Esclerose Múltipla: Novas perspetivas terapêuticas 310

A esclerose múltipla (EM) é uma doença autoimune, inflamatória, crónica e progressiva do sistema nervoso central (SNC). Cursa de forma desmielinizante e neurodegenerativa. A etiologia permanece desconhecida, no entanto, a interação entre fatores genéticos e ambientais desencadeia um ataque autoimune que danifica a mielina e pode ser o gatilho para o início da doença.

A EM afeta cerca de 2.8 milhões de pessoas a nível global e cerca de 8 mil pessoas em Portugal. Calcula-se que a cada cinco minutos alguém é diagnosticado com EM.

Mais frequente nas mulheres, em idades compreendidas entre os 20 e os 40 anos, é um dos principais motivos de incapacidade e de ausência laboral no mundo.

Está associada a diversos fatores de risco, incluindo o sexo feminino; a localização geográfica, maior prevalência acima da linha do Equador; a predisposição genética (HLA- DR15/DQ6, IL2RA e alelos do IL7Rα); a infeção pelo vírus Epstein–Barr; níveis reduzidos de vitamina D; baixa exposição solar e hábitos tabágicos.

O aumento do número de medicamentos disponíveis foi evidente no dobrar do século com a afirmação da imunoterapia, nomeadamente, a introdução dos anticorpos monoclonais, resultado do desenvolvimento científico e tecnológico.

No entanto, há doentes que não respondem, o desafio mantem-se e as abordagens inovadoras como as terapias avançadas (terapia genética e engenharia celular) e a inteligência artificial (IA) podem transformar o paradigma atual do tratamento.

Estão em curso vários ensaios clínicos com terapias emergentes, novas moléculas e vias de administração. Os inibidores das cinases e a psilosibina estão em avaliação com objetivos terapêuticos distintos. A via nasal para administração do foralumab, está a ser avaliada num estudo de fase II.

O desenvolvimento de um dispositivo de ultrassons que estimula a medula e trava a progressão da doença está em curso num estudo de fase I.

A aplicação da IA permite prever o curso da doença e implementar tratamentos personalizados, com base em algoritmos preditivos que integram biomarcadores e imagens de ressonância magnética nuclear (RMN).

O Transplante Autólogo de Células-Tronco Hematopoiéticas (AHSCT) e as Chimeric Antigen Receptor of T cells (CAR-T) são uma realidade, mas os critérios de inclusão de doentes são exigentes dada a complexidade e custo dos procedimentos inerentes.

O futuro afigura-se promissor, a evolução das ferramentas de análise e tratamento de dados, permitem otimizar as estratégias de tratamento de forma precoce, individualizada e precisa. Estes avanços têm potencial para reduzir a atividade inflamatória, exercer efeito neuroprotetor e retardar a progressão da doença.

A consulta farmacêutica dedicada à EM e a integração do farmacêutico hospitalar em equipas multidisciplinares no Centro de Responsabilidade Integrado de EM (CRI EM) reforçam a relevância da sua intervenção, tanto na gestão terapêutica como no acompanhamento dos doentes.

Ana Margarida Dias
Membro da Secção de Investigação e Ensaios Clínicos da Sociedade Portuguesa de Farmacêuticos dos Cuidados de Saúde (SPFCS)