Conflito no Médio Oriente: Abastecimento das farmácias em risco? O que diz a ANF 55

Num momento em que as tensões geopolíticas e as ruturas nas cadeias globais de abastecimento voltam a colocar pressão sobre a disponibilidade de medicamentos, a Associação Nacional das Farmácias (ANF) reforça a urgência de Portugal avançar com uma verdadeira reserva estratégica nacional.

Em entrevista ao NETFARMA, Ema Paulino, presidente da instituição, sublinha ainda que, no que às farmácias, em particular diz respeito, “se o conflito se prolongar, poderá traduzir-se numa menor previsibilidade do abastecimento e numa maior pressão sobre medicamentos já em monitorização”.

– O conflito no Médio Oriente está a ter impacto no abastecimento das farmácias portuguesas?
– O conflito no Médio Oriente deve ser acompanhado com atenção, na medida em que está a introduzir maior instabilidade em cadeias logísticas internacionais. O efeito mais imediato que hoje se observa é sobretudo indireto: aumento do risco e do custo do transporte e maior pressão sobre o preço da energia e combustíveis.

Nesta fase, não há evidência pública consolidada de um impacto direto e já quantificável no abastecimento às farmácias portuguesas, especificamente em resultado do conflito.

– Há sinais de aumento de ruturas ou dificuldades no fornecimento de medicamentos em função do conflito?
– No contexto atual, verifica-se um aumento da vulnerabilidade a nível internacional, o que poderá impactar o abastecimento de medicamentos, sobretudo se a instabilidade geopolítica persistir ou se agravar. Neste enquadramento, em Portugal, a gestão e monitorização da disponibilidade de medicamentos é assegurada pelo INFARMED, que acompanha o mercado, antecipa potenciais ruturas e implementa medidas de mitigação para garantir a continuidade do acesso às terapêuticas essenciais, entre elas a restrição à exportação de medicamentos críticos.

Os dados europeus indicam que a disponibilidade de medicamentos já constituía, antes deste agravamento geopolítico, um desafio estrutural. De acordo com o relatório Medicine Shortages Report 2025, publicado pelo Pharmaceutical Group of the European Union (PGEU), 96% dos países inquiridos reportam indisponibilidades de medicamentos, sendo que em 70% dos casos a situação se mantém estável, mas em níveis elevados.

– Existem grupos de medicamentos particularmente vulneráveis nesta fase?
– A informação europeia mais recente identifica como áreas particularmente pressionadas os medicamentos para o sistema nervoso, as terapêuticas cardiovasculares, os anti-infeciosos, os medicamentos oncológicos, as insulinas e os agonistas dos recetores GLP-1. Trata-se, em muitos casos, de terapêuticas críticas, com impacto direto na continuidade dos tratamentos e na segurança das pessoas que vivem com doença.

Se a instabilidade geopolítica afetar de forma mais prolongada os fluxos logísticos internacionais, os grupos mais vulneráveis tenderão a ser precisamente aqueles em que há maior criticidade clínica, menor margem de substituição, exigência de cadeia de frio ou forte dependência de cadeias globais de fabrico e distribuição. É por isso que medicamentos oncológicos, insulinas e outros fármacos sensíveis do ponto de vista logístico merecem atenção redobrada.

– Que medidas está a ANF a acompanhar ou a recomendar para garantir a continuidade do acesso ao medicamento?
– A ANF tem vindo a promover e a participar ativamente em reuniões e debates sobre estas matérias, quer a nível nacional, com o Governo, a autoridade reguladora e outras entidades do setor, quer a nível europeu, acompanhando de perto os desenvolvimentos, nomeadamente no quadro do PGEU. Exemplo disso foi a recente apresentação do relatório Medicine Shortages Report 2025 no Parlamento Europeu, na qual a ANF participou.

Ao nível europeu, estamos alinhados na defesa de uma maior coordenação, de uma melhor capacidade de prevenção e de sistemas eficazes de monitorização e alerta precoce. Estamos igualmente alinhados na necessidade de reforçar as competências dos farmacêuticos, permitindo respostas mais rápidas, nomeadamente através de regimes de substituição terapêutica enquadrados por protocolos. O referido relatório do PGEU mostra que apenas 15% dos países permitem a substituição terapêutica por farmacêuticos, limitando a capacidade de assegurar a continuidade do tratamento quando não há alternativas, mostrando que a resposta europeia continua, em grande parte, focada na reação às ruturas em vez de na antecipação e prevenção.

Importa ainda considerar a proposta de Critical Medicines Act, apresentada pela Comissão Europeia, em março de 2025, que tem como objetivo reforçar a disponibilidade, o aprovisionamento e a capacidade produtiva de medicamentos críticos na União Europeia, contribuindo para uma maior resiliência das cadeias de abastecimento e para a redução da dependência externa.

A nível nacional, a ANF tem mantido articulação com o Ministério da Saúde, e demais entidades, sobre a necessidade de estruturar uma reserva estratégica de medicamentos, capaz de assegurar a continuidade do abastecimento em situações de crise, perturbações logísticas ou eventos extremos que afetem a cadeia de distribuição. Esta preocupação ganha particular relevância num contexto em que Portugal está igualmente envolvido no reforço das reservas estratégicas europeias na área da saúde.

Paralelamente, a ANF tem defendido o reforço da atratividade do mercado nacional e da acessibilidade ao medicamento, através da implementação de políticas de preço que assegurem a sustentabilidade do circuito do medicamento. Um mercado mais atrativo e equilibrado traduz-se, consequentemente, num sistema mais resiliente, com melhores condições para garantir a continuidade da disponibilidade de medicamentos para a população.

A orientação é clara: mais prevenção, mais coordenação, mais capacidade europeia de produção e mais condições para que as farmácias continuem a assegurar proximidade e continuidade de cuidados.

– Se o conflito se prolongar, quais são os maiores riscos identificados para a resposta das farmácias e para os doentes?
– Se o conflito se prolongar, poderá traduzir-se numa menor previsibilidade do abastecimento e numa maior pressão sobre medicamentos já em monitorização. Contudo, a disponibilidade do medicamento não constitui apenas um desafio logístico: trata-se igualmente de uma questão com impacto na adesão terapêutica, na segurança e nos resultados em saúde. O relatório do PGEU indica que 89% dos Estados-Membros reportaram interrupções terapêuticas, enquanto 85% referem uma erosão da confiança dos utentes ao nível da farmácia.

Para as farmácias, um dos riscos é continuarem a absorver o impacto destas falhas, enquanto principal ponto de contacto com os utentes, o que pode afetar a confiança no sistema. Por outro lado, o mesmo relatório mostra que as equipas passam, em média, cerca de 12 horas por semana a gerir indisponibilidades temporárias, com mais tarefas administrativas e perdas financeiras associadas.

Em síntese, se o contexto internacional se deteriorar, os maiores riscos serão a maior instabilidade do abastecimento, a pressão acrescida sobre medicamentos críticos, a sobrecarga das equipas das farmácias e, sobretudo, o impacto direto na continuidade das terapêuticas e na confiança das pessoas. É por isso que esta matéria exige resposta coordenada, antecipação e alinhamento entre autoridades, reguladores, indústria, distribuição e farmácias.