Autoridades europeias alertam para resistência antimicrobiana de bactérias como salmonela 85

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) e a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos alertaram hoje para a elevada resistência antimicrobiana de bactérias transmitidas por alimentos, como a salmonela.

Num relatório hoje divulgado, ambas as autoridades apontam a “elevada proporção” de estirpes de campylobacter e salmonela, tanto em humanos como em animais, que continuam a apresentar resistência à ciprofloxacina, um antimicrobiano importante utilizado no tratamento de infeções graves.

Embora a resistência da salmonela em animais destinados à alimentação tenha permanecido consistentemente elevada, a resistência em infeções por salmonela em humanos aumentou nos últimos anos, avisam as autoridades, sublinhando que esta tendência “é preocupante”.

A resistência à ciprofloxacina “limita a eficácia das opções de tratamento disponíveis”, insistem, citados pela Lusa.

No caso da campylobacter, a resistência está agora tão disseminada na Europa que a ciprofloxacina já não é recomendada para o tratamento de infeções em seres humanos, refere a informação divulgada pelo ECDC, acrescentando que foram igualmente impostas restrições ao uso em animais para salvaguardar a eficácia contínua na medicina humana.

A salmonela e a campylobacter estão entre as causas mais frequentes de doenças de origem alimentar. As infeções surgem geralmente após o consumo de carne, aves e ovos crus ou mal cozinhados, ou de leite não pasteurizado.

Em geral, para todas as espécies de salmonela foram observados valores atípicos de elevada proporção de resistência à ampicilina em Itália (41,8 %) e Portugal (45,1 %), às sulfonamidas em Itália (44,8 %) e à tetraciclina na Hungria (40,5 %), em Itália (46,2 %) e em Portugal (43,0 %).

Citado na informação divulgada, Piotr Kramarz, o cientista-chefe da ECDC, diz que a resistência antimicrobiana em bactérias comuns transmitidas por alimentos – como a salmonela e a campylobacter – mostra “as estreitas ligações entre os sistemas humanos, animais e alimentares” e defendeu a importância de uma forte abordagem One Health (uma só saúde).

“Proteger a eficácia dos antimicrobianos requer uma ação coordenada através de uma abordagem One Health forte, porque a resistência antimicrobiana afeta-nos a todos”, defende.

Em toda a Europa, uma elevada proporção de salmonela e campylobacter, tanto em seres humanos como em animais destinados à produção de alimentos, também apresenta resistência aos antimicrobianos mais utilizados, incluindo a ampicilina, as tetraciclinas e as sulfonamidas.

O ECDC avisa ainda que a deteção de bactérias E. coli produtoras de carbapenemase em animais destinados à produção de alimentos e na carne em vários países “requer especial atenção”.

Os carbapenemas são antimicrobianos de último recurso para seres humanos e não são autorizados para utilização em animais destinados à produção de alimentos.

Contudo, o centro europeu diz que o número de deteções comunicadas está a aumentar e que esta informação precisa de “uma investigação mais aprofundada”.

As autoridades lembram que, embora a resistência aos antimicrobianos normalmente usados continue generalizada em bactérias transmitidas por alimentos, vários países relataram progresso na redução dos níveis de resistência em humanos e em animais destinados à produção de alimentos.

“Vários países relataram uma diminuição da resistência a antimicrobianos específicos ao longo do tempo, demonstrando que esforços direcionados podem fazer a diferença”, refere o documento.

No que diz respeito à salmonela, a resistência nos humanos à ampicilina e às tetraciclinas diminuiu significativamente nos últimos dez anos em 19 e 14 países, respetivamente.

Também foram identificadas tendências positivas nos animais destinados à produção de alimentos a nível da UE, com uma diminuição da resistência às tetraciclinas nos frangos de carne e à ampicilina e às tetraciclinas nos perus.

No caso da campylobacter, a resistência à eritromicina – um tratamento de primeira linha para infeções por esta bactéria em seres humanos – diminuiu em vários países na última década, tanto em seres humanos como nalguns animais destinados à alimentação, refere o documento.

Além disso, o relatório refere que a resistência combinada a antimicrobianos de importância crítica, ou seja, a resistência a mais de um desses antimicrobianos ao mesmo tempo, permanece geralmente baixa em salmonela, campylobacter e E.coli.

Por fim, as autoridades alertam para o facto de as melhorias anteriores terem abrandado em algumas áreas, particularmente no que diz respeito à E. coli, cujos níveis de resistência a algumas substâncias nas aves de capoeira “estabilizaram, em vez de continuarem a diminuir”.