Inovação em Saúde 468

A inovação tem um papel importante a desempenhar no crescimento das empresas, sendo essencial para o futuro dos cuidados em saúde. É comum dizer-se que existem oportunidades por explorar, quando falamos de inovação em saúde.  Paradoxalmente, muitas descobertas nunca chegam a fazer parte do nosso dia a dia.  Algo falha na passagem da ideia para a inovação que depois está disponível para a sociedade.

Conhecer o que leva a ter sucesso na inovação em saúde ajudará a ter mais inovação e a melhorar as nossas vidas. Como nutrir um espírito empreendedor e como aplicar e fortalecer novas ideias em dispositivos valiosos do mundo real, com base no que é a atividade e o pensamento de quem faz hoje essa inovação, é o resultado final de um trabalho que reuniu várias entrevistas a protagonistas atuais que desenvolvem inovação em organizações, públicas e privadas e de áreas diversas, bem sucedidas, na inovação em saúde.

Das múltiplas experiências partilhadas, identificámos padrões que permitem compreender os sucessos conseguidos. Não havendo um caminho único, cada organização e cada tentativa de sucesso é uma situação diferente. Ainda assim, conhecer a experiência de outros permite a cada organização preparar melhor as suas iniciativas e a própria inovação, nomeadamente através do investimento em recursos humanos bem preparados, produção de conhecimento científico e geração de valor, seja ele económico ou social.

A realização deste trabalho, cujos resultados centrais são agora disponibilizados em livro, só foi possível graças a uma cooperação entre o Health Cluster Portugal (HCP), associação que engloba mais de uma centena de organizações ligadas à saúde e o Health Economics & Management Knowledge Center da Nova School of Business & Economics. Esta partilha entre o saber e a experiência de gestores de topo dos vários subclusters do HCP (instituições de investigação ou ensino e formação; prestadores de cuidados; empresas farmacêuticas; empresas de tecnologias médicas; empresas e organizações de consultoria; empresas de outras áreas (logística, distribuição, têxtil e mobiliário) e a academia, possibilitou, através da análise das entrevistas e posterior tratamento com uma metodologia cientificamente validada, a identificação de percursos muitas vezes surpreendentes, mas sempre encorajadores (Fonseca, F; Barros, P. e Rendas, A., 2022).

O objetivo do trabalho foi o de analisar o processo de inovação em saúde em várias componentes nomeadamente: na criação de ideias, na tomada de decisão, na implementação, na avaliação e no processo de aprendizagem, e modificação e geração de ideias.

Este trabalho contribui para uma melhor identificação do papel dos agentes no processo de inovação que já gerando valor em saúde, estão também empenhados no processo de criação e desenvolvimento de inovação. Como é natural não há uma fórmula única, universalmente válida, para se fazer inovação em saúde. Mas a discussão e clarificação de distintos padrões encontrados irá ajudar as instituições portuguesas que procuram ser agentes de inovação em saúde, a definir o melhor caminho.

Da análise das entrevistas destacam-se três grandes temas. Relativamente ao primeiro, o que é a inovação, conclui-se que esta está associada à capacidade e à coragem de pensar diferente relativamente aos problemas que se nos colocam no dia a dia.  Fica patente o conhecimento das pessoas entrevistadas relativamente à importância da inovação para as respetivas organizações. Já o conceito de inovação surge associado a um elemento que se vai melhorando e que muitas vezes se transforma de novo sendo que a convicção de grande parte dos entrevistados vai no sentido de que a inovação, economicamente viável, tem de envolver soluções que melhorem a prestação dos cuidados de saúde.

Do estudo é ainda generalizado o entendimento de haver inovações que são incrementais ou disruptivas, que são inovação de produto, serviço ou de processo.

Relativamente ao segundo tema, o importante papel da liderança e da cultura interna, as entrevistas mostraram que muitas das ideias inovadoras nascem devido à própria cultura instituída e intrínseca à organização. Para que tal ocorra é necessário que os líderes mantenham uma cultura organizacional criativa e disruptiva, incentivando e criando condições para que isso aconteça na prática quotidiana.

No terceiro tema discute-se como avançar e como tornar mais eficaz e eficiente a procura e o desenvolvimento de inovações em saúde em Portugal. A maioria dos entrevistados defendeu que não há nenhum projeto de inovação que, quando lançado, tenha o plano perfeito. Os planos a pôr em prática são bastante exigentes e nesse sentido tem de haver a capacidade de fazer ajustamentos ao longo do processo. Defende-se também que os mesmos só fazem sentido quando trazem valor para o sistema nacional de saúde.

Para concluir será ainda de realçar que existe uma opinião generalizada nas entrevistas realizadas de décadas de elevados “custos de contexto” em Portugal. Por outro lado, recorrer a recursos humanos especializados ou tentar replicar ideias que funcionam em outros mercados e fora da instituição, quando há necessidade, é uma prática comum. Resulta então que apesar de todos os investimentos e esforços das políticas públicas de apoio à inovação, subsistem barreiras que não diminuíram de forma significativa.

Sugere-se aqui a co-criação, por parte dos organismos públicos relevantes, de mecanismos de apoio que sejam experiências piloto. O exercício de co-criação significa uma participação e envolvimento direto dos destinatários potenciais de apoios públicos na discussão dos modelos desses apoios, de modo a eliminar as principais barreiras, sem abdicar dos fundamentais princípios de transparência e atribuição por mérito.

Referências

Breia da Fonseca, Filipa; Pita Barros, Pedro e Rendas, António Bensabat. Inovação em saúde por quem a pratica. Coimbra: Edições Almedina, Janeiro 2022.

Breia da Fonseca, Filipa; Pita Barros, Pedro e Rendas, António Bensabat. A inovação em saúde vista por dentro; Gazeta Médica, CUF, Grupo José de Mello Saúde, Maio 2022.

Filipa Breia da Fonseca: Researcher, Health Economics & Management Knowledge Center, Nova School of Business & Economics; Adjunt Assistant Professor, Nova School of Business & Economics, Nova SBE.

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