
Ao completar um ano de mandato à frente da Secção Regional do Sul e Regiões Autónomas da Ordem dos Farmacêuticos (SRSRA-OF), Humberto Martins destaca que “há oportunidades, e riscos, para a profissão num momento de grande pressão para encontrar novas respostas no sistema de saúde”.
Neste contexto, a SRSRA-OF, segundo o referido pelo seu presidente ao NETFARMA, pretende afirmar‑se com dois objetivos centrais: reforçar iniciativas descentralizadas que aproximem farmacêuticos de diversas áreas de atuação e assumir um papel mais ativo no apoio à especialização, consolidando o que já existe na farmácia hospitalar e lançando um novo programa dedicado à farmácia comunitária.
– Que balanço faz deste ano de trabalho?
– Foi um ano que pareceu “curto” pela quantidade e diversidade de temas. Enquanto órgãos regionais renovados, mantivemos o nível de atividade ao mesmo tempo que implementámos as novas ideias do programa eleitoral. Conseguimos ter intervenções nos 5 eixos que definimos com ligações aos farmacêuticos, ao conhecimento, à saúde, à sociedade e ao futuro.
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– Qual foi a decisão mais difícil que teve de tomar durante o ano?
– Definir prioridades. O ano de 2025 representou um desafio adicional para a organização interna, nomeadamente em relação à escolha de prioridades face a uma equipa menor que no ano anterior. Fazer escolhas tem sempre riscos mas é, também, a responsabilidade dos dirigentes em relação às necessidades de evolução, modernização e sustentabilidade da Secção Regional.
– Qual foi o momento em que sentiu: ‘Valeu a pena’?
– O Dia Nacional do Farmacêutico em Tomar, em que a Secção Regional convidou todos os farmacêuticos do país e entidades oficiais para sair da capital, das maiores cidades ou das sedes de distrito. Foi um risco coerente com a nossa proposta de estarmos mais próximos dos farmacêuticos em todo o país e que recebeu um notável apoio, com mais de 250 participantes, terminando com um jantar no simbólico Convento de Cristo.
– Que problema o marcou mais e porquê?
– Nos contactos com os colegas e com as ULS entende-se que a verdadeira integração de cuidados farmacêuticos está por pensar no sistema de saúde. Em particular, desde a recente reforma das ULS verificamos as iniciativas de integração dos processos administrativos, dos cuidados médicos, dos cuidados de enfermagem ou dos meios complementares de diagnóstico. Contudo, há ainda um espaço indefinido em relação ao percurso assistencial em relação à intervenção farmacêutica.
– Uma conquista que passou despercebida, mas que considera importante?
– A colaboração iniciada com a ULS Alto Alentejo que, em poucos meses, permitiu organizar um encontro envolvendo líderes institucionais, profissionais das ULS e das farmácias da região para encontrar novas articulações entre farmacêuticos hospitalares e comunitários, bem como possibilidades de respostas conjuntas entre a ULS e as farmácias. Estão formados quatro grupos de trabalho (Acesso a Dados Clínicos, Retenção de Profissionais, Cuidados Farmacêuticos e Sustentabilidade Ambiental) em torno dos quais serão identificadas propostas a implementar. Esta iniciativa representa o balão de ensaio para novas cooperações e intervenções farmacêuticas que podem fazer a diferença na qualidade e segurança dos cuidados de saúde, em particular numa região do país com desafios demográficos muito acentuados.
– Que crítica ouviu este ano que o fez repensar algo?
– É recorrente a crítica de ‘distância’ da Ordem ou até de ‘inatividade’ em relação a alguns temas. Caberá sempre aos dirigentes da Ordem demonstrar que estas perceções não refletem o que acontece e que existem múltiplas oportunidades de interação e que diariamente há ações concretas da Ordem dos Farmacêuticos. A criação da Hora Aberta é um exemplo da disponibilidade para que qualquer farmacêutico possa agendar uma reunião (presencial ou à distância) com a Direção da Secção Regional para colocar qualquer assunto ou questão. Até hoje, todos estes pedidos foram acedidos por mim pessoalmente. É um convite aberto a todos os colegas.
– Se pudesse refazer uma única decisão, qual seria?
– Não há nenhuma decisão concreta de ‘arrependimento’. Contudo, podemos sempre desejar mais, ou ir mais além, e sem dúvida que a realização de encontros descentralizados com colegas é uma atividade que irá ser reforçada porque permite, por um lado, conhecer melhor a realidade e identificar necessidades e, por outro, cumpre o nosso desejo de estar mais perto de quem, diariamente, está ao serviço dos portugueses enquanto profissional por todo o território e em múltiplas áreas profissionais.
– O que mudou estruturalmente na profissão na sua região este ano?
– Não identifico uma ‘mudança estrutural’ na região. Há oportunidades, e riscos, para a profissão num momento de grande pressão para encontrar novas respostas no sistema de saúde. Conjunturalmente a proximidade regional com as ULS e com as suas necessidades podem criar condições para melhorar articulação. Estruturalmente é necessário que se consolidem novas intervenções farmacêuticas integradas nas equipas multidisciplinares, começando no seio das ULS e alargando para as farmácias comunitárias ou laboratórios de análises clínicas.
– Qual acha que será o maior desafio de 2026 para os farmacêuticos da sua região?
– A nível regional há diferentes realidades que merecem atenção e diferenciação, nomeadamente na atração em farmácia comunitária e análises clínicas ou a integração de residentes nas ULS. Contudo, não é um desafio apenas circunscrito à região Sul e Regiões Autónomas.
Em termos da Secção Regional queremos ter dois impactos: promover iniciativas descentralizadas que interliguem farmacêuticos de diferentes atividades e ter um papel mais ativo no apoio à especialização, mantendo apoio à especialização em farmácia hospitalar e criando um programa para a farmácia comunitária.
– O que gostaria de fazer, que ainda não conseguiu?
– Os projetos e ideias nestas funções, mesmo quando implementados, estão sempre inacabados, sendo isso também um sinal de dinâmica e de inovação. Sem prejuízo de estarmos no primeiro terço do mandato, gostaríamos sempre de ter mais concretização na transformação digital de forma a facilitarmos a interação dos farmacêuticos com a Ordem e, principalmente, sermos capazes de responder melhor e mais rápido a qualquer pedido que nos seja dirigido. Estivemos a recuperar alguns pendentes nestes temas e esperamos continuar a melhorar processos.
– O que quer mesmo fazer até ao fim do mandato?
– A utopia de que cada farmacêutico se sente mais próximo da sua Ordem, que esta lhe pertence e não aos dirigentes e que cada um usa a sua palavra na construção do futuro comum que desejarmos.
Em termos mais concretos, pretendemos robustecer a intervenção da Secção Regional, modernizar procedimentos e garantir a sustentabilidade, nomeadamente em relação aos compromissos crescentes dos próximos anos relativos ao investimento feito na nova sede.




