As cervejas também são racistas? 696

Norman Douglas, escritor e diplomata britânico, dizia que se podia conhecer os ideais de uma nação pelos seus anúncios. Na verdade, como atividade que vive da capacidade de sedução das pessoas, a Publicidade tem de estar sempre atenta àquilo que nos move e é, por isso, que ela se torna um interessante espelho da sociedade em que se insere.

Esta semana, em virtude de um incidente num jogo de futebol, as notícias têm sido dominadas pelo tema do racismo e as duas marcas de cervejas que disputam, há muitos anos, o domínio do mercado português não passaram ao lado do acontecimento. Resolveram avançar com uma campanha em que aparecem duas garrafas das suas marcas lado a lado, encimadas pela frase “Contra o racismo não há rivais”.

Claro que as reações são as mais diversas, desde o aplauso, à acusação de mero aproveitamento comercial. E não me surpreenderá que apareçam referências ao racismo, dado que as cervejas do anúncio são as duas “brancas”.  Quem frequenta as redes sociais já percebeu que o ser humano é capaz de se lembrar de tudo e, infelizmente, nem sempre pela positiva.

Goste-se ou não, este é um dos caminhos que as grandes marcas precisam de fazer nos dias de hoje. Vivemos num mundo em clivagem profunda e, por isso, as marcas já não podem deixar de assumir posições. Como afirma Rafael Donato, diretor criativo, as marcas já não se podem dar ao luxo de ficar sentadas na vedação; são aquelas que tiverem a coragem de assumir uma posição que serão as recompensadas. Por muito que ter uma opinião seja algo polémico – outra coisa que as redes sociais não param de nos revelar.

João Barros
Professor Convidado na Escola Superior de Comunicação Social e Investigador no Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

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