É como se fosse comigo. Também é consigo? 0 656

Embora já aqui tenha falado sobre as questões relacionadas com as diferenças de tratamento entre homens e mulheres, o tema não se esgotou e continua a merecer atenção.

Desta vez gostava de falar sobre as mulheres médicas. Uma consulta rápida à Portada revela a feminização das profissões da área da saúde: medicina, enfermagem, ciências dentárias, tecnologias de diagnóstico e terapêutica, terapia e reabilitação e ciências farmacêuticas. Ou seja, temos muito mais estudantes do sexo feminino a entrar em qualquer um dos cursos do que estudantes do sexo masculino. E desde 2011 que temos mais médicas do que médicos em Portugal, por exemplo.

Contudo, as mulheres continuam longe de serem vistas como as representantes naturais das respectivas classes profissionais. Por exemplo, nunca houve uma Bastonária da Ordem dos Médicos. A excepção é a Ordem dos Enfermeiros, uma profissão desde sempre vista como ‘feminina’, e, por isso, onde tem sido mais fácil vermos mulheres a representarem a classe profissional.

No final de Novembro de 2019 decorreram as cerimónias de Juramento de Hipócrates, um momento importante na carreira dos jovens médicos. As fotografias publicadas desses eventos mostravam painéis masculinos, ou quase exclusivamente masculinos, a darem as boas-vindas à profissão a salas com públicos quase exclusivamente femininos. Estas fotografias são um exemplo das dissonâncias que ainda persistem na sociedade portuguesa.

O espaço privado do desempenho da profissão é predominante feminino mas o espaço público da representação da profissão é maioritariamente masculino. E isto é um problema? Sim, é um problema para as mulheres médicas e é um problema para a sociedade portuguesa. Porquê? Porque as mulheres têm tanto direito como os homens a sentirem-se realizadas a nível profissional e pessoal e com disponibilidade para ambas as dimensões. E a falta de médicos é um problema e precisamos de todos os médicos e de todas as médicas que pudermos (re)ter.

Os problemas sentidos na conciliação da vida profissional e familiar são diferentes para os homens e para as mulheres. O estudo “A mulher, hoje” promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), em 2019, demonstrava que 56% do tempo que as mulheres passam acordadas em casa é dedicado a trabalho não pago não pago (da casa e dos filhos). Na execução destas tarefas, as mulheres suportam o triplo do trabalho do companheiro, sendo esta percentagem ainda mais elevada quando têm filhos pequenos. Este desequilíbrio acaba por ter impacto na escolha entre ‘família OU carreira’ que acaba por recair apenas nas mulheres, uma vez que os homens têm ‘família E carreira’.

Para que exista mais igualdade de oportunidades é necessário que as mulheres estejam presentes nos locais onde as decisões são tomadas e as políticas desenhadas. Os poucos estudos realizados até ao momento mostram que as mulheres tendem a trabalhar menos horas por semana e a estar menos envolvidas em tarefas de ensino, de investigação e de administração. Estes dois factores penalizam as mulheres médicas na progressão da carreira.  Para lidar com a escassez de médicos é fundamental criar mecanismos que tornem o desempenho e a progressão da profissão mais amigos das mulheres médicas e dar igualdade de oportunidades aos homens e às mulheres. Teremos mulheres médicas mais realizadas profissionalmente. Teremos mais mulheres médicas a poderem ser mães, se o quiserem, e a serem mães mais presentes. Ganhamos todos!

Céu Mateus
(A coluna Notas da Nova é uma contribuição para a reflexão na área da saúde, pelos membros do centro de conhecimento Nova SBE Health Economics & Management. São artigos de opinião da inteira responsabilidade dos autores.)

 

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