EMA recomenda alargar uso de medicamento ao tratamento do carcinoma espinocelular do canal anal 83

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) recomendou a extensão da indicação terapêutica do Zynyz (retifanlimab) para incluir o tratamento de adultos com carcinoma espinocelular do canal anal que não pode ser removido por cirurgia e é metastático ou localmente recorrente. É utilizado em combinação com carboplatina e paclitaxel.

O parecer será agora enviado à Comissão Europeia para a adoção de uma decisão sobre a extensão da indicação terapêutica a toda a UE. Uma vez concedida a extensão, as decisões sobre o preço e o reembolso serão tomadas a nível de cada Estado-Membro.

A doença

De acordo com dados apresentados num comunicado publicado no portal da EMA, este carcinoma é o tipo mais comum de cancro anal, representando 85% de todos os casos. É um cancro raro e potencialmente fatal que afeta cerca de 10 000 pessoas por ano. No entanto, a sua incidência aumentou aproximadamente 3% ao ano na última década, principalmente devido à disseminação de estirpes de alto risco do papilomavírus humano (HPV) que podem causar vários tipos de cancro, particularmente o HPV 16 e 18.

Atualmente, não existem medicamentos especificamente autorizados na UE para o tratamento de adultos com carcinoma espinocelular do canal anal. Nas situações em que o cancro não se espalhou para outras partes do corpo, as opções de tratamento limitam-se à quimioterapia e à radiação. No entanto, até 60% destes doentes o cancro regressa no prazo de cinco anos após o tratamento inicial.

As perspetivas para estes doentes e para aqueles que são diagnosticados com doença metastática desde o início continuam a ser desfavoráveis, com taxas de sobrevivência a 5 anos de apenas 15 a 20%. Para o carcinoma espinocelular do canal anal metastático, o tratamento centra-se normalmente em cuidados paliativos, especificamente quimioterapia, para controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.

O anticorpo monoclonal

A substância ativa do Zynyz, o retifanlimab, um anticorpo monoclonal que bloqueia um recetor chamado PD-1 encontrado na superfície das células imunitárias conhecidas como células T. Alguns tipos de cancro, incluindo o carcinoma espinocelular do canal anal, podem produzir uma proteína conhecida como PD-L1 que se liga ao recetor PD-1 nas células T para desativar a atividade das células T, impedindo-as de atacar o cancro. Ao bloquear o PD-1, o retifanlimab impede que o cancro desative a atividade das células T, aumentando assim a capacidade do sistema imunitário de destruir as células cancerígenas.

Ensaio clínico

A recomendação da EMA baseia-se nos resultados de um ensaio clínico que incluiu 308 adultos com carcinoma espinocelular do canal anal metastático ou localmente recorrente que não podia ser removido por cirurgia.

Todos os participantes receberam seis ciclos de quimioterapia consistindo em carboplatina no dia 1 e paclitaxel nos dias 1, 8 e 15. Eles também receberam tratamento com Zynyz ou placebo a cada 4 semanas. Metade dos doentes tratados com Zynyz em combinação com quimioterapia viveram 9,3 meses ou mais sem agravamento do cancro, em comparação com os 7,4 meses daqueles que receberam placebo em combinação com quimioterapia.

Embora metade dos doentes tratados com Zynyz tenham vivido pelo menos 32,8 meses, em comparação com 22,2 meses de quem recebeu placebo, estes resultados não foram estatisticamente significativos, o que significa que a diferença entre os dois grupos pode ter ocorrido por acaso.

Embora exista incerteza quanto à extensão em que o Zynyz prolonga a vida desses pacientes, a EMA concluiu que, quando esses resultados foram considerados juntamente com os dados sobre o tempo de vida dos pacientes sem agravamento do cancro, eles indicam que o medicamento tem um efeito benéfico.

Efeitos secundários

Os efeitos secundários mais comuns relatados com o Zynyz quando utilizado em combinação com carboplatina e paclitaxel foram neutropenia (níveis baixos de neutrófilos, um tipo de glóbulo branco), prurido (comichão), erupção cutânea, linfopenia (níveis baixos de linfócitos, um tipo de glóbulo branco), hipotiroidismo (glândula tiróide hipoativa) e aumento dos níveis da enzima hepática alanina aminotransferase, o que pode ser um sinal de problemas hepáticos.