Vice-presidente e responsável pela equipa de Excelência dos Assuntos Regulamentares na Ipsen, João Duarte vive hoje em Paris, mas o seu percurso internacional começou muito antes de chegar à capital francesa.
Natural de Leiria e formado em Ciências Farmacêuticas pela Universidade de Lisboa, deixou Portugal em 2011 para realizar um estágio na Agência Europeia de Medicamentos, então sediada em Londres — uma oportunidade que marcou o início de uma carreira global construída entre o Reino Unido e França ao longo de mais de 14 anos.
A curiosidade em explorar novos contextos profissionais e culturais, aliada ao desejo de trabalhar em funções globais pouco acessíveis no mercado português, levou-o a abraçar uma vida além-fronteiras. Mas a experiência, embora extremamente enriquecedora, trouxe também desafios inevitáveis: a adaptação a novas línguas e culturas, o peso da distância e a burocracia.
Hoje, com uma carreira consolidada e uma família construída no estrangeiro, João Duarte fala sobre aprendizagens, barreiras ultrapassadas, o que significa realmente ‘mudar de país’ e de que forma esta vivência internacional transformou a sua forma de estar no mundo, enquanto farmacêutico e pessoa.
Nome: João Duarte
Cargo: Vice Presidente e Responsável pela equipa de Excelência dos Assuntos Regulamentares, na Ipsen
Localização: Paris, França
– Há quanto tempo está fora e de onde partiu?
– Desde Outubro 2011 (mais de 14 anos), originário de Leiria e trabalhando na altura em Lisboa, onde também estudei Ciências Farmacêuticas na Universidade de Lisboa. Emigrei inicialmente para Londres em 2011, mudando-me para Paris em 2012. Voltei a Londres durante 2017-2018 e voltei finalmente para Paris no fim de 2018, onde estou até hoje.
– O que o levou a sair de Portugal? Foi uma decisão planeada ou oportunidade inesperada?
– Foi um pouco dos dois. Sempre tive curiosidade em explorar outros países do ponto de vista profissional e encontrar oportunidades que eram mais difíceis de encontrar em Portugal. Sempre tentei durante os estudos e vida associativa estar exposto a outras culturas e áreas diferentes, e isso ajudou-me muito a conseguir perceber que oportunidades explorar. O plano concretizou-se com a oportunidade de fazer um estágio na Agência Europeia de Medicamentos (EMA, naquela altura ainda em Londres), para o qual concorri e para o qual fui aceite. Desde então, vivi e desenvolvi carreira durantes estes anos tanto no Reino Unido como em França, onde resido e trabalho atualmente.
– Que expectativas tinha antes de ir?
– Tinha expectativas muito positivas: sair do país para fazer um estágio numa instituição Europeia de renome como a EMA era um porto seguro e ao mesmo tempo um desafio pessoal enorme. Tinha a segurança de trabalhar aprendendo numa entidade de referência mas ao mesmo tempo tinha de efetivamente me tornar independente num novo país, com toda uma panóplia de desafios de adaptação. Globalmente, as expectativas positivas confirmaram-se: foi uma excelente oportunidade para começar o meu percurso nos Assuntos Regulamentares e aprendi imenso sobre a área. O que saiu ao lado foi de certa maneira ter subestimado no meio do optimismo o enorme desafio do que é ser expatriado: entre a distância da família e a erosão de algumas relações em Portugal, a adaptação a culturas e línguas diversas, são coisas que a longo prazo deixam a sua marca.
– Como foi o processo de adaptação a nível pessoal e profissional?
– A adaptação em Londres foi relativamente fácil: a EMA é uma agência extremamente diversa e internacional, e Londres como cidade cosmopolita que é deu-me muita segurança no quotidiano. Depois do estágio, quando me mudei para Paris, a situação foi muito diferente: apesar de ser uma cidade igualmente cosmopolita, as barreiras linguísticas e às vezes culturais tornaram a adaptação mais difícil e longa. Apesar de tudo, nos dois casos o meu ambiente de trabalho era muito internacional, o que me permitia trabalhar em Inglês e continuar a beneficiar de uma experiência onde me conseguia desenvolver e progredir na carreira sem grande barreiras de adaptação.
– Que barreiras encontrou?
– Tive felizmente poucas barreiras profissionais ou académicas para o meu desenvolvimento profissional. Trabalhando em Assuntos Regulamentares e em posições globais (ou diretamente nas sedes das empresas), nunca tive problemas em comprovar as minhas qualificações ou a necessidade de requerer reconhecimento para inscrição nas Sociedades reguladoras (e.g., Ordens dos Farmacêuticos dos países). Talvez uma das únicas barreiras que encontrei foi na área acadêmica, quando em 2015 decidi ingressar num Mestrado em Medicina Farmacêutica no Trinity College Dublin, na Irlanda, e em que me pediram comprovativa de equivalências académicas. Foi nessa altura que me dei conta da grande diferença entre Portugal e outros países na maneira como classificam resultados de formação académica, mas apesar de tudo consegui comprovar com alguma ajuda da Universidade de Lisboa na altura.
– Em que difere a prática profissional da portuguesa?
– Num mundo globalizado como o de hoje, não diria que a prática na minha área seja radicalmente diferente de um país para o outro. Acho que um factor potencialmente diferenciador é mais o foco das organizações em que desenvolvemos carreira: quando saí de Portugal, sabia que gostaria de trabalhar em posições globais ou regionais, que em Portugal eram relativamente escassas. Neste tipo de posições, há uma maior abertura de oportunidades de trabalho que não existem em filiais que são mais focadas no mercado Português. Apesar disso, sinto desde que saí de Portugal que o mundo do trabalho remoto e mobilidade profissional está a criar cada vez mais oportunidades para que estes dois universos se aproximem, o que é muito positivo. Para além disso, nunca senti que qualquer diferença dita académica ou profissional entre Portugal e os países onde exerci fosse vista como negativa.
– Houve momentos em que pensou em desistir?
– Não, e penso que é pelo facto de sempre ter planeado este futuro de certa forma. Há dias em que é difícil, em que a saudade da família e dos amigos bate forte, mas assim como deixei muitos laços em Portugal, também os criei no estrangeiro. Casei e estabeleci família no estrangeiro, tive experiências inesquecíveis com pessoas de todo o mundo, e isso é são fontes de optimismo para seguir este caminho.
– Que conselhos práticos daria para acelerar a integração profissional de um colega?
– Algo que sempre me ajudou imenso foram outros portugueses à minha volta onde quer que estivesse no estrangeiro. Temos comunidades por todo o Mundo e diria que é sempre bom começar por encontrar colegas ou relações que possam ajudar a compreender a nova realidade que enfrentamos (muitos porque já passaram por isso e aprenderam como fazê-lo). Acho que comunidades como o Conselho da Diáspora Farmacêutica da Ordem dos Farmacêuticos podem ser muito importantes neste sentido.
– Que competências novas ganhou que seriam difíceis de adquirir em Portugal?
– Não posso deixar de mencionar que com maior experiência de vida noutros países vem um maior sentido de compreensão, tolerância e abertura para a complexidade que existe no nosso Mundo, tanto a nível pessoal como profissional. No meu caso, tendo sempre sido relativamente tímido e reservado de natureza, sair do meu ‘porto seguro’ Português foi essencial para ser mais proactivo, independente e ambicioso. Para além das competências linguísticas (que são de uma mais valia tremenda), diria que interagindo diretamente com outras culturas nos faz olhar para os problemas de maneira diferente e nos força a relacionar de maneira diferente com o outro.
– Em termos de salário e benefícios, como comparar com Portugal considerando o custo de vida?
– Como já saí de Portugal há uns bons anos, não sei até que ponto tenho uma visão atual da situação. O que sempre digo é que cada país tem o seu custo de vida e os seus incentivos ao trabalho qualificado como aqueles que os Farmacêuticos exercem quotidianamente em muitas áreas. Não é inabitual muitos países terem salários elevados mas impostos e custos de vida igualmente elevados. No fim do dia, a equação entre salários e custo de vida tem em conta muitos mais factores como a qualidade de vida, o equilíbrio pessoal e profissional, entre outros que tornam esta avaliação sempre muito subjectiva.
– Horários, equilíbrio vida-trabalho e burnout: melhor ou pior?
– Esta questão depende muito do tipo de trabalho e posição que se tem, assim como da própria cultura do país. Tendo vivido e trabalhado no Reino Unido e em França, sempre ouvi colegas expatriados gozar dizendo “No Reino Unido vive-se para trabalhar, na França trabalha-se para viver!”. Sempre achei esta uma visão muito dicotômica e baseada principalmente em clichés, mas irrespectivamente disto é importante encontrar oportunidades que ofereçam flexibilidade necessária para encontrar o seu próprio equilíbrio, que é próprio a cada Farmacêutico na sua posição.
– Quais foram os maiores desafios fora do trabalho (solidão, burocracia, habitação, saúde)?
– Os desafios são vários, constantes e muitas vezes difíceis de ultrapassar. Sem dúvida, a burocracia e a adaptação a uma nova administração é geralmente o mais complicado no início, e eu senti-o em cada novo país que explorei. Falar a língua e criar relações em ambientes menos internacionais é também difícil, o que não ajuda muitas vezes a sensação de solidão e as saudades do passado em Portugal. No entanto, nada disto é inultrapassável e é preciso persistir porque só a prática nos ajuda a compreender melhor compreender (e gerir) a incerteza que às vezes nos rodeia.
– Qual o impacto na família: o que foi mais exigente?
– Tive muita sorte em ter uma família que sempre me apoiou no desejo de fazer carreira fora de Portugal, apesar de ter um preço elevado a pagar. O que continua a ser muito exigente é tentar partilhar o tempo entre países no meio de carreiras profissionais cada vez mais preenchidas. Custa sempre faltar aquela festa de família ou não poder celebrar certos momentos importantes devido à distância, mas nos dias de hoje a tecnologia disponível permite-nos criar pontes entre as pessoas como nunca antes, o que ajuda.
– Em termos do lado pessoal/social, quais foram os maiores desafios e como os ultrapassou?
– Quando se é expatriado e se sai de Portugal, às vezes perde-se a noção, no meio do frenesim e progresso profissional, que esse frenesim e progresso também existem no país que deixamos para trás. Durante muitos anos fora, tinha a impressão que o tempo parava em Portugal, e que quando voltava, voltava para aquilo que de uma certa forma abandonei. Mas a pouco e pouco damo-nos conta (às vezes abruptamente) que tudo muda: aquele ente querido já não está entre nós, aquele restaurante favorito de há 20 anos fechou, aquele bosque onde passeávamos ardeu. E esta sensação de perda continua, na minha opinião, a ser um grande desafio para quem vai para fora, farmacêutico ou não.
– Vê-se a ficar, regressar ou viver de forma transnacional?
– Vejo-me certamente a viver de forma transnacional mas com a necessidade de ter sempre alguma base de estabilidade, tanto profissional como pessoal. Felizmente vivemos num Continente onde nos é relativamente fácil instalar e trabalhar em vários sectores, mas conciliar vida pessoal e família com uma carreira continua a ser um desafio, sobretudo quando envolve mobilidade.
– Que condições o fariam regressar?
– Por agora, não diria que haja condições específicas para voltar. Adoro Portugal e tenho sempre uma nostalgia latente do país onde nasci, cresci e aprendi a ser o Farmacêutico que sou hoje. Portugal será sempre um “porto seguro” mas com novos laços familiares e pessoais em França, continuo a ter muito a explorar aqui por fora.




