Mau Tempo: CPSA alerta para impacto nos serviços de saúde 21

O Conselho Português para a Saúde e o Ambiente (CPSA) alerta, no quadro de calamidade climática que tem afetado de forma especialmente grave algumas regiões de Portugal, para duas consequências que têm recebido atenção insuficiente e para as quais a resposta tem sido claramente inadequada: o impacto nos serviços de saúde e os problemas de saúde pública decorrentes das inundações.

Em comunicado, Luís Campos, médico e presidente do CPSA, refere que “os efeitos nos serviços de saúde resultam de danos estruturais, falhas no abastecimento de água e eletricidade, dificuldades de acesso às unidades e insuficiência de profissionais, conduzindo à inoperância total ou parcial de múltiplos estabelecimentos de saúde”.

Já, ainda de acordo com o responsável, os problemas de saúde pública associados às inundações “fazem com que o número total de vítimas desta catástrofe seja seguramente muito superior ao das vítimas diretas reportadas pelos meios de comunicação social. Entre as principais causas encontram-se a dificuldade de acesso a cuidados de saúde, os acidentes ocorridos durante ações de limpeza e reparação das habitações, bem como o aumento de doenças infeciosas de origem hídrica, doenças cutâneas, contaminações químicas e perturbações da saúde mental”.

Entre os estabelecimentos de saúde afetados, Luís Campos aponta “hospitais públicos e privados, centros de saúde, clínicas, unidades de exames complementares de diagnóstico, unidades de cuidados continuados, farmácias, centros de hemodiálise e postos de colheita de análises clínicas”.

Segundo informações apuradas pelo CPSA:

  • O Hospital da Figueira da Foz foi obrigado a encerrar o bloco operatório;
  • No Hospital de Leiria registaram-se adiamentos de consultas e cirurgias, tendo sido necessária a aquisição urgente de geradores por inexistência de capacidade suficiente;
  • O Hospital CUF Leiria permaneceu encerrado durante vários dias;
  • Centros de saúde como os de Fátima e da Batalha ficaram sem água e sem eletricidade, obrigando à transferência de vacinas para hospitais;
  • O centro de saúde de Alvaiázere ficou destruído;
  • Em alguns casos, o fornecimento de gasóleo foi priorizado para supermercados em detrimento de centros de saúde;
  • Quatro postos de colheita dos Laboratórios Germano de Sousa tiveram de encerrar;
  • Várias farmácias tornaram-se inacessíveis ou inoperacionais.
  • Também os doentes em cuidados domiciliários foram significativamente afetados.

Recomendações do CPSA

Face a este cenário, o CPSA recomenda que, em situações de catástrofes climáticas, sejam adotadas de forma imediata as seguintes medidas:

  • Realização de uma inventariação rápida e sistemática de todos os estabelecimentos de saúde com inoperabilidade total ou parcial, ou com dificuldades de acesso.
  • Implementação de planos de contingência robustos, a nível local, regional e nacional, que permitam identificar e priorizar as necessidades de cuidados das populações e dos doentes, incluindo os que se encontram em cuidados domiciliários, garantindo respostas adequadas e atempadas, que integrem os sectores público e privado do sistema de saúde, bem como orientações claras à população sobre eventuais alterações na referenciação.
  • Implementação rápida de medidas de saneamento, gestão ambiental e controlo integrado de pragas, incluindo a desobstrução das redes de drenagem e a redução de fontes de alimento e abrigo para roedores e insetos, de modo a minimizar os riscos acrescidos para a saúde pública.
  • Comunicação eficaz à população dos cuidados a adotar, incluindo as orientações da Direção-Geral da Saúde, utilizando canais e linguagens adequados a cada grupo populacional.
  • Monitorização sistemática dos problemas de saúde decorrentes das inundações, incluindo o número de vítimas indiretas, assegurando uma resposta eficaz e contínua por parte dos serviços de saúde.

Por fim, o CPSA reafirma, no comunicado citado, que “a adaptação do sistema de saúde às alterações climáticas é uma prioridade de saúde pública e uma responsabilidade coletiva que não pode continuar a ser adiada”.