Farmacêuticos no Estrangeiro: França, Alemanha e (agora) Reino Unido, a história de Mariana Fróis 129

A viver no estrangeiro desde 2012, a farmacêutica Mariana Fróis construiu uma carreira internacional que a levou de Côja às grandes capitais europeias.

Hoje, trabalhando na área de de Marketing/Commercial, prepara o lançamento mundial de medicamentos oncológicos enquanto navega entre realidades culturais, desafios linguísticos e modelos de trabalho profundamente distintos. França, Alemanha e Reino Unido marcaram a sua evolução profissional e pessoal, moldando uma visão aberta, pragmática e multicultural.

Nome: Mariana Fróis
Função:
Trabalha na Indústria Farmacêutica, no departamento de Marketing/Commercial, desempenhando uma função global dedicada à preparação do lançamento de um medicamento na área da Oncologia.
Localização:
Londres, Reino Unido

– Há quanto tempo está fora e de onde partiu?
– Estou no estrangeiro desde 2012, tendo passado por França e Alemanha, e resido atualmente em Londres há oito anos. Sou natural de Côja, uma pequena vila no centro do país, no concelho de Arganil, e concluí os meus estudos em Ciências Farmacêuticas na Universidade de Coimbra.

– O que a levou a sair de Portugal? Foi decisão planeada ou oportunidade inesperada? 
– A minha vontade de ter uma experiência no estrangeiro existiu desde cedo, pelo menos desde o início da faculdade. Foi definitivamente estimulada quando me juntei à equipa da EPSA (European Pharmaceutical Students Association), altura em que fiquei fascinada com a possibilidade de uma vida lá fora. A principal atração prendia‑se com a aprendizagem sobre novas culturas, o contacto com diferentes estilos de vida e formas de pensar, a oportunidade de aprender novas línguas, entre outros aspetos. Sempre me fascinou a ideia de viver numa grande capital europeia e ter a sensação de estar no local onde o “mundo acontece”.

No entanto, por falta de oportunidades profissionais — e também por motivos financeiros — acabei por trabalhar dois anos em Portugal após a conclusão do MCIF. Na altura (2010), apesar dos inúmeros currículos enviados e entrevistas realizadas, consegui apenas dois estágios no estrangeiro, ambos com um vencimento muito baixo, o que tornava inviável a sua concretização sem apoio financeiro adicional. Assim, optei por ganhar experiência profissional em Portugal durante dois anos e tentar, mais tarde, concretizar uma experiência no estrangeiro.

– Que expectativas tinha antes de ir?
– As expectativas eram altas — tanto em termos de estar em constante aprendizagem como de apreciar o contraste cultural entre as minhas origens e a realidade presente. Diria que, em grande parte, essas expectativas foram confirmadas. Conheci pessoas de todo o mundo, experimentei comidas diferentes e tive contacto com diferentes formas de pensar e viver a vida.

No meu caso, os primeiros meses foram excelentes, pois estava constantemente entusiasmada com o “novo mundo”. Naturalmente, a certa altura surge o desejo pelo conforto daquilo que nos é familiar: as comidas de que gostamos, a simplicidade de falar português e temas que nos são próximos. É nessa fase que estar fora se torna mais desafiante.

Também considero importante reforçar que, embora a maioria das pessoas seja recetiva a “estrangeiros”, existe sempre um ou outro encontro desconfortável: seja por não falar a língua, por diferenças culturais ou por não corresponder totalmente aos costumes locais. Esta componente foi mais forte na Franca e Alemanha; em Londres, por ser uma metrópole pluricultural, não experienciei este tipo de situações.

– Que barreiras encontrou?
– Em cada país onde vivi encontrei barreiras diferentes. Em França e na Alemanha, a principal barreira foi, sem dúvida, a língua, pois, embora muitas pessoas falem inglês, estive com frequência em reuniões em que todos comunicavam em francês ou alemão, o que me impedia de acompanhar a discussão. Este foi, sem dúvida, um dos obstáculos mais frustrantes.

Do ponto de vista burocrático, não tive de fazer grandes adaptações — ou seja, não foi necessário registar-me na ‘Ordem dos Farmacêuticos’ do país de destino. Naturalmente, outros processos burocráticos, como abrir conta no banco, arrendar casa, declarar impostos ou pagar despesas correntes, são desafiantes. No entanto, nos últimos anos, a internet e a inteligência artificial têm vindo a ajudar imenso nesses processos.

– Em que difere a prática profissional da portuguesa?
– Será difícil generalizar e comparar uma prática profissional no Reino Unido, em França ou na Alemanha com a realidade portuguesa. As culturas de trabalho são bastante diferentes, apesar de eu ter sempre trabalhado em ambientes internacionais. Posso fazer um apanhado em linhas gerais da cultura em cada país, mas é importante reforçar que qualquer tentativa de generalização contém inevitavelmente imprecisões, e que a minha experiência não pode ser extrapolada para todo um mercado de trabalho.

A minha experiência profissional em França, Alemanha e no Reino Unido revelou culturas de trabalho bastante distintas. Em França, a hierarquia é mais marcada e a dinâmica aproxima‑se da realidade portuguesa, com grande atenção aos horários e reuniões menos estruturadas, onde as emoções fazem parte da discussão. A Alemanha, por contraste, caracteriza‑se por um forte rigor e cumprimento das regras: os horários são respeitados de forma estrita e desvios as normas sao frequentmente mal vistos. Já o Reino Unido destaca‑se pelo pragmatismo, com menos hierarquia, valorização da accountability e abertura a opiniões divergentes, embora a comunicação seja frequentemente indireta, exigindo sensibilidade para interpretar subentendidos e navegar as dinâmicas organizacionais.

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– Houve momentos em que quase desistiu?
– Sim, sobretudo durante o meu período na Alemanha. Do ponto de vista profissional, a minha passagem pela Alemanha foi excelente: tive grandes oportunidades de progressão na carreira e exposição a várias experiências que foram muito formativas a nível profissional. No entanto, tive dificuldade em adaptar-me a uma cultura fortemente marcada por regras e bastante diferente da minha personalidade. Além disso, não falar alemão dificultava imenso o dia a dia e não era “bem visto” do ponto de vista social.

Foi devido a este motivos que decidi deixar a Alemanha e mudar-me para Londres em 2018.

– Que conselhos práticos daria para acelerar a integração profissional de um colega?
– Ser curioso e ter a mente aberta. Encarar formas diferentes de trabalhar e de pensar com uma atitude positiva e de curiosidade, em vez de recusa. Demonstrar apreciação pela diferença e vontade de aprender. Acredito que este tipo de atitude é fundamental para a adaptação a qualquer cultura.

Claro que existem também alguns livros que podem ajudar na adaptação a uma cultura diferente — posso recomendar The Culture Map, que gostei imenso e que aborda exatamente estas diferenças culturais.

– Que competências novas ganhou que seriam difíceis de adquirir em Portugal?
– Do ponto de vista pessoal, tenho de sublinhar a facilidade de adaptação a novas realidades e uma maior compreensão e aceitação de diferentes formas de viver e de pensar. Desenvolvi também uma maior facilidade em assumir e admitir erros, bem como em assumir responsabilidades quando algo não corre bem. Naturalmente, o domínio de línguas estrangeiras (inglês e francês) também melhorou durante a minha experiência no estrangeiro.

Tenho também de reforçar a importância da educação financeira, que considero ser, de forma geral, mais desenvolvida fora de Portugal, embora pense que esta realidade esteja a mudar.

Do ponto de vista profissional, destaco a importância de ser confiante e assertivo, mas ao mesmo tempo humilde e genuinamente interessado nas opiniões e pontos de vista dos outros. Perdi o ‘medo’ de estar errada. Aprendi a priorizar a qualidade em detrimento da quantidade e a gerir melhor o tempo.

Obviamente, estas competências também podem ser adquiridas em Portugal, mas, pela minha experiência profissional, considero que é comum existir um certo receio em assumir erros e em ouvir abertamente todas as opiniões, independentemente de virem do CEO ou de um estagiário.

– Em termos de salário e benefícios, como compara com Portugal considerando custo de vida?
– No início de carreira, a situação financeira pode ser desafiante — o custo de vida é mais elevado, os salários de entrada são mais baixos e, naturalmente, acrescentar despesas para regressar a Portugal nos períodos festivos não ajuda. No entanto, as oportunidades de progressão na carreira são muito maiores e a compensação financeira acaba por ser ajustada. Após alguns anos a viver no estrangeiro, é possível juntar um pé de meia que seria difícil de alcançar em Portugal, embora isso dependa sempre do estilo de vida e das preferências pessoais.

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– Horários, equilíbrio vida-trabalho e burnout: melhor ou pior?
– Na minha opinião, existe um equilíbrio bastante maior entre a vida pessoal e profissional fora de Portugal. Aliás, considero este um dos principais pontos fracos de trabalhar em Portugal. Do meu ponto de vista, esta realidade deve-se mais à falta de pragmatismo e de estrutura do que propriamente à quantidade de trabalho.

– Quais foram os maiores desafios fora do trabalho?
– Quando nos mudamos para o estrangeiro por um período prolongado, especialmente quando essa experiência inclui diferentes países e vivências, o conceito de “casa” torna-se facilmente mutável. Não me sinto completamente em casa nem em Portugal, nem em França, nem em Londres — todas essas experiências completam-me e fazem parte de quem sou, de formas diferentes. Lidar com esta nova realidade, de não pertencer totalmente a um lugar concreto, de ser uma mistura de culturas e de ter uma identidade multicultural, nem sempre é fácil, mas faz parte da vida de expatriado.

– Qual o impacto na família: o que foi mais exigente?
– Tento visitar família e amigos pelo menos duas a três vezes por ano e, quando vou, tenho sempre vários dias 100% dedicados às pessoas com quem não estou regularmente ao longo do ano. Na minha opinião, por vezes o tempo que passamos juntos é mais significativo do que quando morava perto e ia a casa com mais frequência, mas estava menos “presente”.

– Vê-se a ficar, regressar ou viver de forma transnacional?
– Uma experiência internacional de mais de uma década acaba por moldar quem somos e a nossa forma de ver o mundo. Embora me considere muito “portuguesa”, sei que, se regressasse neste momento a Portugal, me sentiria incompleta.

Conheci o meu marido em Londres e ele é americano. Ambos gostamos de morar em Londres e, embora adoremos Portugal e o visitemos com frequência, temos também consciência de que ainda não estamos prontos para regressar.

Acredito que, daqui a alguns anos, quando estivermos menos focados nas ambições profissionais, estaremos na fase ideal para o fazer.

– Que condições a fariam regressar?
– Um dos pontos principais é a família e a possibilidade de estar mais próxima dos meus pais em caso de necessidade ou de proporcionar um maior contacto com a cultura e realidade portuguesa ao meu marido e futuros filhos. Não penso que apenas condições salariais me fariam motivada para regressar… pelo menos por agora!