A pobreza do holisticismo 337

A pós-modernidade veio, há algum tempo, seduzir o modelo biomédico a realizar a sua “reactualização nostálgica das origens” (Mircea Eliade), reconstruindo o papel da “relação terapêutica”, dum modo tal que não pode, por seu turno, ignorar os perigos de tal “religare”, na provocação de uma subjetividade que obsta ao caminho que se pretende “científico” e definido. De resto, o tema, já por si, convida à dualização moral, à polaridade que arrisca perpetuar-se no “absurdo” (Camus).
Esta polaridade poderia ser represada pelo dualismo “Terapeuta vs. paciente”, “Sujeito vs. Objeto” e é contra ela, contra a sua dor, que o terapeuta esgrime o seu método, seu paradigma, tentando seduzir o paciente, convertê-lo, mesmo que de modo melífluo. O intento é desculpabilizador e empreende a aproximação da “impassibilidade”. Não é apenas o caminho do paciente que é respeitado, já que o amor, mesmo o de cunho terapêutico, é sempre auto-amor; de resto, a conversão do paciente não se faz sem que ambos os agentes façam amor e se preludiem na Unidade incestuosa, que é, no entanto, pecado mortal. O “Princípio” do terapeuta, também ele paciente, comunica-se na interpretação, na narratologia, na espiritualização, assaz um Placebo com a potencialidade de edificar e contaminar o Sistema. Os pós-modernos dirão poder tal construção submeter a Realidade, com esta a poder, quiçá, vir a expressar novel “ciência”. Dirão, até, que a Realidade não passa de uma cativa da Razão, e que, no limite, “tudo vale” (Feyerabend), que é o mesmo que nada valer e conservar-se tudo em transformação, movimento, permanente, desafiando os limites do corpo.
Mas são exactamente os últimos que possibilitam a dualização, a dialética, precisamente na medida em que a dualidade interna visa um equilíbrio definido, que não pode variar para além das regras da vida. Se acontecesse resistir o paciente ao terapeuta placebetário, seria edificado o “pathos”, a dor, que, de certa maneira, demarca um conflito, e logo passaria o paciente a agente no sentido da sua própria conquista moral. A dualização cria a necessidade de responsabilizar, logo tragada ao “outro”. Quando os dois agentes se dialetizam, produz-se ainda mais dualidade, pode até suceder que se gerem vários vórtices de equilíbrio, e cada um tentará sua despolarização por conversão do maior número de sujeitos/pacientes, e isto é infindo, também na medida em que “tudo é interpretação” (Foucault), parecerá, talvez, perder-se a categoria nosológica numa mera abstração, já que tudo é abstração.
Às tantas, quando percebemos que o exercício dialético é essencialmente alopático, acabamos por traduzir o processo no ato natural do ceticismo, mas se este não possui um “Princípio” definido, limitar-se-á a durar “ad infinitum”, e o mesmo processo torna-se caricatura do charlatanismo, da pseudociência, que é o risco mortífero da “Totalidade”; porque esta pretende, na verdade, a morte, não a vida, o absurdo, não a ciência. Se a “Totalidade” enriquece, se ela aparenta tragar as diferentes variáveis envolvidas na Individualidade, se ela nos conta algo que o reducionismo não conta, nem por isso o “Todo maior do que a soma das partes” deve trair as suas componentes.
Pelo que os fatores placebetários não poderão olvidar a sua realização, de resto enformada pela “dor”, a sua redução no polo materialista, que lhe dará a Substância. É justamente neste equilíbrio entre Placebo e reducionismo que consubstanciamos a Unidade, não sem que ela tenha a tentação da “queda” dualizadora num Sistema que pode ser representado pelos polos “espiritual” e “material” em peleja permanente pela pacificação unitária e fenomenológica, guerra que parecerá anquilosar o Sistema, quando, bem vendo, ele está em perpétua transmutação.
A peleja dual, no fundo, a guerra entre “Espírito” e “matéria” teria, assim, que ser equilibrada como se equilibram “Princípio do prazer” e “Princípio da Realidade” (Freud), agindo o “pathos” como princípio transformador, mas, igualmente, enquanto hipótese de realização de um novo Princípio, mas nunca sem que aquele seja excessivo; é preciso que a dor seja útil e não mortífera, é necessário que a dor seja a proa da Consciência, da realização, não que ela destrua o Sistema. É precisamente a dor “empírica” que tem a função de restringir os excessos terapêuticos, de traduzir o limite “real”, “material”, gorando o equívoco de uma pseudociência que, prometendo antecipar a Unidade, pode matar o ser “vital”, por puro irrealismo. A promessa placebetária de Salvação possui o seu limite na própria Realidade, no “ethos” comum, mas não são as estatísticas que melhor traduzem a última.
As ciências sociais, e muito particularmente a Psicologia, construíram grande parte do seu arcaboiço com base em estudos e abstrações que não possuem falsificabilidade (Popper) possível. Para aquela, o Placebo chega a ser perfeitamente legítimo, porque, bem vendo, não existe um modo de o medir quando é a “Totalidade” que se estuda. E é por isso que parte da Sociologia se rendeu ao método “historicista”, “hermenêutico”. Mas isto é ficar refém da Interpretação, que, de qualquer maneira, se deve expressar somente no plano da relação; por outro lado, se se pretende aceitação absoluta do paciente, no limite a relação perde a relevância. Não há, a bem ver, que sentir-nos culpados por sermos objetivos, porque é esta a realização mais óbvia, e tudo o resto é um risco bem mais complexo e indestrinçável. Não cabe ao profissional de saúde envolver-se em demasia, a sua relação dual, científica, fisicalista, deve ser priorizada. Vemos, constantemente, que muito do que se faz em Psicoterapia é pura violência; muitos terapeutas, de tanto quererem amar, matar de amor, acabam por violar(-se). Na Fisioterapia, o escândalo está em assumir que existe ciência, quando quase toda a investigação experimental descora o “grupo placebo”.
A aceitação da Subjetividade terapêutica como parte inalienável do processo é a porta de entrada aos perigos maiores do pós-modernismo. A partir daqui, das duas uma, ou esgotamos essa parte tanto quanto possível, para que nos concentremos nos aspetos “físicos”, ou fazemos precisamente o contrário, bem vemos que a circularidade nos vitima constantemente, é também ela que nos põe a pensar nos seus termos, dualizando-nos, remetendo-nos à mesma peleja, à dicotomia, que, de resto, expressa um paradoxo fundo e bastante antigo.

Luís Filipe dos Santos Coelho