Crianças portuguesas com Perturbação do Espetro do Autismo em tratamento com células estaminais em programa europeu 28

Cinco crianças portuguesas com Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) iniciam esta semana um tratamento experimental com células estaminais, no âmbito de um programa europeu de acesso alargado, promovido pela Crioestaminal.

As primeiras três crianças, com idades entre os 5 e os 8 anos, deslocam-se hoje, no Dia Mundial da Consciencialização sobre o Autismo, ao University Children’s Hospital, em Lublin, na Polónia, onde receberão a infusão de células estaminais. As restantes duas crianças têm tratamento agendado para o próximo dia 16 de abril, na mesma unidade hospitalar.

O programa destina-se a crianças que armazenaram o seu próprio sangue do cordão umbilical na Crioestaminal, ou outro laboratório do Grupo Famicord, e que cumprem critérios clínicos específicos, permitindo o acesso a terapêuticas emergentes em áreas onde a medicina ainda apresenta limitações, como a Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) e a Paralisia Cerebral (PC).

Embora a utilização de células estaminais no tratamento do autismo continue a ser experimental, o interesse científico tem vindo a aumentar, sustentado pela investigação clínica em curso. Estudos iniciais, incluindo os realizados na Universidade de Duke, nos Estados Unidos da América, exploraram a utilização de sangue do cordão umbilical autólogo em crianças com perturbações do neurodesenvolvimento. Apesar de os resultados ainda serem inconclusivos, análises de subgrupos apontam para potenciais benefícios ao nível da comunicação, da atenção e da função neurológica em grupos específicos de doentes.

“Estamos cautelosamente otimistas face ao crescente conjunto de evidências e continuamos a explorar o potencial do sangue do cordão umbilical no tratamento da Perturbação do Espetro do Autismo”, afirma a Dra. Magdalena Croscińska-Krawczyk, investigadora principal do programa EAP. “O nosso objetivo é dar às crianças uma oportunidade adicional de alcançarem uma maior independência e apoiar a sua terapia diária”, acrescenta.

Dra. Alexandra Machado, Diretora Médica da Crioestaminal, destaca: “O sangue do cordão umbilical é usado na prática clínica desde 1988, altura em que foi utilizado pela primeira vez num transplante hematopoiético entre irmãos. Hoje, a sua aplicação vai muito para além da área da transplantação, a utilização em doenças neurológicas que parecia improvável, está atualmente a tornar-se uma realidade. A realização destes tratamentos no Hospital Universitário de Lublin vem permitir alargar o acesso de mais famílias a tratamentos inovadores que podem fazer a diferença nas suas vidas.”

O autismo é a forma mais comum das PEA e a sua prevalência tem vindo a aumentar a nível global, atingindo cerca de 1 em cada 100 crianças, segundo a Organização Mundial da Saúde. Em Portugal, estimativas divulgadas apontam para cerca de 1 em cada 1000 crianças em idade escolar, com maior prevalência no sexo masculino.

Vários estudos sugerem que as células estaminais do sangue do cordão umbilical podem contribuir para a regulação de processos inflamatórios no cérebro e influenciar a conectividade cerebral. Adicionalmente, infusões autólogas de sangue do cordão umbilical têm demonstrado ser seguras em crianças com paralisia cerebral e outras lesões neurológicas. Neste contexto, tem sido colocada a hipótese de a sua utilização poder beneficiar crianças com PEA, contribuindo para a atenuação de sintomas através da modulação de processos inflamatórios cerebrais.

Com base na experiência e no conhecimento científico do Duke Center for Autism and Brain Development, o Grupo FamiCord, em colaboração com um centro clínico em Lublin, lançou o Programa de Acesso Alargado. A iniciativa destina-se a famílias com crianças diagnosticadas com PEA ou PC e tem como objetivo traduzir avanços científicos em oportunidades clínicas concretas, através da utilização do sangue do cordão umbilical dos doentes.

Mais do que um serviço de armazenamento, a Crioestaminal, reafirma o seu compromisso em possibilitar a utilização terapêutica eficaz do material biológico preservado. O EAP reflete esta missão, oferecendo às famílias não apenas segurança a longo prazo, mas também uma oportunidade concreta de beneficiar das células estaminais quando tal se revela mais necessário.