Estudo descobre um “aliado surpreendente” na reparação do cérebro 22

Investigadores da Fundação Champalimaud (FC) concluíram que moléculas consideradas há décadas como as “vilãs do cérebro”, que têm sido associadas ao envelhecimento e à neurodegeneração, podem afinal ajudar na reparação cerebral.

Publicado hoje na revista científica EMBO Reports, a nova investigação em moscas-da-fruta sugere que, na dose e na forma certas, uma “breve libertação dessas moléculas instáveis e reativas, produzidas pelas células gliais, o tecido de suporte do cérebro, pode realmente ajudar na reparação cerebral”.

A descoberta surge depois de décadas em que as moléculas chamadas espécies reativas de oxigénio – radicais livres – foram consideradas as “vilãs do cérebro, responsáveis por mecanismos associados ao envelhecimento, neurodegeneração e danos causados por acidentes vasculares cerebrais ou traumatismos”, adiantou a FC.

Em comunicado, a fundação explicou que o “stress oxidativo” é uma consequência direta do excesso no corpo dos chamados radicais livres, que pode ser causado por fatores de estilo de vida, ambientais e biológicos, como tabagismo, alto consumo de álcool, má alimentação, stress, poluição, radiação, químicos industriais e inflamação crónica.

Quando isso ocorre, cria-se um desequilíbrio entre a produção de radicais livres e as defesas antioxidantes do corpo, responsáveis pela sua neutralização.

“Quando ouvimos falar de stress oxidativo no cérebro, é quase sempre uma má notícia, associada ao envelhecimento, à doença de Alzheimer e a outras doenças neurodegenerativas”, referiu a FC, adiantando que o estudo hoje divulgado “mostra que um breve e bem controlado pulso de stress oxidativo, logo após uma lesão, pode realmente ajudar o cérebro a reparar-se”.

Nesta investigação, Christa Rhiner, investigadora principal do Laboratório de Células Estaminais e Regeneração da FC e a sua equipa, demonstraram que, após uma pequena lesão no cérebro de moscas adultas, um grupo específico de células de suporte cerebral, conhecidas como glia, liberta rapidamente um pulso de formas quimicamente reativas de oxigénio, que incluem peróxido de hidrogénio.

“Esta `faísca oxidativa´ controlada faz duas coisas ao mesmo tempo: ativa processos antioxidantes protetores na glia e, o que é crucial, age como um sinal de ativação de células que normalmente estão inativas, levando-as a dividir-se e a substituir o tecido perdido”, referiu o comunicado, citado pela Lusa.

A equipa identificou a responsável por este pulso de radicais livres, uma enzima chamada Duox, presente na membrana das células gliais, que produz peróxido de hidrogénio fora das células.

“Isso foi surpreendente, pois inicialmente pensávamos que as mitocôndrias – as minúsculas baterias das células – seriam as principais geradoras de stress oxidativo no cérebro lesionado”, explicou a primeira coautora Carolina Alves.

Quando os investigadores reduziram geneticamente a atividade da Duox ou diminuíram a quantidade de oxigénio reativo com tratamentos antioxidantes, o cérebro lesionado das moscas produziu menos células novas e a resposta regenerativa foi substancialmente atenuada.

Em contrapartida, o facto de estimular a glia para aumentar a atividade da Duox foi suficiente para desencadear divisões celulares adicionais, mesmo na ausência de lesão, referiu a FC, salientando que isto significa que, em particular, o peróxido de hidrogénio derivado da glia é um “poderoso motor de plasticidade cerebral”.

“Estes resultados desafiam a ideia simplista de que o stress oxidativo no cérebro é sempre prejudicial e podem ajudar a explicar por que as terapias antioxidantes de amplo espetro não conseguem, em grande parte, melhorar a recuperação cerebral nos doentes após uma lesão”, salientou a FC.

No futuro, estratégias mais direcionadas, que atenuem o stress oxidativo crónico prejudicial preservando – ou mesmo aproveitando – esses sinais oxidativos de curta duração, “poderão abrir novos caminhos para promover a reparação cerebral”, consideraram os investigadores.