Genes da Mudança 2917

A variabilidade interindividual na resposta terapêutica é, hoje, um dos maiores desafios da medicina moderna e, simultaneamente, uma das suas mais promissoras áreas de desenvolvimento. O que para uns é cura, para outros pode ser risco. A mesma molécula que alivia sintomas numa pessoa com doença pode provocar reações adversas graves noutra. Esta constatação, por mais desconcertante que pareça, é uma das chaves para a evolução da prática clínica.

A farmacogenómica emerge precisamente neste contexto. Parte integrante da medicina personalizada, tem ganho uma projeção crescente graças à nossa capacidade atual de mapear variações no DNA e correlacioná-las com a forma como cada organismo metaboliza e responde aos fármacos. A realidade genética individual deixou de ser uma curiosidade laboratorial para se tornar uma ferramenta concreta na prevenção, diagnóstico e, sobretudo, no tratamento.

Durante muito tempo, a prática clínica assentou essencialmente na medicina baseada na evidência. Decisões terapêuticas construídas a partir de ensaios clínicos realizados em largas populações e analisadas estatisticamente à procura de uma “resposta média”. Porém, essa média, por definição, ignora os extremos. E nesses extremos estão pessoas. Pessoas que não respondem como seria esperado, ou que desenvolvem toxicidade onde se antecipava segurança. É, por isso, inevitável que se continue a mudança de paradigma.

A máxima “the right drug for the right patient at the right dose and time” já não é apenas um slogan inspirador. É uma meta concreta. Um princípio orientador tanto na prática clínica como no desenvolvimento de novos medicamentos. E, como tantas vezes acontece com a inovação, impõe exigências técnicas, éticas e logísticas. A heterogeneidade de resposta representa um desafio transversal a todas as fases do desenvolvimento de medicamentos, incluindo as mais sensíveis nomeadamente, após a conclusão dos ensaios clínicos e a introdução do fármaco no mercado. Quando surgem imitações terapêuticas nesta etapa, os seus efeitos podem repercutir-se amplamente, com impacto para os doentes, para os sistemas de saúde e para a confiança no processo científico.

Neste cenário em constante atualização, os Estudantes têm de se posicionar como parte ativa da solução. A formação em Ciências Farmacêuticas e áreas da saúde deve acompanhar o ritmo da inovação, não apenas integrando conteúdos de farmacogenómica nos currículos, mas promovendo também pensamento crítico, análise de casos reais e contacto com a investigação translacional.

É exatamente por isso que eventos como o XXIV Fórum Educacional com o tema “Do DNA ao Medicamento: O Impacto da Farmacogenómica na Saúde Moderna”, organizado pela APEF, ganham uma relevância tão particular. Estes encontros permitem criar pontes entre a ciência fundamental, a clínica e a formação de base. São espaços de construção coletiva, onde se aprende com os especialistas, mas também se questiona, se debate e se projeta o futuro da profissão farmacêutica.

A farmacogenómica representa uma nova etapa na forma como tratamos, pensamos e estudamos a saúde. Para que esta mudança se concretize, é essencial que a formação acompanhe o avanço da ciência. Iniciativas como o Fórum Educacional mostram que os estudantes não estão apenas a assistir à mudança, estão a fazer parte dela.

Porque no fim, os Estudantes também são os genes da mudança!

Afonso Garcia
Presidente da Associação Portuguesa de Estudantes de Farmácia (APEF)