Farmácia de Vieira de Leiria abriu portas mesmo “às escuras” 201

Apesar da lona azul que tapa parte do armazém e dos danos no telhado, a Farmácia de Vieira de Leiria abriu sempre, nem que fosse uma ou duas horas por dia, mesmo às escuras.

“Nunca fechámos completamente, estivemos uma hora ou duas abertos, mais para as urgências nos primeiros dias, e só desde segunda-feira, e assim que foi possível, é que abrimos a trabalhar com gerador”, disse à agência Lusa a diretora técnica da Farmácia de Vieira de Leiria, Antónia Guerra.

Nos primeiros dias após a passagem da depressão Kristin, as quatro farmacêuticas não hesitaram em “fazer tudo à mão, sem registos e às escuras, porque não havia luz”, contam.

Na farmácia, onde os pagamentos só podiam ser feitos em dinheiro, a opção foi “facilitar a todos os nossos clientes que precisaram de medicamentos”, número que, na última semana, não tem parado de aumentar.

“As pessoas estão mais perturbadas, muito inquietas”, conta Antónia, explicando que, “mesmo as que já tomavam a medicação [para dormir ou ansiolíticos], tiveram que ir novamente ao médico para lhes prescrever nova medicação, porque não estava a resultar”.

De acordo com as funcionárias, a farmácia de Vieira de Leiria, no distrito de Leiria, atendeu também, na última semana, “muitas urgências hospitalares, de pessoas que se magoaram, caíram dos telhados ou tiveram algum tipo de acidente, bateram em alguma coisa ou caíram das escadas”.

“Nota-se que as pessoas não estão bem”, acrescenta uma colega, explicando que “muitos têm vindo pedir para medir a tensão, porque sentem que também estão aceleradas e nervosas”.

A tempestade, que levantou telhados na maioria das casas e equipamentos, e que deixou a população sem eletricidade, água e luz, durante quase uma semana, “basicamente está a afetar tudo: afeta a parte da cabeça, afeta a parte física, emocional, está tudo a mexer umas coisas com as outras”, afirmou a diretora técnica.

Tanto mais que “depois desta tempestade ouvem falar que vão surgir outras, que vai continuar a chuva e o vento, e as pessoas ficam muito preocupadas”, embora também aqui o movimento solidário seja visível.

“Têm vindo muitas pessoas voluntárias buscar medicamentos para idosos com mais dificuldades, e muitos, além de fazerem esse serviço solidário pelos outros, também pagam os medicamentos”, disse a farmacêutica.

“Há muita entreajuda entre as pessoas”, dentro e fora da farmácia onde a população de Vieira de Leiria “pode continuar a contar com todo o apoio”, garantem as quatro farmacêuticas.

Portugal continental está a ser afetado pela depressão Leonardo, prevendo-se até sábado chuva persistente e por vezes forte, queda de neve, vento e agitação marítima forte, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera.

Há uma semana o país foi atingido pela depressão Kristin, que atingiu sobretudo a região Centro e levou à morte de dez pessoas, à destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações.

Há ainda a registar centenas de feridos e desalojados.

Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos.

O Governo decretou situação de calamidade até domingo para 68 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.