Cessação Tabágica: Uma oportunidade estratégica 64

As farmácias comunitárias estão a assumir um papel cada vez mais relevante na cessação tabágica, transformando este desafio de saúde pública numa oportunidade estratégica. Mais do que dispensar produtos, estas estruturas oferecem aconselhamento especializado, acompanhamento personalizado e proximidade com o utente, fatores que reforçam a confiança, aumentam a fidelização e posicionam a Farmácia como promotora ativa de estilos de vida saudáveis.

O consumo de tabaco em Portugal mantém-se elevado, apesar de algumas variações por faixa etária e género. Segundo o V Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas (SICAD, 2022), cerca de 50% da população entre os 15 e os 64 anos declarou ter experimentado tabaco ao longo da vida, e 31,9% consumiram nos últimos 30 dias, um aumento face aos 30,6% registados em 2017. Este crescimento é impulsionado pelo aumento do consumo entre os homens, que passou de 36,5% para 40,8%, enquanto nas mulheres houve uma ligeira descida, de 25% para 23,4%.

A análise por grupos etários mostra uma tendência preocupante: embora o consumo entre jovens adultos (15-34 anos) tenha diminuído de 37,4% para 27,8% entre 2017 e 2022, o padrão continua elevado nos homens (35,8%) e mais baixo nas mulheres (19,6%).

Dados complementares do INE (Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, 2022) indicam que 14,1% da população com 16 ou mais anos fuma diariamente, valor semelhante ao registado em 2019 (14,2%).

Em termos de impacto, o tabagismo continua a ser uma das principais causas evitáveis de morte prematura em Portugal, responsável por mais de 13 mil mortes anuais. Apesar das medidas de controlo, como ambientes livres de fumo e aumento da tributação, os dados sugerem que a redução é lenta e desigual entre grupos populacionais. A diversificação dos produtos (tabaco aquecido, cigarros eletrónicos) representa um novo desafio para as políticas públicas, exigindo estratégias adaptadas à evolução do mercado e aos comportamentos dos consumidores.

A cessação tabágica continua torna-se, por isso, um dos temas mais relevantes na promoção da saúde pública, mas também representa uma oportunidade de negócio para as farmácias comunitárias. Com o tabagismo a manter-se como uma das principais causas evitáveis de doenças crónicas e mortalidade, o papel do farmacêutico vai muito além da dispensa de medicamentos: envolve aconselhamento, acompanhamento e criação de valor para o utente e para a farmácia.

Por que motivo este segmento é estratégico?

As farmácias reconhecem que a cessação tabágica é mais do que uma categoria de produtos, é um serviço que reforça a proximidade com o utente e potencia a fidelização, visto que, como refere Fábio Pinho, farmacêutico substituo na Farmácia Martins Pedro, em Entroncamento de Poiares, “verifica-se um contacto verbal mais prolongado com o utente, em virtude de o mesmo sentir frequentemente necessidade de desabafo de outros assuntos, muitas vezes relacionados com o problema. Algo que potencia a fidelização do mesmo, por aumentar a sua confiança ao longo do atendimento”.

Na Farmácia Moreira Padrão, na Batalha, a visão é clara: “a cessação tabágica é um tema com muito potencial na farmácia, uma vez que este segmento permite-nos reforçar o nosso posicionamento como promotores de estilos de vida saudáveis, prestar um serviço diferenciado e criar maior proximidade com os utentes que desejam deixar de fumar, com a facilidade de podermos oferecer um acompanhamento contínuo, por exemplo através de chamadas telefónicas a questionar sobre a adesão ao tratamento”, explica a farmacêutica Anaísa Silva.

Este posicionamento não só contribui para a saúde pública, como cria oportunidades para aumentar a confiança e a lealdade do cliente.

Procura e perfil do consumidor

Várias farmácias, como as entrevistadas, têm verificado um aumento na procura por produtos e medicamentos para cessação tabágica. “São produtos procurados sobretudo por utentes na faixa etária entre os 30 e os 50 anos, com algumas situações de stresse associadas, sem outras características de relevância”, reforça Fábio Pinho.

Não obstante, Anaísa Silva acrescenta algumas nuances importantes. “Temos notado um aumento progressivo da procura, sobretudo após períodos de sensibilização na comunicação social, campanhas institucionais e também em datas específicas que caraterizam um início de novo ciclo, como é o caso de janeiro (resolução de Ano Novo) e setembro (regresso à rotina no pós férias)”, daí que além de “a procura ser mais evidente entre adultos entre os 30 e os 50 anos, geralmente conscientes dos impactos do tabaco na saúde e já com historial de tentativas anteriores de deixar de fumar, também temos registado uma procura crescente por parte de grávidas ou casais que planeiam ter filhos, bem como de pacientes com diagnósticos recentes de patologias agravadas pelo tabagismo”.

Posicionamento e estratégias de venda

A forma como os produtos são apresentados e comunicados influencia diretamente a adesão.

Na Farmácia Moreira Padrão, como explicado por Anaísa Silva, aposta-se na visibilidade e na comunicação ativa. Assim sendo, “os suplementos para a cessação tabágica na nossa farmácia estão colocados em zonas de alta visibilidade pelo utente, geralmente junto aos produtos de saúde respiratória atrás do balcão do farmacêutico, onde o aconselhamento farmacêutico pode ser mais direto”. Além disso, como continua a farmacêutica, “utilizamos materiais de apoio (folhetos, cartazes, ecrãs digitais) para reforçar a comunicação. Também incluímos os produtos em campanhas sazonais ou temáticas (por exemplo, no Dia Mundial Sem Tabaco) e fazemos referência nas nossas redes sociais”.

Já na Farmácia Martins Pedro admite-se uma abordagem mais discreta, no sentido em que “temos exposto apenas um produto, no qual apostamos durante o aconselhamento, existindo outros com pouca rotação/procura, em stock”, relata Fábio Pinho, acrescentando que “não temos efetuado marketing do mesmo, apenas campanha de informação pontual nos nossos canais de comunicação (físicos, como a tv e online, designadamente redes sociais)”.

Formação, o fator de diferenciação

Para Fábio Pinho, os fatores-chave, e, sobretudo, de diferenciação, das farmácias, particularmente em relação à concorrência, é a “formação específica”, que permite “adequar o tipo de produto a cada caso, e, sempre, a capacidade de comunicação e de influência na aceitação/compreensão de aconselhamento não farmacológico (hábitos de vida, alimentação, regulação do sono, etc.) e do produto, tentando produzir o maior impacto possível na motivação do utente, uma condição essencial para o sucesso do tratamento, e com isso, conseguir-se também a sua fidelização”.

Na Farmácia Moreira Padrão valoriza-se, igualmente, a formação da equipa, por isso, como expõe Anaísa Silva, promove-se a “formação interna, fornecida pelas marcas, focada em temas como estratégias de motivação do utente e atualização sobre terapias disponíveis”.

 O serviço

As farmácias podem ainda apostar na implementação de um serviço de cessação tabágica, onde, por exemplo, são definidos programas à medida das necessidades da pessoa que quer deixar de fumar, em que se começa com uma consulta de avaliação inicial, que permite a criação de estratégias para facilitar o processo de desabituação tabágica.

No caso da Farmácia Moreira Padrão, atualmente, além do aconselhamento ao balcão, “não temos nenhum serviço específico estruturado neste âmbito. Apenas realizamos rastreios de cessação tabágica com apoio promocional de marcas, em dias específicos programados”, indica Anaísa Silva.

Quanto à Martins Pedro, Fábio Pinho reforça que, não tendo a farmácia um serviço estruturado, temos “formação específica que canaliza o aconselhamento de forma diferenciada”. Este aconselhamento, da ótica do farmacêutico substituto, tem dado frutos, visto que “fazemos um balanço positivo, pois na maioria dos casos revelou-se eficaz”.

 Venda cruzada, um potencial a explorar

A venda cruzada é uma estratégia que pode aumentar a rentabilidade e melhorar a experiência do cliente. Na Farmácia Martins Pedro, como elucida Fábio Pinho, “tentamos compreender outros aspetos relevantes que influenciam/exponenciam o problema e aí sugerir produtos que façam sentido numa ótica de prevenção e de educação do utente/organismo”.

No caso específico da cessação tabágica pode-se recomendar, como exemplifica Anaísa Silva, “suplementos calmantes (à base de valeriana, passiflora) para controlar a ansiedade durante o processo de cessação. Vitaminas e antioxidantes (vitamina C, complexo B) para apoiar a regeneração do organismo”. Podem, igualmente, ainda de acordo com a farmacêutica, serem aconselhados “produtos para a saúde respiratória (sprays nasais, xaropes, pastilhas) para aliviar sintomas nos primeiros dias de abstinência”.

Em suma, a cessação tabágica é uma oportunidade para as farmácias comunitárias se posicionarem como agentes ativos na promoção e literacia em saúde, ao mesmo tempo que gera valor para o negócio. A chave está na combinação de aconselhamento qualificado, comunicação eficaz e serviços diferenciados. Com estratégias bem definidas, este segmento pode deixar de ser apenas uma categoria de produtos para se tornar um motor de fidelização e crescimento.

Caixa: Desafios e oportunidades

“Os valores elevados praticados, e, recentemente, a introdução de soluções comparticipadas, que causaram um decréscimo na aceitação de soluções não sujeitas a receita médica”, como aponta Fábio Pinho, farmacêutico substituto na Farmácia Martins Pedro, são alguns dos desafios desta categoria.

A farmacêutica Anaísa Silva, da Farmácia Moreira Padrão, destaca mais alguns desafios, bem como oportunidades, que as farmácias têm no relativo à cessação tabágica:

Desafios:

  • Baixa adesão a longo prazo: muitos clientes desistem após as primeiras semanas;
  • Falta de motivação ou recaídas frequentes;
  • Desconhecimento sobre as opções disponíveis, especialmente sobre a complementaridade entre medicamentos e suplementos.

Oportunidades:

  • Criação de um serviço estruturado de cessação tabágica com acompanhamento personalizado, o que pode aumentar a fidelização;
  • Parcerias com clínicas, médicos ou empresas, para encaminhamento de utentes;
  • Diferenciação através da formação contínua da equipa farmacêutica, permitindo oferecer aconselhamento de maior qualidade.

Artigo publicado originalmente na edição #394 da revista FARMÁCIA DISTRIBUIÇÃO.