
Cerca de um ano após a tomada de posse do Conselho do Colégio de Especialidade de Farmácia Comunitária da Ordem dos Farmacêuticos, Cidália Almeida da Silva, a sua presidente, sublinha que foi um ano marcado por “intensa atividade técnica, científica e institucional”.
Entre os momentos mais marcantes esteve o acompanhamento a farmacêuticos que enfrentaram situações de catástrofe, nomeadamente inundações que afetaram gravemente a atividade de várias farmácias e colocaram à prova a resiliência da profissão.
Em entrevista ao NETFARMA, Cidália Almeida da Silva salienta ainda que “temos assistido a uma evolução progressiva no reconhecimento da farmácia comunitária como um ponto de proximidade e de acesso privilegiado aos cuidados de saúde”. Por isso, considera que este é “um momento particularmente importante para afirmar o valor da intervenção clínica do farmacêutico comunitário “.
– Que balanço faz deste ano de trabalho?
– Um ano após a tomada de posse do Conselho do Colégio de Especialidade de Farmácia Comunitária (CCEFC) da Ordem dos Farmacêuticos, faço um balanço muito positivo do trabalho desenvolvido, marcado por intensa atividade técnica, científica e institucional.
Acreditamos que o futuro da profissão passa pela valorização das competências clínicas e pela especialização dos farmacêuticos, e foi com essa visão que procurámos orientar o trabalho desenvolvido ao longo deste primeiro ano de mandato.
O Conselho reúne-se regularmente para acompanhar de forma próxima os temas relevantes para a especialidade e para os farmacêuticos comunitários, procurando responder às necessidades da prática profissional.
Ao longo deste período desenvolvemos um conjunto significativo de iniciativas, incluindo a elaboração de normas e pareceres técnicos, contributos para processos legislativos e regulamentares, revisão de protocolos de atuação farmacêutica, participação em grupos de trabalho, integração em júris científicos e intervenções em diversos eventos científicos e profissionais.
Destaco igualmente o trabalho desenvolvido na organização das V Jornadas de Farmácia Comunitária, bem como o lançamento do Prémio Inovação em Farmácia Comunitária 2026, uma iniciativa que visa promover a valorização profissional dos farmacêuticos comunitários e distinguir trabalhos, projetos e experiências que evidenciem o impacto real da intervenção farmacêutica na melhoria da saúde das pessoas.
Saliento também a preparação da Reunião Anual de Farmácia Comunitária 2026, que terá lugar a 28 de março, no Porto, assim como o desenvolvimento de documentos estruturantes, como a Norma de Consulta Farmacêutica em Farmácia Comunitária, e de projetos inovadores, como o Guia Formativo de Apoio à Preparação para o Título de Especialista.
Mais do que um conjunto de iniciativas isoladas, procurámos desenvolver um trabalho consistente que contribua para reforçar a qualidade da prática farmacêutica e para afirmar o papel do farmacêutico comunitário como profissional de saúde de proximidade.
– Qual foi a decisão mais difícil que teve de tomar durante o ano?
– Uma das decisões mais exigentes foi definir prioridades entre várias áreas que necessitam de desenvolvimento na farmácia comunitária.
O Colégio recebe regularmente pedidos de contributo para análise de legislação, desenvolvimento de normas, pareceres técnicos, organização de iniciativas científicas e apoio a projetos formativos. Nem sempre é possível avançar simultaneamente em todas as áreas, pelo que é necessário estabelecer prioridades estratégicas.
Essa gestão exige ponderação e visão estratégica, procurando equilibrar a resposta às necessidades imediatas da profissão com a construção de iniciativas estruturantes que tenham impacto a médio e longo prazo.
– Qual foi o momento em que sentiu: “Valeu a pena”?
– Um dos momentos em que senti claramente que o trabalho desenvolvido estava a fazer diferença foi quando começámos a verificar que alguns dos contributos técnicos do Colégio começaram a ser considerados em discussões mais amplas sobre políticas de saúde e organização dos cuidados.
Destaco também o forte envolvimento e adesão dos colegas nas V Jornadas de Farmácia Comunitária, que reuniram mais de duas centenas de participantes e demonstraram o interesse crescente em aprofundar o papel clínico do farmacêutico comunitário.
São momentos como este que mostram que existe uma comunidade profissional motivada e empenhada em fazer evoluir a profissão.
– Que problema a marcou mais?
– Um dos momentos que mais me marcou ao longo deste ano foi acompanhar as situações difíceis vividas por alguns farmacêuticos comunitários em contexto de catástrofe, nomeadamente em episódios de inundações que afetaram diretamente a atividade de várias farmácias.
Perante estas situações, o Conselho do Colégio da Especialidade em Farmácia Comunitária acompanhou de forma próxima e contínua os colegas afetados, em articulação direta com a Direção Nacional da Ordem dos Farmacêuticos e também com o grupo dos Farmacêuticos Militares, com o objetivo de garantir todo o apoio institucional possível numa fase particularmente exigente.
Momentos como estes reforçam a importância da proximidade e da solidariedade entre farmacêuticos. O espírito de entreajuda, a capacidade de resiliência e o sentido de responsabilidade coletiva demonstrados nestas situações são, para mim, um dos maiores sinais da força da nossa profissão.
– Uma conquista que passou despercebida, mas que considera importante?
– O trabalho técnico desenvolvido na elaboração de normas e referenciais profissionais é muitas vezes discreto, mas extremamente importante.
Ao longo deste ano foram desenvolvidos vários documentos estruturantes, incluindo normas profissionais, pareceres técnicos e contributos para processos legislativos e regulamentares. Estes instrumentos são fundamentais para reforçar a qualidade da prática farmacêutica e para consolidar o reconhecimento do papel clínico do farmacêutico comunitário.
Destaco também o desenvolvimento do Guia Formativo de Apoio à Preparação para o Título de Especialista, um projeto inovador, construído em colaboração com a Secção Regional do Sul e Regiões Autónomas da Ordem dos Farmacêuticos, que pretende apoiar os farmacêuticos que desejam avançar no seu percurso de especialização.
– Que crítica ouviu este ano que a fez repensar algo?
– Uma crítica que ouvi com alguma frequência prende-se com a perceção de que as mudanças na profissão acontecem de forma lenta.
Essa observação levou-nos a refletir sobre a importância de comunicar melhor o trabalho que está a ser desenvolvido. Muitas vezes existe um esforço técnico significativo que não é suficientemente conhecido pelos colegas.
Reforçar a comunicação com os farmacêuticos comunitários é, por isso, uma prioridade.
– O que mudou estruturalmente na profissão na sua área este ano?
– Temos assistido a uma evolução progressiva no reconhecimento da farmácia comunitária como um ponto de proximidade e de acesso privilegiado aos cuidados de saúde.
Considero que este é um momento particularmente importante para afirmar o valor da intervenção clínica do farmacêutico comunitário e o contributo que estes profissionais podem dar para responder a muitos dos desafios que hoje se colocam ao sistema de saúde.
Hoje é cada vez mais evidente que os farmacêuticos comunitários, pela confiança que inspiram, pela acessibilidade e pela proximidade à população, desempenham um papel fundamental na promoção da saúde, na prevenção da doença e no acompanhamento da terapêutica.
Mais do que locais de dispensa de medicamentos, as farmácias comunitárias afirmam-se cada vez mais como estruturas de prestação de cuidados de saúde, com profissionais altamente qualificados e com um papel relevante na melhoria do acesso aos cuidados e na sustentabilidade do sistema de saúde.
– Qual acha que será o maior desafio de 2026 para os farmacêuticos desta área?
– Um dos grandes desafios para 2026 será motivar mais farmacêuticos comunitários a investirem na sua valorização profissional, avançando para a candidatura ao título de especialista em Farmácia Comunitária e reforçando, dessa forma, a diferenciação e a qualificação da profissão.
As candidaturas ao título de especialista em Farmácia Comunitária abrem a 20 de abril de 2026, e este será um momento particularmente relevante para reforçar a consciência de que a especialização representa um passo importante no desenvolvimento profissional dos farmacêuticos.
A qualificação e a diferenciação profissional são fundamentais para o futuro da profissão e para o reforço do papel clínico da farmácia comunitária no sistema de saúde.
– O que quer mesmo fazer até ao fim do mandato?
– Até ao final do mandato gostaria de contribuir para deixar bases sólidas para a valorização e diferenciação dos farmacêuticos comunitários em Portugal.
Um dos objetivos prioritários passa por incentivar mais colegas a investirem no reconhecimento da especialidade em Farmácia Comunitária. A abertura das candidaturas ao título de especialista em abril de 2026 representa uma oportunidade importante para reforçar essa valorização profissional.
Paralelamente, pretendemos continuar a desenvolver normas, referenciais formativos e iniciativas científicas que reforcem a qualidade da prática farmacêutica e contribuam para afirmar o papel clínico do farmacêutico comunitário no sistema de saúde.
Se no final do mandato conseguirmos ter mais farmacêuticos motivados a investir na sua diferenciação profissional e uma especialidade mais consolidada e reconhecida, considerarei que o trabalho desenvolvido terá valido a pena.




