxima diária recomendada, alertando que, na ausência de alívio sintomático, o utente não deve aumentar a dose por iniciativa própria, devendo procurar aconselhamento farmacêutico ou médico;
- No caso das crianças, deve ser assegurado o cumprimento rigoroso das doses recomendadas em função do peso e/ou idade, respeitar a duração do tratamento e garantir o armazenamento dos medicamentos fora do seu alcance.
A OF, através do Centro de Informação do Medicamento (CIM), tem desenvolvido iniciativas com o propósito de promover o uso seguro e responsável dos medicamentos, nomeadamente através da Área do Cidadão, uma ferramenta de literacia em saúde que promove o acesso a informação fidedigna e contribui para decisões mais seguras e esclarecidas por parte da população.




