Fundação Champalimaud integra consórcio que vai estudar como o cérebro interage com o cancro 31

Uma equipa internacional de investigadores, que inclui a Fundação Champalimaud, vai dispor de um financiamento de até 21,4 milhões de euros para estudar, nos próximos cinco anos, a forma como o cérebro interage com o cancro.

O consórcio, que inclui o investigador principal da Fundação Champalimaud (FC) Henrique Veiga-Fernandes, foi selecionado para receber um financiamento da iniciativa global Cancer Grand Challenges de até 25 milhões de dólares (21,4 milhões de euros) com o objetivo de investigar a forma como o cérebro e o sistema nervoso interagem com os tumores.

Trata-se de um campo emergente da investigação que permanece uma das “dimensões menos exploradas da biologia do cancro e que poderá abrir caminhos inteiramente novos para o tratamento da doença”, salientou a equipa de investigação, citada em comunicado.

Segundo Veiga-Fernandes, no centro do projeto InteroCANCEption, um dos cinco vencedores hoje anunciados, vão estar duas questões interligadas a que os investigadores vão tentar dar resposta ao longo dos próximos cinco anos.

“Em primeiro lugar, será que o cérebro consegue detetar que um tumor está a crescer no corpo? E, em segundo lugar, se sim, como responde – envia sinais que ajudam a suprimir o cancro ou, em alguns casos, acaba por o apoiar inadvertidamente?”, explicou o investigador da fundação portuguesa.

Liderada pelo Francis Crick Institute, do Reino Unido, a equipa reúne clínicos, cientistas e representantes de doentes, envolvendo investigadores de oito instituições de quatro países – Portugal, Suíça, Reino Unido e Estados Unidos.

O financiamento é atribuído conjuntamente pela Cancer Research UK e pelo National Cancer Institute dos Estados Unidos, duas das maiores entidades financiadoras de investigação em cancro a nível mundial, no âmbito da iniciativa global Cancer Grand Challenges.

Segundo o comunicado, enviado à Lusa, tradicionalmente, o cancro tem sido estudado como uma doença das células e dos tecidos, mas, cada vez mais, os investigadores reconhecem que os tumores não existem de forma isolada.

“Os nervos infiltram muitos tipos de cancro, influenciando o crescimento tumoral, o sistema imunitário e sintomas como a dor ou a perda de peso”, referem os investigadores, adiantando que esta perspetiva está a transformar a forma como atualmente se começa a estudar o cancro – de uma doença confinada aos tecidos para uma doença integrada na complexa fisiologia de todo o organismo.

Há evidência (prova) clara de que os nervos tanto podem promover como suprimir o crescimento tumoral”, acrescentou Veiga-Fernandes, salientando que o projeto pretende colmatar a lacuna sobre a compreensão das regras e dos princípios que regem estas interações.

Um dos objetivos mais ambiciosos do projeto passa por explorar se a manipulação da atividade neural pode influenciar a evolução do cancro.

“Se conseguirmos compreender os circuitos que ligam o cérebro aos tumores, poderemos conceber tipos de terapias completamente novos”, afirmou María Martínez Lopez, investigadora de pós-doutoramento no laboratório de Veiga-Fernandes.

Para o investigador da FC, um dos aspetos mais marcantes desta iniciativa é a participação de representantes de doentes no processo de seleção.

“Chegam mesmo a participar nas entrevistas das equipas finalistas. É uma forma poderosa de tornar o processo científico mais aberto e de integrar as perspetivas e experiências das pessoas que poderão vir a beneficiar do que descobrirmos”, realçou Henrique Veiga-Fernandes.