
Chegados ao fim do ano, é altura de fazer balanços e estabelecer metas (para 2026). O NETFARMA pediu a várias instituições do setor farmacêutico que fizessem isso mesmo, destacando conquistas de 2025, falhas ou lições aprendidas durante o ano e apostas para 2026.
Nuno Flora, presidente executivo da ADIFA – Associação de Distribuidores Farmacêuticos, destaca “a inclusão, como medida prioritária, da prevenção da escassez de medicamentos no acordo histórico do Conselho e do Parlamento Europeu para a reforma da legislação farmacêutica da União Europeia”, como uma conquista do ano passado e promete que “continuaremos, ativamente, a trabalhar no sentido de promover a sustentabilidade económica do setor da distribuição farmacêutica”.
Conquistas de 2025
“Em primeiro lugar, destaco a publicação do Decreto-Lei n.º 22/2025, de 19 de março, que estabeleceu o quadro jurídico para a identificação, designação e reforço da resiliência das entidades críticas, no qual a distribuição farmacêutica é reconhecida como serviço essencial.
Ao reconhecer os distribuidores farmacêuticos como prestadores de um serviço crucial para a manutenção das funções societais e atividades económicas vitais do nosso país, mesmo em cenários-limite como catástrofes naturais ou emergências de saúde pública, este diploma representa um importante avanço na valorização das empresas do setor.
Em segundo lugar, sublinho a inclusão, como medida prioritária, da prevenção da escassez de medicamentos no acordo histórico do Conselho e do Parlamento Europeu para a reforma da legislação farmacêutica da União Europeia.
A ADIFA tem vindo a colocar este tema na agenda política e regulatória, tanto a nível nacional como europeu, com vista à implementação de medidas eficazes para a prevenção da escassez de medicamentos. A previsão do reforço de instrumentos para a monitorização a nível europeu e de obrigações específicas ao abrigo do futuro Critical Medicines Act, contemplados nesta reforma legislativa, foi uma notícia muito positiva para o setor da distribuição farmacêutica e para o sistema de saúde europeu como um todo.
Por fim, não poderia deixar de referir a organização do III Congresso Nacional da Distribuição Farmacêutica, em outubro. Foi uma grande iniciativa, que juntou mais de 200 congressistas – representantes de empresas, entidades institucionais e profissionais da saúde e do circuito do medicamento – num fórum que permitiu uma discussão aprofundada e extremamente produtiva sobre os desafios e as oportunidades mais prementes na distribuição farmacêutica.
Durante o evento, a ADIFA teve oportunidade de apresentar um novo estudo de caracterização e avaliação do impacto do setor da distribuição farmacêutica em Portugal, que ajuda a clarificar a dimensão do setor na economia nacional. O estudo revelou que a distribuição farmacêutica gerou, em 2024, um impacto económico direto e indireto de 302 milhões de euros, o equivalente a 0,11% do PIB nacional, e é responsável por 2.000 postos de trabalho diretos.
São números que nos orgulham e que mostram, claramente, o papel da distribuição farmacêutica de serviço completo para o funcionamento salutar do ecossistema de saúde nacional, bem como para a competitividade da economia portuguesa.”
Falhas ou lições
“Uma das grandes ambições estratégicas do Governo para 2025 foi a extensão da dispensa de medicamentos hospitalares em proximidade a todas as unidades de saúde e utentes de todo o território nacional. O projeto-piloto iniciado no final de 2024 demonstrou, de forma inequívoca, o seu potencial para melhorar o acesso dos doentes às terapêuticas, libertando os hospitais para a prestação de cuidados diferenciados.
No entanto, importa reconhecer que, ao longo de 2025, a evolução ficou aquém do esperado. Apesar de sinais claros de maturação do modelo e da entrada gradual de Unidades Locais de Saúde (ULS), do potencial universo de 200 mil utentes elegíveis, o regime continua a abranger apenas cerca de 600 utentes, com um número ainda reduzido de beneficiários por ULS.
O projeto tem vindo a evoluir e tudo indica que reúne condições para ganhar escala, mas o ritmo de implementação revela-se demasiado lento. Neste processo, importa sublinhar que o trabalho desenvolvido pelos distribuidores farmacêuticos foi exímio, assegurando fiabilidade, capacidade operacional e total disponibilidade para uma expansão mais ambiciosa.
No domínio da saúde pública e da sustentabilidade, 2025 foi um ano marcado pela continuidade, mas também de expectativas adiadas. A ADIFA e os seus associados mantiveram o envolvimento em todos os projetos em que já participavam, assegurando a sua execução com responsabilidade e compromisso. Manteve-se igualmente a nossa disponibilidade em alargar a intervenção dos distribuidores farmacêuticos a novos programas, incluindo rastreios de saúde, mas essa ambição não se concretizou durante o ano. A principal lição a retirar é clara: o sucesso e a implementação de novos projetos dependem, de forma decisiva, da articulação e do impulso de outras entidades que os enquadram e promovem.
Por fim, uma mais efetiva desmaterialização e relação digital entre os agentes do circuito do medicamento e também com as autoridades continua a ser um desafio por cumprir. Apesar do trabalho consistente desenvolvido ao longo de vários anos e dos avanços já alcançados, 2025 não trouxe a evolução que gostaríamos neste domínio. Ainda assim, mantemos a convicção de que este processo está mais próximo de se concretizar, com benefícios claros em termos de eficiência, rapidez e qualidade da informação.
Assumir estas limitações não diminui o percurso do setor em 2025. Pelo contrário, reforça a nossa maturidade de saber reconhecer o caminho feito, identificar o que ficou por cumprir e manter uma visão clara sobre o que é necessário concretizar para fortalecer o setor e servir melhor os doentes e o sistema de saúde.”
Apostas para 2026
“Continuaremos, ativamente, a trabalhar no sentido de promover a sustentabilidade económica do setor da distribuição farmacêutica. O aumento dos custos de produção de medicamentos e o aumento dos custos operacionais da distribuição têm deteriorado a rentabilidade dos distribuidores farmacêuticos de serviço completo e, por extensão, a sustentabilidade do setor.
Sem medidas eficazes – designadamente, um mecanismo de atualização automática dos preços dos medicamentos – estas empresas verão a sua competitividade cada vez mais comprometida.
É por isso que, no âmbito da sua intervenção associativa, a ADIFA tem priorizado, e continuará a priorizar, a discussão sobre a atratividade económica do mercado português como fator imprescindível para a estabilidade do setor da distribuição farmacêutica, para a saúde financeira e operacional das empresas e para a robustez da cadeia de abastecimento de medicamentos.
Prosseguiremos também com uma discussão ativa sobre outros temas prioritários para a distribuição farmacêutica: em particular, sobre a dispensa de medicamentos hospitalares em proximidade, a reclassificação de medicamentos atualmente dispensados pelos serviços farmacêuticos hospitalares para o ambulatório e a diferenciação legal da distribuição farmacêutica de serviço completo.
Por fim, no contexto do acordo político para a atualização da legislação farmacêutica da União Europeia, cuja transposição e implementação está prevista para o horizonte temporal 2026-2028, a ADIFA apostará num acompanhamento muito próximo da atividade política em Bruxelas.
O primeiro semestre de 2026 será marcado pela presidência cipriota do Conselho da União Europeia, que terá, entre as principais prioridades, a melhoria do acesso e da disponibilidade de produtos médicos. Este é um contexto muito favorável para, em articulação com o GIRP – European Healthcare Distribution Association e com os nossos parceiros europeus, intervir de forma coordenada no sentido de promover a valorização, a sustentabilidade e a resiliência da distribuição farmacêutica.”




