Da Ciência à Evidência: A Investigação Clínica como pilar da evolução na Saúde 154

A Investigação Clínica assume, atualmente, um papel estruturante na evolução dos sistemas de saúde, marcados pela crescente exigência de decisões baseadas em evidência científica, pela complexidade das tecnologias de saúde e pela necessidade de garantir sustentabilidade, segurança e eficiência na prestação de cuidados. Num ambiente regulamentar e científico cada vez mais exigente, torna-se, determinante assegurar uma formação diferenciada que capacite o profissional para a geração, avaliação crítica e aplicação metodologicamente robusta da evidência em saúde.

A Competência em Investigação Clínica compreende o estudo sistemático destinado a avaliar determinantes da saúde e da doença, resultados clínicos, processos assistenciais, desempenho e segurança de intervenções, bem como a qualidade e organização dos cuidados de saúde. Engloba um vasto leque de métodos de investigação, como estudos experimentais (ex. ensaios clínicos), estudos observacionais e de investigação baseada em dados do mundo real, estudos com dispositivos médicos e tecnologias digitais, estudos farmacoepidemiológicos, estudos farmacoeconómicos, estudos qualitativos, entre outros. Estes estudos constituem a base do desenvolvimento, avaliação, monitorização de medicamentos, dispositivos médicos e outras tecnologias de saúde, intervenções em saúde, contribuindo de forma decisiva para a inovação responsável e para a melhoria dos cuidados prestados às populações.

Neste contexto, a Competência em Investigação Clínica da Ordem dos Farmacêuticos (OF) visa reconhecer e valorizar o domínio técnico-científico em áreas como os métodos de investigação clínica, aplicação das Boas Práticas Clínicas, enquadramento dos aspetos éticos e regulamentares, bioestatística, gestão e análise de dados em saúde, capacidade de avaliação crítica da literatura científica, interpretação adequada dos resultados, comunicação transparente e fundamentada da evidência gerada. Esta competência afirma-se, assim, como uma área estruturante para o fortalecimento dos sistemas de saúde, posicionando o farmacêutico como um profissional qualificado na geração e aplicação de evidência em benefício da sociedade, nos diversos níveis de prestação de cuidados onde este profissional se integra, permitindo não apenas uma progressão para funções de liderança e coordenação, mas também a participação ativa na inovação em saúde.

O farmacêutico com esta competência diferencia-se pela sua aptidão para integrar e liderar equipas multidisciplinares, coordenar projetos de elevada complexidade e assegurar o cumprimento das normas éticas, científicas e regulamentares aplicáveis. A sua intervenção estende-se desde a conceção, desenho, planeamento e implementação de estudos, até à análise, interpretação e disseminação de resultados, contribuindo para decisões clínicas e estratégicas mais informadas. Ao promover práticas baseadas em evidência e ao contribuir para a avaliação contínua do benefício-risco das intervenções em saúde, o farmacêutico desempenha um papel decisivo na consolidação da confiança pública na investigação e na inovação.

A Competência em Investigação Clínica amplia significativamente o leque de oportunidades profissionais, nomeadamente em centros de investigação clínica, instituições hospitalares, empresas farmacêuticas e de dispositivos médicos, entidades regulamentares, empresas de consultoria, universidades e institutos de investigação, reforçando o desenvolvimento profissional contínuo, a empregabilidade e o posicionamento estratégico do profissional farmacêutico. Para além da vertente técnica, esta Competência traduz-se num compromisso com a qualidade, a integridade científica e a proteção dos participantes em investigação.

Num cenário marcado pela emergência de terapias avançadas, medicina personalizada, saúde digital e utilização crescente de dados do mundo real, esta competência assume particular relevância. A capacidade de integrar diferentes fontes de informação, assegurar a qualidade e segurança dos dados e promover equidade na investigação clínica constitui hoje um diferencial estratégico.

Em síntese, a Competência em Investigação Clínica da OF, cujas candidaturas estarão abertas entre 30 de março a 26 de abril, representa um investimento estruturante na qualificação do farmacêutico ao transformar conhecimento científico em valor tangível para o doente e para a sociedade, posiciona o profissional como agente central na promoção de inovação responsável, de excelência clínica e de sustentabilidade dos sistemas de saúde, contribuindo de forma determinante para o futuro da saúde em Portugal.

Maria Teresa Herdeiro
Presidente da comissão responsável pela Competência Farmacêutica em Investigação Clínica da Ordem dos Farmacêuticos