
A escalada da instabilidade no Médio Oriente tem vindo a aumentar as preocupações em torno da segurança do abastecimento de medicamentos, num contexto de cadeias de produção e distribuição altamente globalizadas.
Questionada sobre as medidas adotadas para mitigar eventuais ruturas, Associação Portuguesa de Medicamentos pela Equidade em Saúde (EQUALMED) garante que o setor está a reforçar os mecanismos de prevenção, através do aumento dos stocks de reserva, de planos de contingência internacionais e de uma monitorização permanente em articulação com entidades europeias e autoridades reguladoras.
– O conflito no Médio Oriente está a afetar a distribuição e comercialização de produtos pelos associados da EQUALMED?
– Sim, este conflito veio intensificar um conjunto de dificuldades de abastecimento e de logística sentidas durante a pandemia da COVID-19 e a Guerra da Ucrânia, bem como outras áreas relativas ao aumento geral de custos de produção e de energia. Esta situação pode agudizar uma série de vulnerabilidades já identificadas, nomeadamente a consolidação dos produtores de matérias-primas e das plataformas industriais fora do espaço europeu que conduziu a um aumento significativo dos custos de produção versus a redução contínua dos preços dos medicamentos genéricos e biossimilares, originando dificuldades no acesso e aumento do número de ruturas. Ainda assim, prevemos que as consequências deste conflito, caso se prolongue, sejam mais gravosas do que outros eventos globais mais recentes. Tal como a Medicines for Europe, associação europeia de medicamentos não protegidos por patente, consideramos que estes acontecimentos no Médio Oriente estão a suscitar preocupações referentes à resiliência das cadeias de abastecimento globais, em particular as que impactam o mercado europeu e os segmentos dos medicamentos não protegidos por patente.
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– Têm sentido atrasos, ruturas ou necessidade de ajustar rotas/fornecedores?
– A situação atual está a criar pressões pontuais em determinadas rotas logísticas. De qualquer forma, podem existir dificuldades relativas à redução da capacidade do transporte aéreo devido ao encerramento de aeroportos no Médio Oriente, atrasos no envio de amostras de controlo de qualidade necessárias para os lotes na UE e tempos de trânsito marítimo mais longos causados pela suspensão do tráfego marítimo através do Estreito de Ormuz e do Canal do Suez. O aumento dos custos de combustível e de energia está a agravar ainda mais a pressão sobre as cadeias de abastecimento.
– Já se registam impactos no acesso a produtos/medicamentos em Portugal?
– O setor continua resiliente, apoiado por stocks de segurança e rotas flexíveis, mas as restrições geopolíticas sustentadas ou crescentes podem corroer esta capacidade e desencadear uma escassez mais ampla.
– Que medidas estão a adotar para garantir o abastecimento?
– Neste momento, estão a ser implementadas algumas medidas ao nível de stock de reserva. De acordo com dados europeus, a maioria mantém níveis de segurança de 4 a 8 semanas. Existe também um plano de contingência com a utilização de redes de produção globais diversificadas e planos de transporte flexíveis, especificamente desenhados para a instabilidade geopolítica. A EQUALMED está a monitorizar com os seus associados a situação e em estreita articulação com a sua congénere europeia Medicines for Europe e com as autoridades reguladoras.
– Quais os principais riscos caso o conflito se prolongue?
– Existem diversas ameaças caso este conflito se prolongue. Pode haver um risco de resiliência, pois o prolongamento pode esgotar os stocks de reserva e desencadear uma escassez generalizada. Devido ao redirecionamento de rotas, escassez de contentores e outros fatores logísticos, existe também um risco acrescido para os produtos que são sensíveis às variações de temperatura, como injetáveis estéreis, substâncias ativas (APIs) e medicamentos com curto prazo de validade. Ao nível da sustentabilidade financeira, o aumento acentuado dos custos de produção coloca uma pressão sobre os sistemas de preços fixos, que não conseguem absorver o aumento da inflação. Além disso, há também um agravamento logístico com a possibilidade de novas restrições de exportação para outros países, podendo impactar negativamente a balança comercial do medicamento e a economia portuguesa.




