Telmo Neves deixou Portugal em 2013 com um objetivo claro: concretizar o sonho antigo de uma experiência internacional que as circunstâncias nunca lhe tinham permitido durante os estudos.
De Viseu para Paris, o atual Senior Vice President Market Access, Quality, Regulatory & Medical Affairs – Region Europe da Fresenius Kabi construiu um percurso marcado pela diversidade cultural e pela capacidade de se reinventar longe de casa. Treze anos depois, fala de desafios, conquistas e da vida em transição permanente entre países, identidades e ambições profissionais.
Nome: Telmo Neves
Cargo: Senior Vice President Market Access, Quality, Regulatory & Medical Affairs – Region Europe na Fresenius Kabi
Localização: Paris, França
– Há quanto tempo está fora e de onde partiu?
– Residia em Viseu, trabalhando em Tondela, e parti em março de 2013
– O que o levou a sair de Portugal?
– Sempre tive o objetivo de ter uma experiência internacional — algo que não consegui concretizar durante os estudos, por limitações financeiras que me impediram de participar em programas académicos fora do país. Essa ambição manteve-se quando iniciei a carreira. Em Portugal tive a oportunidade de trabalhar numa posição com responsabilidades globais, numa equipa distribuída entre Portugal e a Alemanha. Quando surgiu uma vaga na sede alemã, candidatei-me naturalmente. No entanto, poucas semanas antes da formalização recebi um convite inesperado para integrar, em Paris, uma equipa regional responsável pela Europa, América Latina e África. Aceitei pela curiosidade, pelo desafio e pela oportunidade de sair da minha zona de conforto. A mudança acabou por transformar profundamente a minha trajetória profissional e pessoal.
– Que expectativas tinha antes de ir? Quais se confirmaram e quais saíram ao lado?
– Profissionalmente, tinha expectativas muito positivas: integrar uma estrutura altamente internacional numa das principais capitais europeias e trabalhar com equipas distribuídas por vários continentes era uma perspetiva extremamente estimulante. Encontrei um ambiente genuinamente cosmopolita, onde colegas de todo o mundo contribuíam para uma riqueza cultural e profissional única. Isso permitiu-me conhecer realidades e mercados muito distintos, uma experiência inestimável para o meu crescimento.
Do ponto de vista pessoal, a experiência foi igualmente enriquecedora. Sair da zona de conforto exige resiliência e capacidade de adaptação — o famoso ‘desenrascanço’ português –, mas subestimei o impacto emocional da distância da família e dos amigos. Criar uma nova vida fora do que é familiar obriga-nos a redefinir o sentido de pertença, algo que aprendi ao longo do tempo.
– Como foi o processo de adaptação a nível pessoal e profissional?
– A integração profissional em Paris foi facilitada pelo facto de a equipa ser maioritariamente composta por expatriados, o que tornava o ambiente mais inclusivo e acolhedor. Já o processo pessoal — sobretudo o lado burocrático — foi mais desafiante, devido à barreira linguística. Apesar disso, Paris é uma cidade multicultural, onde é possível viver mesmo sem dominar a língua inicialmente, o que ajudou na transição.
– Que barreiras encontrou?
– Nenhuma significativa. Trabalhando na Indústria Farmacêutica e tendo mudado dentro da mesma empresa, não precisei de processos formais de equivalência de habilitações. Em ambiente internacional, sobretudo quando não é necessária uma certificação de habilitações ou competências específica, o que prevalece é a experiência e o percurso profissional, mais do que os diplomas.
– Em que difere a prática profissional da portuguesa?
– Na minha área, não existem diferenças substanciais entre países, especialmente europeus. O maior contraste está no tipo de oportunidades disponíveis. Sempre tive apetência por funções internacionais, e essas são menos frequentes em Portugal, onde predominam posições de filial. Outro ponto relevante é a mobilidade: o meu trabalho exige viagens frequentes e, sendo Portugal ainda pouco conectado a nível internacional — quer em número de voos diretos, quer na ausência de ligações ferroviárias — a logística torna-se mais exigente.
– Houve momentos em que quase desistiu?
– Não. Sentia claramente que não teria em Portugal as mesmas oportunidades de evolução profissional. A distância da família e amigos, contudo, não é fácil de gerir. Lembro-me bem de um episódio poucas semanas após chegar a Paris: os meus amigos ligaram-me da Queima das Fitas em Coimbra, num momento em que me estava a sentir particularmente só e senti, pela primeira vez, o peso emocional da distância. Esses momentos repetem-se em datas e eventos especiais. Com o tempo, porém, construí novas relações e hoje tenho em França uma família e amizades tão importantes como as que deixei em Portugal.
– Que conselhos práticos daria para acelerar a integração profissional de um colega?
– A frase que me acompanhou nos primeiros anos foi: ‘It’s OK not to be OK’ (está tudo bem em não estar bem). É natural sentir-se deslocado; faz parte do processo. Mas há uma vantagem única: há portugueses em todo o lado. Participar em grupos de expatriados nas redes sociais foi fundamental — foi assim que conheci pessoas que ainda hoje fazem parte do meu círculo. Para colegas farmacêuticos, temos o objectivo de que o Conselho da Diáspora Farmacêutica da Ordem dos Farmacêuticos venha a ser uma ferramenta valiosa de apoio a quem decide dar este passo.
– Que competências novas ganhou que seriam difíceis de adquirir em Portugal?
– Além das competências linguísticas, o mais transformador foi o contacto permanente com outras culturas e mentalidades. Essa exposição ajuda-nos a ganhar perspetiva, relativizar problemas e compreender a complexidade do mundo (que tanta gente insiste em simplificar) de uma forma mais profunda. Trabalhar com pessoas de origens tão diversas desafia-nos e enriquece-nos continuamente.
– Em termos de salário e benefícios, como compara com Portugal considerando custo de vida?
– A comparação é complexa. É verdade que países como França oferecem melhores condições financeiras e perspetivas de carreira, mas o custo de vida — sobretudo habitação — é muito superior. Quando cheguei, tinha a expectativa romântica de viver num apartamento amplo com vista para a Torre Eiffel; rapidamente percebi a realidade dos preços e das áreas em Paris. O equilíbrio entre qualidade de vida e oportunidades profissionais é, no fim, profundamente pessoal e depende das prioridades de cada um.
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– Horários, equilíbrio vida-trabalho e burnout: melhor ou pior?
– É impossível generalizar: depende da profissão, da fase de carreira e da ambição de cada pessoa. Paris tem vantagens claras, como a oferta cultural e um sistema de transportes muito eficiente, algo que contribui para uma melhor qualidade de vida quotidiana. Comparando com Lisboa, por exemplo, o transporte público continua a ser um ponto crítico que afeta o bem-estar no dia a dia, que em Paris é bastante mais eficiente.
– Quais foram os maiores desafios fora do trabalho?
– A solidão é provavelmente o maior desafio, sobretudo no início. Mudar para um país novo sem dominar a língua torna a burocracia mais complexa — França pode ser tão ou mais burocrática que Portugal. A habitação é outro ponto sensível, numa das cidades mais caras do mundo. Com o tempo e com o apoio das novas tecnologias (incluindo IA), muitos destes processos tornaram-se mais fáceis.
– Qual o impacto na família: o que foi mais exigente?
– Vou usar um cliché mas que é verdadeiro: O maior desafio é a sensação de não pertencer totalmente nem a um lado nem ao outro. Criamos raízes e afetos em ambos os países, e é impossível acompanhar tudo a 100%. Felizmente, hoje existem condições que facilitam essa ponte — desde voos mais acessíveis a ferramentas digitais — e o apoio incondicional da minha família tem sido fundamental, apesar do elevado preço a pagar.
– Em termos do lado pessoal/social, quais foram os maiores desafios e como os ultrapassou?
– Tive a felicidade de integrar uma equipa completamente internacional, onde os franceses eram até minoria. Isso ajudou-me imenso a adaptar‑me rapidamente: quando juntamos vários expatriados, há uma tendência natural para criar um espírito de entreajuda e comunidade. Tive também a sorte de partilhar casa inicialmente com um colega português farmacêutico, o que facilitou muito a transição. Ainda assim, os maiores desafios pessoais foram a solidão inicial e o processo de criar uma nova rede social a partir do zero. Com o tempo, através do convívio com expatriados e outros portugueses, atividades locais e ligações profissionais, fui construindo relações sólidas que se tornaram um novo ponto de equilíbrio.
– Vê-se a ficar, regressar ou viver de forma transnacional?
– Gosto da ideia de regressar um dia, mas sou realista quanto à minha situação pessoal e profissional. Construí família aqui e tenho uma carreira internacional que implica mobilidade. Por isso, vejo-me a viver de forma transnacional, conciliando estabilidade familiar com a minha atividade global.
– Que condições o fariam regressar?
– O regresso teria de ser benéfico não só para mim, mas também para a minha família. Se pudesse manter em Portugal uma trajetória profissional comparável, com oportunidades semelhantes ou melhores para todos, seria uma possibilidade forte. No entanto, aprendi que é difícil prever o futuro e que ainda tenho muito para explorar lá fora. Apesar disso, como qualquer português, Portugal faz-me falta — e espero que um dia as condições possam alinhar-se.




