Covid-19: Comunicação com “muito sensacionalismo e invenções” 245

“Comunicação equilibrada, envolvente, transparente e honesta”: eis a receita para uma boa comunicação dada pelo vice-almirante Gouveia e Melo, coordenador da task-force para a vacinação, no webinar promovido pela Plataforma Saúde em Diálogo e pelo Instituto de Saúde Baseada na Evidência (ISBE). Contudo, no webinar “Pandemia: Efeitos secundários da comunicação” ficou claro que houve várias falhas e que a comunicação não ajudou a informar corretamente as pessoas.

Ao longo de duas horas, os oito palestrantes foram apresentando os aspetos mais importantes na comunicação durante a pandemia de covid-19, assim como a forma de combater a problemática da desinformação.

E logo a abrir o debate, foi recordada a forma como, no caso do uso da máscara ou da vacinação, houve logo falhas no início, na forma como ora se defendia que não era necessário o uso de máscara, como, pouco tempo depois, se defendia que não só era recomendado como obrigatório o recurso a este meio de proteção individual. O mesmo viria a acontecer em relação à taxa de eficácia das diferentes vacinas, assim como no que dizia respeito aos possíveis efeitos secundários.

“A comunicação em Saúde durante a pandemia de covid-19 caracterizou-se por falta de rigor, sensacionalismo e invenções”, começou por afirmar António Vaz Carneiro, presidente do Conselho Científico do ISBE, defendendo que é “essencial que comuniquemos os factos científicos de maneira rigorosa e clara”.

O vice-almirante Gouveia e Melo lembrou os primeiros momentos da pandemia, que “atraíram muita gente ao palco informativo”, com os “atores tradicionais e os novos atores” a tornarem o espaço mediático mais confuso, a que se aliou, ainda, a desinformação e a comunicação não moderada nas redes sociais.

Ricardo Costa, diretor-geral de Informação do grupo Impresa, fez o mea culpa e admitiu que nem sempre os jornalistas tiveram cuidado a tratar a informação acerca da pandemia. “Tudo era novo, esta foi a primeira pandemia que se viveu num tempo de comunicação total”, afirmou Ricardo Costa, acrescentando: “A ciência é a verdade naquele momento e não estávamos habituados a lidar com o processo da descoberta científica”.

Já Fausto Pinto, diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, frisou que, nessa fase, “o palco mediático foi dado, por vezes, a pessoas sem habilitação para tal e sem filtro”, o que, em seu entender, trouxe consequências negativas para o nível de confiança da população.

Assim, à semelhança do que viria a ser defendido por outros dos palestrantes, para Fausto Pinto é fundamental perceber que “a comunicação institucional tem de ser mais profissional”.

Roberto Roncon, professor e médico no Hospital de S. João, também abordou a necessidade de uma comunicação mais próxima das pessoas, “com alguma humildade” e frisou que “não se deve falar publicamente de assuntos sobre os quais nada se tem a acrescentar”, recordando o efeito negativo que trouxeram algumas posições públicas na afluência às urgências, com consequências graves para a saúde da população.

Também, Cristina Sampaio, professora de farmacologia clínica, considerou que “falhou a comunicação em saúde pública” e acrescentou que os efeitos de uma má comunicação passam pela “perda de confiança dos interlocutores”, alertando para os efeitos secundários visíveis, mas sobretudo para os imprevisíveis, “estes mais difíceis de lidar”.

Assim, Ana Delicado, socióloga e investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS), reforçou a ideia de que “não se pode comunicar verdades absolutas e desmenti-las depois”, com o advogado Eduardo Nogueira Pinto a sublinhar: “O que falhou foi não se terem criado canais oficiais que comunicassem com mais clareza e substância”.

E falhou, também, a “tradução” de conceitos difíceis de entender pela população, acrescentou o médico Roberto Roncon, com Cristina Sampaio a defender que o Governo tem de investir numa comunicação mais eficiente, profissional e clara e “menos exuberante”.

Preferindo não falar em falhas, o vice-almirante Gouveia e Melo destacou, igualmente, a necessidade de haver uma comunicação que envolva as pessoas e aproveitou para avisar que o atual “combate só acaba quando a epidemia estiver controlada”, pelo que “a comunicação das entidades oficiais deve ser feita de forma clara e há que evitar dispersar a comunicação por várias pessoas e entidades”.

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